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Quais são os maiores tabus?

A dificuldade em assumir que não se consegue atingir o orgasmo ou que o parceiro não tem ereção ou perde-a facilmente. Costumo dizer que as pessoas só contam desgraças, exceto no que respeita ao sexo em que só contam sucessos.

Um inquérito recente concluía que uma grande percentagem de mulheres tem disfunções sexuais…

Não é verdade. Há uma pequena percentagem de mulheres que tem pequenos problemas sexuais fáceis de resolver e que não chegam a ser disfunções. Disfunções são coisas como problemas da libido, do orgasmo ou dores na relação sexual. Mas o que a maioria das mulheres tem são pequenos problemas transitórios que se resolvem muitas vezes com aconselhamento. Porque fazer amor tem técnica, aprendemos por tentativa e erro. Somos ensinados a seduzir mas não a fazer amor. Os media tiveram um efeito positivo, mas é importante não banalizar a sexualidade. Há muito desconhecimento e mitos relativamente a isto de fazer amor.

Quais são os mitos mais comuns?

Um é achar que se pode fazer amor em qualquer posição e atingir o orgasmo. No duche, por exemplo, atingir o orgasmo é difícil, apesar de a água ser relaxante o que é bom para os preliminares. No dia-a-dia, saber estas pequenas coisas ajuda muito.

E o problema mais comum?

A diminuição do desejo devido ao cansaço, principalmente. É por isso que fazer amor não pode ser só ao fim do dia, quando já nem se tem força para puxar um lençol. Há que sair da rotina.

O ponto G é outro mito?

Não há certezas. A parede anterior da vagina, onde se diz que está, é  mais vascularizada e tem muitas das terminações nervosas do clítoris, mas não existe propriamente um ponto, será mais uma zona com mais terminações nervosas… 

E a história do orgasmo vaginal e do clitoriano?

É verdade que o orgasmo é essencialmente clitoriano, mas não quer dizer que seja por toque direto, porque se movimentar a zona dos pelos púbicos ou outras áreas está a tocá-lo indiretamente. Mas também é vaginal porque as terminações nervosas do clítoris também estão na vagina. Um dos grandes problemas das mulheres em atingir o orgasmo tem a ver com deixarem de ficar excitadas com a penetração porque deixa de haver contacto com o clítoris. Mas há volta a dar: mudar de posição ou usar a mão.

O imaginário sexual ditado pelos media ou a pornografia condiciona a fantasia?

Todas as fantasias sexuais são positivas. As fantasias estão sempre  associadas às imagens que culturalmente nos metem na cabeça: os homens com mais de 60 anos gostam de mulheres com pelos púbicos porque os filmes que viam na altura mostravam mulheres assim, com os de 30 será o inverso. Não acho que a pornografia seja o principal modelo de aprendizagem masculino. O problema é que a sexualidade não devia ser desinserida do afeto, é boa é com afeto.

Os homens fazem mais essa dissociação sexo-afetos?

A sexualidade nos homens é diferente, apesar das diferenças estarem a diminuir. Começa logo com questões hormonais: a mulher que não toma a pílula ovula uma vez por mês e é nessa fase que lhe apetece mais fazer amor, já os homens produzem esperma todos os dias… Claro que há outros fatores a interferir no desejo, como as pílulas, as antiandrogénicas, que diminuem pelos e borbulhas, afetam mais a libido que as outras. Uma mulher que nunca teve filhos e está muito apaixonada aguenta qualquer pílula, uma que é mãe, esposa, doméstica, e toma uma pílula forte, chega à noite e vê-se aflita. Mas, em geral, as mulheres precisam mais de um romantismo não associado ao sexo. Por isso digo aos homens: deem beijinhos e sejam afetivos fora de casa, porque se fazem isso apenas em casa a mulher vai achar que é uma afetividade que tem como objetivo ir fazer amor.

Diz que a libido das mulheres diminui com a convivênciae a dos homens aumenta…

Em geral, o desejo aumenta sempre com a convivência, desde que não se caia na rotina. A principal causa de divórcio é a diminuição da atividade sexual e esta abranda cerca de 30% ao fim de três anos de coabitação. Muitas mulheres chegam ao consultório insatisfeitas porque o marido não faz isto ou aquilo. Mas se lhes perguntar ‘e ele do que gosta?’ não sabem, porque às vezes estamos demasiado centradas em nós. Mas se for ele a não querer o desejo da mulher aumenta logo. Por isso, aos homens digo: quando as mulheres nunca querem fazer amor, finjam que não vos apetece durante um tempo para ver o que acontece…

O desejo aumenta?

A insegurança aumenta o desejo assim como a memória. Se foi a uma tasquinha e a comida foi fantástica, está sempre a pensar lá voltar, mas se foi a um restaurante gourmet e saiu maldisposta, já não. Ou seja, quando a memória é boa, apetece sempre fazer mais.

Dizia que as mulheres estão muito centradas nelas. É uma inversão do cliché do homem que secundariza o prazer da parceira?

Hoje em dia, a maior parte dos homens está preocupadíssimo com o prazer das mulheres. Até porque a pessoa sente a autoestima em baixo se o outro não tiver prazer, acha é incompetente. Numa relação há sempre um que ama e outro que se deixa amar, embora esta dinâmica possa mudar com o tempo. Quando eu amo muito, a minha prioridade é dar prazer ao parceiro para obter a segurança que o amor recíproco representa. Uma mulher apaixonada não conquista ninguém. Só se consegue conquistar um homem se não se estiver apaixonada por ele.

Isto é, há que saber gerir a paixão, que é um cocktail de neurotransmissores associados a processos obsessivos. A paixão tem prazo de validade: seis meses a três anos. Depois vira amor ou pesadelo. Paixão toda a vida só se for platónica ou o parceiro der muita insegurança.

É casada há 30 anos. É impossível  não sentir segurança…

Claro que numa relação em que se investiu muitos anos há alguma segurança e é fundamental, é mais um laço que a relação constrói. Mas como tudo na vida, é até ao dia… Há uma coisa boa numa relação longa, é que o desejo pode até diminuir com o tempo mas a qualidade do orgasmo aumenta. Quando o parceiro é novo, o desejo é maior mas o orgasmo tende a ser pior, porque não conhecemos o mapa do prazer do outro.

Qual o segredo de uma relação tão longa?

Criar projetos em comum, ajudar o outro nos dele e levá-lo a ajudar-nos nos nossos. Na vida, passamos uma parte mínima do tempo a fazer amor, o resto é projetos em comum, crescer juntos. Por isso é preciso fazer um casting de alguém que tenha a ver com o nosso perfil e projeto de vida. Às vezes os projetos mudam e as pessoas separam-se, mas desde que consigam crescer em paralelo é possível manter uma relação feliz muito tempo. E numa relação não há duas, mas três pessoas: eu, tu e nós. É fundamental ter rituais a celebrar o ‘nós’.

As jovens têm queixas diferentes?

Não, apesar da liberalização de costumes, são as mesmas. Mas fala-se mais, as mulheres são capazes de vir às consultas por causa de problemas sexuais, o que dantes não acontecia.

Os problemas sexuais aumentaram com a crise?

Sim. Os homens estão preocupados, tem insónias, fazem menos amor. As mulheres também, mas muitas já estavam com alteração da libido antes, devido à rotina, ou porque, se têm filhos, transferem afetividade para eles. Digo sempre: se é mãe, não se esqueça de si como mulher senão o seu parceiro  vai esquecer-se da mulher por quem se apaixonou.

Qual é a principal dificuldade de entendimento entre os casais?

A intolerância. As pessoas andam  stressadas e como são economicamente mais independentes às vezes separam-se  por coisas ultrapassáveis. Mas a principal causa de divórcio é deixar de fazer amor, porque se estivermos bem-amados a relação fica mais tolerante. Quando os casais não fazem amor há muito tempo ficam mais agressivos.

O início da vida sexual é mais complicado para eles ou elas?

Para eles, porque o órgão do homem é mais visível, a ereção vê-se, por isso os homens têm mais complexos com o tamanho do pénis ou a ereção. Esta insegurança pode afetar a performance no início. Já na mulher depende do que lhe contaram. Se lhe disseram que fazer amor é fantástico, mais facilmente irá ter uma boa experiência. Mas a primeira vez nunca corresponde ao que se imagina.

Há muita preocupação quanto à frequência do sexo…

Cada pessoa tem a sua e depende  da idade, da fase da vida e do parceiro. O importante é estarem os dois em sintonia, se a frequência de um é quatro e a do outro é dois têm de fazer uma média. Não há necessidades normais ou anormais, nem limites, desde que o casal esteja bem.

Os homens fazem as pazes com sexo e as mulheres precisam das pazes para fazer sexo?

Concordo, mas insisto com as mulheres para ultrapassarem a inércia inicial porque depois de fazer amor os problemas são todos mais pequeninos. Faça amor mesmo que não lhe apeteça é o melhor conselho que posso dar. Porque se começar, depois vai ser ótimo.

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