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Mentalize-se

Antes de se atirar ao trabalho, pense que uma carta de amor é a carta mais lida, relida e (quantas vezes…) treslida. Uma carta do banco pode deitar-se fora dez minutos depois, uma carta de amor guarda-se durante toda a vida. Pode ser a arma mais eficaz, tanto por si como contra si. Portanto, todo o cuidado é pouco. Pense nos seus sentimentos agora que ama o João, mas pense também que qualquer dia pode amar o Joaquim… Não? É melhor nem pensar nisso? Então passemos à próxima.

Mandar ou não mandar?

Antes de pôr a língua ao canto da boca e sacar da caneta de aparo, verifique duas ou três coisas: a pessoa já mostrou sinais de que corresponde? “Tenho-o visto várias vezes no elevador e confesso que a sua cara me agradou”, quase nunca deu bom resultado, a não ser que seja masoquista e goste de colecionar tampas. Se o alvo é aquele loiro que encontrou duas vezes nos Correios e que nem sequer olhou para si, talvez seja melhor escolher um alvo mais consciente da sua presença neste mundo. Se o loiro sabe que você existe mas é casado e com três filhos, também não parece a melhor ideia. Se o loiro lhe sorri um daqueles sorrisos de circunstância, talvez seja melhor deitar umas coisas ao chão para ver se ele apanha, passar-lhe uma rasteira, meter conversa ou aquecê-lo primeiro com uns cafezinhos no bar da esquina, antes de se confessar por escrito. Por outro lado, se pretende declarar-se a alguém com quem trabalha, por exemplo, ou com quem passa a vida a encontrar-se, pense duas vezes. É que, no caso de ser rejeitada, não deixará de passar a vida a dar de caras com ele com a agravante de passar a vida a pensar: “Bolas, foi este que me deu tampa.”.

Cuidado com a sede

Se logo no segundo parágrafo ataca a dizer que quer subir com ele ao altar da igreja do Bom Jesus de Braga, ser a mãe dos filhos dele e amá-lo até morrer, talvez seja melhor começar com qualquer coisa mais suave. Fantasias eróticas também só pode tentar se a relação já for avançada.

Vá buscar o dicionário

‘Cauzou-me grande praser ouvir o que me disses-te ontem…’ Notou alguma coisa errada? Se não, é melhor ter um dicionário bem pertinho. Não há nada que corte mais o clima romântico do que uma carta cheia de erros: dá logo a impressão de que a pessoa que nós amamos nem sequer mereceu o trabalho de ir ao dicionário. Ah, e por muito que se diga que as cartas de amor são ridículas, tente controlar, além dos erros, o impulso kitsch. Sim, é possível escrever uma carta de amor sem ser ridícula, e não é preciso ser o Saramago. A regra é: ser sincero sem se humilhar. Ou então, humilhe-se com estilo.

Selecione o alvo

Se há pessoas que gostam de receber cartas como as que o seu bisavô poderia muito bem ter escrito à sua bisavó, cheias de palavras como amor, estrelas, anjos, e coração, os alvos mais difíceis não se pescam com fórmulas tão batidas. Esqueça as expressões tradicionais tipo: “nunca conheci ninguém que fizesse o meu coração bater tão depressa como tu”. Seja pessoal, mas original. Claro que convém não ser original demais. Veja o que aconteceu com o príncipe Carlos quando se lembrou de dizer que queria ser o tampão da Camila, e já tem uma ideia do que NÃO dizer. Segunda regra: evite palavras caras, que ao contrário do que se pensa, nunca funcionam. Seja o mais simples que puder.

Capriche na letra

Tenha paciência, mas uma carta de amor escreve-se à mão. NÃO se imprime, não se manda por mail, e escusado será dizer que não se manda por telemóvel. Se a sua letra é igualzinha à do seu dentista, peça alguém com uma letra legível que lhe passe a coisa a limpo (convém não pedir ao seu dentista). Se nem por cima do seu cadáver, então olhe, mais vale mandar passada a computador que não a mandar, mas por favor explique logo que se não fosse a sua maldita letra de médico, tudo seria diferente… E se tem computador, resista ao impulso de juntar imagens de coraçõezinhos com setas, anjinhos com trombetas e raminhos de rosas…

Não recorra a ajudas

Imagine que vai a um site daqueles com modelos de cartas de amor. Para começar, soam todos tão de plástico que não comovem nem o coração mais amanteigado. E depois, imagine que ele um dia anda a navegar e dá precisamente com a carta que você lhe mandou… Esqueça que essas xaropadas existem. Esqueça as fórmulas. Afinal, o vosso amor é suposto ser único, e uma carta de amor não é uma fórmula da repartição de finanças, daquelas que estão afixadas na parede e a pessoa copia colocando o nome e a morada e o nº de contribuinte nos espaços em branco…. Recorra apenas ao seu coração. Vai ver que é o suficiente

Co mece e acabe bem

O princípio e o fim da carta são muito importantes porque dão o tom. Claro, se só o viu duas vezes, talvez não seja boa ideia atirar logo com ‘Querido amor da minha vida:”. Na dúvida, pode começar curto e grosso, apenas com o nome dele. Mas lembre-se que é o final que ele vai recordar. Por outro lado, se a coisa já vai animada, não corra o risco de lhe escrever a carta que escreveria a um amigo com quem vai tomar uns cafezinhos de vez em quando, o que pode arrefecer a paixão.

Divirta-se

Não é desatar a contar anedotas de loiras ou de alentejanos (principalmente se ele for loiro e/ou alentejano…) mas vá pensando em coisas boas em vez da grandiosa tampa que vai levar. Pense no sorriso da pessoa quando ler a carta.

E se levar tampa…

Olhe, acontece aos melhores. Se levar uma tampa, não pense que há volta a dar. Geralmente não há. Não insista com um poema dos Coldplay sobre a desgraça de amar e não ser amado. Não lhe mande rosas vermelhas nem um bilhete duplo para o Euro 2010. E não fique em casa muito deprimida a pensar que o mundo acabou e que já não há esperança. Escolha melhor o alvo da próxima vez, um que mereça os seus dotes literários, a sua sinceridade, e a sua coragem, e principalmente que esteja no mesmo comprimento de onda.

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