Será que ele está preparado para casar?

O neo-tradicionalista

Prepare-se: não vai ser sua mulher. Vai ser sua ‘esposa’. E nada de lhe aparecer no Dia D de cor de rosa, azul claro, ou mesmo pérola. Não namorou 12 anos para lhe aparecer de pérola. Ou é branco-cisne ou ele volta para casa da mãe. Este espécime não decide casar porque está terrivelmente apaixonado, porque a mãe quer, ou porque está farto de ver a telenovela sozinho: casa porque é o todos os homens deviam fazer quando chegam a uma certa idade. Claro que escolhe uma mulher certinha, maternal, que o deixe brilhar, que não lhe dê trabalho, que lhe dê segurança, que lhe dê mimo. Foge dos desafios. Foge de se apaixonar, embora não o saiba. Não quer uma vida sentimental muito complicada. Não quer um padrão de azulejos muito colorido. Ajuda a escolher os cortinados e as toalhas de mesa e os lençóis, e isso para ele é o equivalente a estar apaixonado. Mas se quiser um destes para marido, pense bem: ele vai exigir que você fique em casa todas as noites (porque não casou para estar sozinho) e que lhe faça o jantar (porque não casou para estar esfomeado). Se não gosta de estar sozinha nem esfomeada, é um bom espécime para si. Más notícias (conforme o ponto de vista, mas enfim): um dia destes, daqui a muitos anos, este homem apaixona-se a valer, leva um abanão e não sabe o que há-de fazer à vida. Vantagem: em todo o caso, se lhe faltar este, ainda restam os homens abaixo.

O pós-romântico

Nunca ‘engraçam’ com alguém e raramente têm dúvidas: ou odeiam ou acham que já não podem viver sem ela. O caso típico: viu-a passar na rua num pôr-de-sol e seguiu-a durante dez quarteirões até à sua rua. No dia seguinte mandou-lhe uma avionete com fumo cor de rosa a implorar: ‘Joana, Casa Comigo Já.’ Claro que ninguém lhe resiste. Casam de preferência numa cerimónia mística os dois vestidos de antigos celtas com lírios na cabeça ao pé de um lago todo rodeado de velas, ou então mascarados de cowboys em Las Vegas numa limusine cor de rosa. Depois passa os 15 dias seguintes a passear consigo por Florença e Veneza, a mandar-lhe ramos de rosas vermelhas à cama, a escrever-lhe poemas de amor a rimar com dor todas as noites, a declamar-lhe o ‘maravilhoso coração maravilhoso’, a dizer-lhe que os seus olhos parecem safiras, a escolher os nomes dos filhos (Bianca Rafaela e Ângelo Ticiano). !5 dias depois estão de volta. A mulher a dias mete baixa. O chefe exige horas extraordinárias. Ele descobre que a sua especialidade culinária são ultra-congelados. Você descobre que ele se deita normalmente às horas a que você tem de apanhar o autocarro. A sua avó diz que a deserda se lhe der uma neta com o nome de Bianca Rafaela. Dez dias depois, ele vê passar a vizinha do 5º num pôr-de-sol metida num vestido às flores. O resto da história já a conhece. Moral da história: não case com este espécime antes de o ensinar a passar a ferro, de lhe arranjar um emprego decente, de o avisar de que não tenciona aprender a cozinhar e de dizer que quer chamar Margarida à primeira filha.

O prático

Melhor do que uma máquina de lavar só… duas máquinas de lavar, claro. Teve aos seis anos o primeiro desgosto de amor, quando o ursinho azul o traiu com o irmão mais novo, e desde então sabe muito bem que o amor só existe nos livros da Barbara Cartland com que enganam as pequenas, coitadas. Única coisa fiável nesta vida: os electrodomésticos. As contas bancárias. As gravatas. Acha que o casamento é uma excelente maneira de unir os destinos de dois carros. Se a dona do carro for ao gosto dele, tiver madeixas loiras, usar saltos altos e se puder levar às festas da empresa, melhor. Gosta de fazer as coisas a sério, e fará um casamento de estadão, só para mostrar que pode. Que mais há a dizer? Muito pouco. Ele gostará de ter dois filhos, porque é o que o que toda a gente tem, mas se for preciso aluga uma suite num hotel para não os ouvir gritar, até que o mais velho vá para a Faculdade (de economia, claro). Insistirá em ir de férias todos os anos para o local mais longínquo do planeta a que seja possível ir sem treinar para astronauta, mas certifica-se antes de que será igualzinho ao Algarve.Vantagem: sabe sempre com o que pode contar. Ele nunca a enganará com outra, a não ser que ela tenha uma carrinha mais espaçosa do que a sua, e mesmo assim hesitará. E se o tratar bem, pode ser que lhe evite o calcário nas canalizações.

O pai de família

Há um segredo sobre ele que nem os amigos desde o infantário sabem: quer ser pai. Quer mesmo ser pai. Quer ser pai até às últimas consequências (mudar fraldas com cocó, limpar vomitado e tentar acertar uma colher de canja numa cabeça voadora) e está mesmo preparado para exercer. Passou noites em claro no final da adolescência a ter visões de si próprio à cabeceira de uma mesa com cinco meninos de um lado e cinco meninas do outro, todos com o nome do pai (as meninas seriam Marias). Treinou durante anos com os sobrinhos (era o tio preferido, aquele que ajudava a fazer os trabalhos e levava ao Jardim Zoológico e carregava às cavalitas quase adormecidos) e chega ao casamento perfeitamente (ou pelo menos, razoavelmente) treinado. Quando não chega, acompanha a mulher àqueles cursos pré-parto em que se aprende a dar banho a um Nenuco já deslavado de tanta lixívia. É o único pai presente, ou pelos menos o único que sabe responder correctamente à pergunta: “O que é que é preciso fazer depois do bebé comer?” A que ele responde como se estivesse na missa a dizer amen, “Pô-lo a arrotar.” A sogra adora-o. Os amigos acham que ele é o pai perfeito. As amigas passam a vida a dizer aos maridos: “Vês? O António levanta-se três vezes por noite e não protesta.” Más notícias: é demasiado possessivo com as crianças, principalmente se forem meninas. Antes de chamarem pela mãe, as filhas do pai chamam pelo pai. Não as deixa sair para rua sem três casacos. Soterra-as em brinquedos. Exige que sejam as melhores da turma. E vai com elas para a discoteca até fazerem 35 anos.

O melhor amigo

Você ajudou-a nos trabalhos de Metodologia do Trabalho Científico. Ele foi a sua casa quando o seu computador pifou e conseguiu fazê-lo ressuscitar. Desde então ficaram amigos para a vida e para a morte. Só amigos. Você namorava o Paulo Jorge, que era giro e jogava na equipa de basquetebol. Ele gostava de namorar a Patrícia, mas tinha os dentes tortos e a Patrícia não namoraria um rapaz com os dentes tortos. Dez anos depois, encontraram-se no mesmo emprego. Os encontros no bar para compararem desgostos amorosos recomeçaram. Mas ele continuava a ter os dentes tortos. Certa vez, entusiasmaram-se numa conversa sobre se o ‘Alien 1’ era melhor do que o ‘Alien 2’, já para não falar no 3 ou no 4 ou na possibilidade do 5, e de repente acharam-se nos braços (quando não nos lençóis) um do outro. Nunca mais se lembraram nem do Paulo Jorge nem da Patrícia. Ele conhece todos os seus pontos fracos. Sabe que você viu três vezes ‘Um Porquinho Chamado Babe’ e chorou em todas, que implantou dois dentes falsos, e não terá um ataque de coração quando você lhe aparecer às sete da tarde de óculos como o Harry Potter. Você sabe perfeitamente que ele ressona, que é alérgico aos gatos e que tem predilecção por pijamas com padrão de preservativos às cores. São o melhor amigo um do outro. Talvez não peguem fogo aos lençóis, talvez não sejam o Romeu e Julieta, mas ninguém pode dizer que foram ao engano.

O convertido

Já toda a gente tinha perdido a esperança de o casar, até a mãe dele, que tinha rezado todas as noites para que Nosso Senhor lhe enviasse uma noiva decente para o filho. Este espécime demora a decidir-se. A sorte dele é que é homem e pode esperar até aos 85 anos para ter o primeiro filho. Aliás, este é sempre o argumento dele. Acha que é imortal, faz grandes noitadas de copos e amigos até que os amigos vão desaparecendo um por um para ficar a tomar conta dos filhos bebés. Aí, a coisa deixa de ter tanta graça, mas mesmo assim este espécime resiste. Tem predilecção por mulheres fatais, que nunca lhe conhecerão o fundo apaixonado e tímido e portanto não o ameaçam nem o atingem com muita força. Até que um dia, descobre que sofre de reumático, e assusta-se a pensar que vai ficar sozinho na velhice e que nenhum dos sobrinhos vai aparecer no lar para o visitar. Então casa. Geralmente, a ‘vítima’ é muito mais nova. Muito mais gira. Três anos depois, já têm três filhos. Ele aprendeu a fazer sopa de legumes e arroz de tomate. Dizem que até já muda fraldas, embora ninguém tenha realmente presenciado o milagre. De qualquer maneira, ninguém o reconhece. A mulher, que tinha 3 meses quando ele começou a pensar em mudar de vida, acha que a culpa é dela e sente-se feliz. Ele também. Chega a tornar-se um fundamentalista: quando deixa o clube dos solteiros, chateia todos até fazerem o mesmo, apresenta amigos e amigas a torto e a direito, e quando consegue juntar alguém, obriga-os a convidá-lo para padrinho e gaba-se a toda a gente do feito.

O reincidente


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