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‘Por que estou sozinha?’ É a pergunta que muitas mulheres mais fazem a si próprias. Cansada de as ouvir, aliás cansada de me ouvir a mim mesma, fui saber as razões.

Antes de procurar a voz dos especialistas, nada como ouvir as queixosas. Estendi-lhes o gravador. Então expliquem-me: por que é que acham que continuam sozinhas? A resposta mais votada foi óbvia. Adivinhem lá. Não, não é ‘porque o George Clooney continua no Lago Como’. É: “Porque há mais mulheres que homens.”

É inegável. Quanto a isso nada a dizer, mas consolem-se: não somos as únicas: 51% das americanas com mais de 15 anos vivem sozinhas. As portuguesas não tardam a seguir-lhe as pisadas, comentaram as minhas cobaias, mas por enquanto aproveitem que as americanas estão piores do que nós, até porque têm mais concorrência. Imaginem a quantidade enorme de mulheres sozinhas em Nova Iorque, por exemplo, que só ela tem quase tantos habitantes como Portugal inteiro…

Segunda razão: “Os homens não querem um relacionamento, querem uma relação”. Ok, dejá vu, avancemos para algo mais elaborado: “As mulheres com cabeça não encontram homens à altura.” Porquê? “Porque estão casados. As mulheres querem todas as mesmas coisas, e um homem decente não fica nem dois segundos solteiro.”

Pronto, isto está estudado: é um dado científico que as mulheres preferem casar com alguém uns pontos acima do seu QI, enquanto os homens preferem uns pontos abaixo.

Sigamos para bingo: alguém que me reúna as coordenadas? “Os homens têm toneladas de mulheres lindas, espertas e cultas por onde escolher, as mulheres têm poucos homens à sua altura. Quanto mais espertas, mais exigentes são, por isso quanto mais espertas, menos homens têm.” Ai meu Deus! Estou a ver o anúncio: ‘Mulher com cabeça procura homem sem umbigo’. Conclusão: vamos ser burras e casar aos 20?

Eles têm medo da tampa

Resumo: imaginemos uma mulher com, digamos para sermos otimistas, 10 homens ao seu alcance. Se tiver 30 e muitos ou 40 anos, vamos tirar, se formos otimistas, cinco homens. Dos cinco que restam, tiramos um (para sermos otimistas) que tem metade do QI dela, e outro (para sermos otimistas) que é gay. Dos três que restam, um não paga impostos desde 1984, acorda às 4 da manhã para jogar ‘Dungeons and Dragons’ e é um control freak. O outro tem um índice de massa gorda acima dos 34, um caniche que uiva noite fora, um dente torto, e apneia do sono. O terceiro é fantástico, mas simplesmente não vai com a cara dela.

Estou mesmo a ouvir o lado masculino: ai não é nada assim! Mas que raio de homens é que vocês conhecem? Há imensos homens lindos, espertos, cultos interessantes e sem caniches! E as mulheres respondem: pois há. Estão casados.

“E há ainda outro entrave”, atira outra cobaia. “As pessoas a partir de uma certa idade encontram-se cada vez menos. Depois dos 35, onde é que vamos encontrar homens interessantes? Não é nas discotecas…”

Mesmo quando os encontramos, eles não acusam o toque: “Os homens agora são uns frouxos.” Frouxos? “Têm um medo que se pelam das mulheres. Têm pavor de levar uma tampa.” Isto é tão verdade que fico calada. Dizer o quê? Mas ela continua com dados sociológicos: “A sociedade mudou tanto nos últimos dez anos que eles ficaram baralhados, já nem sabem se devem abrir a porta do carro, oferecer flores, pagar a conta do restaurante, ou se a gente se ofende. “

Homens: a gente NÃO se ofende. Sufoquem-nos de flores até contrairmos asma alérgica, abram-nos a porta do carro até apanharmos gripe A de tanta corrente de ar, e paguem-nos trufas com chocolate e ostras com limão até morrermos de indigestão, que a gente NÃO se ofende.

Claro que é muito fácil atirar as culpas para os outros. Não estamos sozinhas porque somos insuportáveis, porque ninguém nos atura, temos borbulhas na testa, um canino desviado, ou incapacidade para amar. Estamos sozinhas porque não há homens de jeito e as estatísticas estão contra nós. É tão mais fácil, não é?

Ou seja: isto é tudo tão verdade que não serve para nada… Certo? Errado: serve pelo menos para não nos deixarmos cair em armadilhas muito comuns e muito perigosas.

Primeira armadilha da mulher desesperada: corre sérios riscos de se apaixonar… pela pessoa errada. Percebi que era tempo de deixar as minhas cobaias e passar aos meus gurus

Quando amamos… uma fantasia

Ora bem: como não cair por alguém que não nasceu para mim? Os psicólogos são unânimes: não deixe que o desejo lhe retire a lucidez.

“Porquê viver uma relação que sabemos à partida que não nos vai fazer felizes?” pergunta a terapeuta Margarida Vieitez, no livro ‘Guerra entre quatro paredes.’ (Esfera dos Livros). O problema é que muitas de nós nunca pensamos em prevenir os problemas de uma relação… à partida. Quantas de nós nunca estiveram com alguém que achavam fantástico embora tivesse defeitos irritantes, aquela coisa de pagar tudo a meias, aquele tique no olho esquerdo, aquela mania de endireitar tudo… Abra os olhos! aconselha Margarida: “Não existem pessoas perfeitas nem relações perfeitas. O que existe é o que consideramos aceitável e o que consideramos inaceitável.”

“Os românticos não veem com quem estão, veem apenas a relação que estão a imaginar”, explica o psicólogo Joaquim Quintino Aires, no livro ‘O amor não se aprende na escola’ (Ed. Caderno). “E se não veem com quem estão, não conseguem avaliar se aquela pessoa lhes agrada ou não. E é este o drama. O feitio da pessoa, os seus modos, não é coisa em que pensem. Não é de estranhar que a relação lhes pareça tão boa.”

O problema, como ele próprio refere, é que algumas pessoas nunca desenvolvem a capacidade de pensar o pensamento dos outros. E na falta, porque precisam de lidar com os outros, idealizam-no a partir do seu próprio pensamento. “Ao conhecerem uma pessoa que apresenta algum traço físico ou comportamental que lhes agrada, imaginam o resto, ou seja, idealizam, constroem uma fantasia sobre a outra pessoa, uma fantasia em que o outro é exatamente como eles querem ou precisam. A partir daqui sentem-se ‘apaixonados’, e claro, desejam que o outro também esteja apaixonado. Mas como aceitar quando a outra pessoa diz que não está apaixonada?”

Ou seja, podemos não ter um relacionamento forte porque estamos muito ocupadas a amar… uma fantasia.

Apaixone-se… por si

Segunda armadilha: deixar que nos destruam a autoestima. Ver a falta de um parceiro permanente como a confirmação de que, no fundo no fundo, você não presta para nada.

“Quando não temos ninguém, a maioria das pessoas começa logo a pensar: mas que defeito terá aquela, para estar sozinha?”, desabafa uma das cobaias. “E o pior não é isso: o pior é que eu mesma já começo a pensar isso de mim própria. Quando encontro alguém, penso: por que raio é que este se ia interessar por mim, quando os outros também não se interessam?”.

Segundo os psicólogos, este é um dos piores ‘auto feitiços’ que podemos fazer a nós próprias. Por isso, desative-o já. Cuspa o bocado de maçã envenenada que lhe está engasgado na garganta. O que uma cobaia me aconselha é: seja a pessoa por quem adoraria apaixonar-se!

Começo a rir. Ai meu Deus! Um caso gay comigo mesma, que emocionante! Mas percebem a ideia, não? Virem o foco para vocês, em vez de deitarem as culpas para os outros. Quer alguém especial? Torne-se especial primeiro. As pessoas da mesma tribo costumam atrair-se: por isso faça parte da tribo dos espertos, alegres, sensíveis, encantadores. E das duas uma: ou encontra outro esperto, sensível e encantador que a reconhece, ou não encontra. Mas em não encontrando, não é muito melhor ser esperta, sensível e encantadora do que aquela chata que ninguém atura?

Isto não quer dizer que tem de ser necessariamente esperta, alegre e encantadora para que alguém se apaixone por si. Apaixonarmo-nos não depende de sermos giras e bem vestidas (embora possa ajudar). Basta ir a qualquer centro comercial para ver gente perfeitamente horrorosa com um apaixonado pendurado no braço. Mas devemos estar, em primeiro lugar, apaixonadas por nós, por nossa causa. Por isso, depois de virar o foco para si, desvie-o para os outros: “Seja mais exigente com os outros, e menos consigo”, aconselha Quintino Aires. “Algumas pessoas não gostam de si e nunca vão gostar. E o problema não é seu. Apenas não podemos comprar o amor a qualquer preço.”

Acompanhada mas só

Alguns solteiros idealizam o casamento, mas muitas casadas descobrem que estão mais sozinhas a dois do que alguma vez estiveram a solo: “É pura ilusão pensar que se consegue manter uma relação sem investir nela,” alerta Margarida Vieitez. “Lembre-se que a sua relação apenas viverá se a alimentar. Caso contrário, desaparecerá.” Para prevenir este ‘desaparecimento em combate’, a ‘receita’ nem é assim tão difícil: não se isole do mundo, continue a relacionar-se com outras pessoas e com a família, a dois e individualmente. Quando se aperceber que alguma coisa não está bem, não deixe andar: páre e converse. Afinal, não foi para viver sozinha que começou a viver a dois.

Está a olhar para o lado errado?
Pode haver milhões de razões para estar sozinha. Algumas delas são:

– Porque está a olhar para o lado errado: Você adora o Luís, mas ao Tiago, que a adora em silêncio, não liga nenhuma.
– Porque está no sítio errado: A não ser que more numa telenovela, é pouco provável que o homem da sua vida more em sua casa.
– Porque adora o som da sua voz: Aprenda a ouvir. E já agora, a olhar.
– Porque é demasiado tímida: Reinvente-se. Ninguém tem de ser nada para sempre.
– Porque já lhe quebraram o coração e jurou não amar outra vez: Arranje uma desculpa melhor. Siga.
– Porque não consegue esquecer o seu ex: É outra desculpa. Só acontece até se encontrar outra pessoa com que encher o coração.

** Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico **

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