Os erros mais comuns das mulheres nas relações amorosas

Os homens sofrem menos. Pelo menos a crer na experiência profissional da psicanalista venezuelana Mariela Michelena. A autora do livro ‘Mulheres Mal-Amadas – Liberte-se das Relações Destrutivas e sem Futuro’ (Esfera dos Livros) especializou-se em problemas de relacionamento e traça o mapa dos pecados capitais que as mulheres mais cometem nas relações: submissão, intermitência, impostura e dependência correspondem a padrões destrutivos de relacionamento que geram muito sofrimento e podem ser doentiamente viciantes. “Todas as relações atravessam dificuldades, mas há relações que são uma dificuldade. As mulheres não podem contentar-se em ser mal-amadas. Há que olhar para as relações com objectividade e ver se causam mais sofrimento do que felicidade. Sem medo de ficar sozinha.”

A SUBMISSÃO

Onde está Irene? Escondida sob a capa de super-Irene, ela sacrifica-se e não entende por que os homens não a tratam como merece.

“Perdão”, “lamento”, “compreendo-te”, “não te preocupes”, “não vou dar importância” e “não voltará a acontecer” são frases típicas da mulher que caiu no pecado da submissão sem se dar conta. Chame-se Irene, Ana ou Joana, ela está sempre disposta a ajudar os outros e não percebe por que é que a sua relação não corre bem quando ela faz tudo para que corra.

Quando se enamoraram, a relação era apaixonada e absorvente. Ela nem se apercebeu como lentamente ia fazendo cedências às vontades do namorado. Afinal, fazia-o de boa vontade. Não lhe custava nada! Se ele não gostava de ir ao cinema, ela também não se importava de ficar em casa a ver TV… O problema: a uma cedência juntam-se dezenas e, de forma subtil, ela vai alterando os seus gostos e as suas preferências, até o corte de cabelo e forma de vestir, para agradar ao companheiro. Aos poucos afasta-se da família e dos amigos, mas sobretudo de si própria. Lentamente, vai perdendo os seus contornos. Não se pode dizer que há maus tratos ou pressão. O namorado não lhe exige nada, também não é preciso. Basta pedir e ela concede.

A Irene perdeu a Irene

A submissão de Irene é congénita. Ela pratica-a com qualquer pessoa, seja no trabalho, com as amigas ou com o namorado, mas curiosamente com este o efeito não é o esperado. O companheiro queixa-se cada vez mais que Irene o sufoca. Ao mesmo tempo Irene não pode afastar-se. Tem medo que ele prescinda dela. E tem medo de se sentir melhor sem ele também. Um dia ele deixa-a por outra mulher e Irene descobre que perdeu a Irene. Está sozinha e já não sabe quem é.

A DEPENDÊNCIA

A paixão que é como uma droga.

Síndrome de abstinência com angústia, insónia, perda de apetite, náuseas, pressão no peito e tristeza são sintomas de uma relação que já se transformou numa dependência. Acontece com frequência em contextos de clandestinidade quando a mulher-amante sabe que o seu amado nunca irá deixar a legítima, mas ainda assim opta por ignorá-lo e vive na esperança ilusória de que tudo irá mudar, enquanto mendiga atenção e tempo. Estes homens podem amar as suas mulheres-amantes, mas são elas que lhes dão tempo, paciência e compreensão, passando muitas vezes por cima das suas próprias necessidades e contentando-se com migalhas. Na situação de dependência emocional, é o amor pelo outro que ocupa toda a mente e vida do viciado. Neste caso, o vício é um homem, e nada existe para além dele. Mesmo que isso cause apenas infelicidade, a viciada continua a apostar em promessas e a receber em troca muita humilhação e sofrimento.

Voltar a ser dona de si

A mulher dependente deixou de estar no comando da sua vida e a cura consiste em voltar a ser dona de si. Como em todas as dependências o primeiro passo é a aceitação e depois a abstinência.

Só assim é possível o reencontro consigo mesma que preenche o vazio deixado pelo amor doentio. A recompensa são emoções mais leves e seguras e as rédeas da sua vida de novo nas suas mãos.

A INTERMITÊNCIA

Agora sim, agora não. Sara sabe que nunca o vai deixar E, se o fizer, voltará. O seu amor é uma montanha-russa.

Sara e Miguel davam-se francamente mal. O carácter forte de Sara impedia-a de suportar qualquer coisa e discutiam porque ela reivindicava direitos e fazia exigências. O problema: fosse de quem fosse a iniciativa de acabar, quando ficava sem o ver por uns dias, Sara convertia-se numa menina assustada e pedia perdão mesmo sem saber bem porquê. A reconciliação era sempre apaixonada e fazia-a esquecer de todas as humilhações e sofrimentos.

A excitação da incerteza

Esta é a típica relação que precisa da excitação da incerteza para continuar, no fundo, um parque de diversões emocional. Quem está de fora não entende as reconciliações, mas as Saras acham sempre que ‘desta vez vai ser diferente’ porque sentem que têm culpa e que com um pouco mais de paciência, melhorando o seu carácter, podem conseguir que funcione. O que não entendem é que nem tudo depende delas. Não é que eles não as amem, mas a sua forma (má) de amar não vai mudar. A cura de Sara veio apenas quando experimentou não ligar depois de uma ruptura. Ele também não ligou e nunca mais soube dele. Depois do luto, percebeu que tinha estado viciada em manter viva a emoção de um novo amor – com a mesma pessoa – à custa de muito sofrimento…

A IMPOSTURA

Estarei à altura do meu príncipe?

Isabel estava casada com Henrique, sentia-se amada, embora acusasse uma sensação de incomodidade que não conseguia identificar. Dizia apenas que se sentia sempre desajeitada e insegura junto dele. Henrique era mais velho e tinha tendência para ‘educar’ Isabel, mas de forma subtil. “Vais pôr esse vestido? Fica-te bem, mas lembra-te de que já não tens 15 anos” ou “cuidado com o que dizes no jantar, olha que eles não têm sentido de humor”. Com comentários destes ia modelando Isabel e fazendo-a sentir-se cada vez mais incapaz.

Serei quem tu quiseres

Isabel é o caso típico da síndrome da Cinderela: não sabe quem é, duvida do seu valor e sente que tem de fazer esforços para agradar. Mariela Michelena explica que esta síndrome é a encenação de uma fase que decorre entre a infância e a pré-adolescência quando a menina que até aí admirava a mãe passa a ter uma ‘madrasta’ que não a compreende e com a qual compete, e um pai que já não lhe dá beijos porque a filha começa a crescer. A mulher Cinderela fica presa nesta fase, nunca se sente verdadeiramente adulta e acha que para conquistar o seu príncipe terá de disfarçar-se de mulher, fazendo o que for preciso, mesmo que seja deformar o pé para caber no sapatinho de cristal. Porque se sente uma fraude, vive sob a ameaça de ser descoberta, está sempre alerta. É uma estagiária em contínuo período de experimentação e precisa de aprovação constante. Não é suficiente que o príncipe a tenha escolhido, ela sente sempre que tem algo a esconder e a provar.

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