É possível que um bebé destrua um casamento?

Já acontecia dantes, mas agora está-se a tornar uma verdadeira epidemia: há cada vez mais homens que não aguentam a chegada de um bebé, e essa está a tornar-se a principal razão para um divórcio.

"Eu e o meu marido sempre quisemos filhos," conta Joana Campelo, 40 anos, mãe do Filipe, hoje com 5. "Ainda por cima, esperámos muito por um bebé. O Filipe só nasceu oito anos depois de nos casarmos."

O casamento não era uma rocha, mas também não era um caso perdido. "Tínhamos conflitos, mas este não foi um daqueles casos em que se tem um bebé para salvar o casamento. Queríamos ambos ser pais, e quando engravidei, o Luís ficou contentíssimo. Durante a gravidez, fomos o casal mais feliz do mundo. O pior foi depois."

O Filipe nem era um bebé problemático. "Claro, chorava de noite como todos os bebés. E eu sentia-me infeliz, estava muito stressada, o que é normal. Mas mais angustiada fiquei quando descobri que o Luís não me dava apoio nenhum. Para ele, a ideia de ter um bebé era fantástica, mas quando começou a ver o trabalho que aquilo dava, baixou os braços imediatamente. O bebé chorava a noite toda, e eu é que me levantava, eu é que tratava dele, o Luís estava sempre muito cansado. Aos fins de semana, saía para passear com os amigos, e deixava-me sozinha com o bebé. Dizia que precisava de ‘arejar’. Acho que foi mesmo um caso de infantilidade aguda, apesar de ele já ter quase 40 anos. Era incapaz de lidar com o mínimo esforço."

Algum tempo mais tarde, o marido confessou-lhe que tinha outra pessoa. "Assim do nada. Fiquei estarrecida. Logo na altura em que me sentia gorda, infeliz, péssima mãe, ele diz-me que arranjou outra pessoa." Separaram-se, claro.

Já não se sabe o que implica ter um bebé

"Existe um cor-de-rosa muito grande à volta do nascimento de uma criança", começa por notar Margarida Vieitez, fundadora do Espaço Família, uma clínica de mediação familiar que apoia casais em crise. Também ela nota um enorme número de casais que lhe aparecem a pedir o divórico porque os homens não conseguiram superar a chegada do bebé.

Percebemos logo que tudo isto está envolvido numa longa série de razões: o bebé, coitado, é a ponta do icebergue de uma complicada teia pessoal, relacional, cultural, geracional… Comecemos então… por um lado qualquer do poliedro. Tiramos ao calhas: a expectativa? "Todo o romantismo que existe hoje à volta de uma relação, existe à volta do nascimento de uma criança", explica a terapeuta. "Ainda por cima, a nova geração tem cada vez menos experiência em lidar com crianças." Pois: já não se toma conta de irmãos mais novos, primos, bebés…

Resultado: as pessoas acham lindo ter um filho, mas não sabem de facto de que se fala quando se fala em ter um bebé. "A relação entre o casal sofre imensas alterações", lembra Margarida. "Dar de mamar, pôr e tirar fraldas, e conseguir descansar no meio disto tudo, é muito complicado." Muitas vezes, eles querem ajudar e elas afastam-nos. Muitas vezes, eles não percebem que a simbiose entre mãe e filho, nos primeiros tempos, é instintiva. Há uma série de frustrações que é preciso saber gerir e tudo isto interfere na relação.

Que muitas vezes, não aguenta. Ou antes, eles não aguentam. "Pode ser uma situação terrível," defende Margarida. "A mulher tem de lidar com um sentimento de baixa auto-estima, com muitos medos e inseguranças, e de repente é abandonada. Para além de todas essas emoções, tem de lidar com a perda."

Para os homens, a perda não é assim tão grave. Afinal, o trabalho continua a ser mais importante que a família. E o trabalho funciona precisamente como chantagem: "As mulheres são muito chantageadas: os maridos dizem-lhes que não lhes podem dar a atenção que elas pedem porque senão são despedidos… Tenho clientes que ‘poupam’ os maridos de irem com elas às ecografias para eles ficarem a dormir mais um bocado…"

Segunda acha para a fogueira: os avós/sogros. "As famílias de origem têm de ajudar, mas causam frequentemente ainda mais atrito entre o casal", nota Margarida.

E a propósito de avós: afinal, se os nossos pais aguentavam, por que é que estes não aguentam? "É cultural. As nossas mães é que tratavam de tudo, e não havia expectativas em relação aos pais, não se esperava deles o que se espera hoje. Agora, a mulher já está no mercado de trabalho e tem mesmo de haver uma partilha. Mas essa partilha ainda não é efectiva. A nova geração foi muito protegida, não foi habituada a lidar com dificuldades, e muitos homens não conseguem aguentar um bebé."

Noto que muitos destes pais ‘abandónicos’ são filhos únicos… "Tudo isto pode estar relacionado com a infância", explica Margarida. Há uma fase em que o rapazinho tem de se separar da mãe e criar autonomia. O nascimento de um filho pode recriar esse abandono da mãe. Estes são, muitas vezes, homens que têm com a mulher uma relação parecida com a que tinham com a mãe. Ora isso não funciona: a mulher tem de ser amiga, amante, companheira – mãe é que não. Mas há muitos homens que requerem isso. E como em casa têm a ‘mãe’, procuram fora de casa a companheira e a amante."

Mulheres, acordem: não sejam as mãezinhas deles! "Temos um lado maternal muito forte, e há quem passe a vida a apaixonar-se pelo tipo de homem carente. Mas não são as mulheres que têm de preencher essas carências, são eles próprios."

Um bebé, quando chega, vem sempre pôr em causa o casamento que se tem. O que nos leva ao lado… relacional? Problema: o lado relacional é um poço sem fundo. Mas é aí que nascem todos os problemas futuros. Porque um bebé começa precisamente… numa relação. E hoje em dia, nem sempre sabemos escolher o melhor pai para o nosso filho. "Muitas vezes estamos tão carentes de afecto que nos relacionamos com pessoas que não têm nada a ver connosco", alerta Margarida. "O problema é que procuramos tudo o que nos falta noutra pessoa, em vez de o procurar dentro de nós próprias. Quando encontramos alguém, temos a ilusão de que aquele ser nos preenche. Mas quando a paixão termina, resta muito pouco."

Como é que não se cai nessa ilusão? "Não criar ilusões, precisamente." E isso não é quase impossível quando se está apaixonado? "Podemos andar em bicos dos pés, mas de vez em quando assentar os pés no chão… E acima de tudo, temos de estar muito atentas aos sinais. Porque eles estão lá todos no início das relações, tudo aquilo que não queremos ver e fazemos de conta que não existe. É preciso ser muito honesta consigo própria e saber o que é que quer e o que é que não quer."

Quarta acha para a fogueira: a superficialidade das relações actuais. "A geração de 20-30 acha que nada é para sempre. E ao primeiro problema, desistem. Desse ponto de vista, a geração de 40 anos partia para uma relação com muito mais expectativas: aquele amor era para sempre. Hoje, a maioria está separada, porque a diferença entre a realidade e a expectativa foi demasiada." Para a geração mais nova, as expectativas são diferentes: importa o momento. Tal como no resto da sociedade de consumo, também as relações são para usar e deitar fora. "Iniciam uma relação sem saber no que é que aquilo vai dar", confirma a terapeuta. "Aliás, a expressão típica é, ‘Vamos ver no que é que dá’."

Mesmo a sociedade de consumo nos empurra para relações instáveis e mal-pensadas. "Até nas relações nos comparamos com os outros. "O meu amigo tem uma casa, eu tenho uma casa, ele tem este carro, eu também quero, ele tem um bebé, eu também vou ter… Gostava de perguntar aos casais, antes de se casarem, por que é que se vão casar. A maioria não se faz essa pergunta, que devia ser essencial. Mas as pessoas têm muito medo de serem comparadas desfavoravelmente com os outros. Ninguém quer pensar: ‘Não casei porque não fui capaz de encontrar ninguém…"

Ou seja, até as relações têm a ver com a imagem, e tudo no mundo de hoje acentua a superficialidade. Margarida nota que nos EUA já praticamente não existem compromissos: os jovens têm relações com várias pessoas, em ‘amores’ fugazes com muito medo da entrega. De onde é que vem esse medo da entrega? "Tem muito a ver com o medo da rejeição, de viver a perda", explica. "Dantes esse medo não era tão grande porque os divórcios não eram tão comuns e as pessoas não se sentiam tão ameaçadas. Hoje, as relações são tão precárias que as pessoas têm paradoxalmente mais medo de se ligarem, porque sabem que podem perder aquela pessoa com muito mais facilidade. Depois sentem-se frustradas porque no fundo não é a superficialidade que querem."

Resultado: estamos a viver um período de insegurança e desorientação a todos os níveis. "Nada é certo. Nem dentro de uma família se sabe muito bem qual é o papel de quem, quem deve fazer o quê." E nada disto é uma base muito sólida para criar um bebé…

Ora bem: infantilidade, ilusões, má preparação, pais mal emparelhados, instabilidade, pressão social… Como é que se lida com tudo isto quando um bebé vem fazer explodir este conjunto de bombas-relógio? "O casal tem sobretudo de comunicar, porque o silêncio gera afastamento", afirma Margarida. Mas a solução nem sempre é… uma solução. "Às vezes quando a mulher quer falar, o homem interpreta isso como uma culpabilização por parte dela. Enquanto as mulheres têm imensa necessidade de falar, eles, em vez de as escutarem, procuram soluções para as ajudar. E quando acham que o problema são eles, cortam. Pensam, ‘eu não quero conflitos, eu não sei lidar com a situação’, portanto afastam-se".

Conclusão: a solução tem de ser pensada… antes de haver problema. "As pessoas não fazem a mínima ideia do que os espera com um bebé, mas também quando casam não fazem a mínima ideia", nota Margarida. "Há tempos, fiz um workshop com casais que iam morar juntos, e eles diziam a mesma coisa: não valia a pena falar já sobre conflitos numa altura em que estavam tão apaixonados. Falámos da desaceleração da paixão, da importância de comunicar e investir na relação: tudo coisas em que eles nunca tinham pensado, e em que não queriam pensar."

Ou seja, na nossa cultura ainda é uma espécie de tabu falar com antecedência do que pode correr mal. Mas mais valia que estivessem despertos, para que soubessem lidar com as dificuldades quando elas surgissem, em vez de entrarem em pânico.

"Estamos a falar no segundo ciclo mais importante na vida de qualquer casal – o primeiro é viver junto – e o casal tem de estar consciente de que não vai ser fácil!" lembra a terapeuta. "Há que ser consciente e realista, e antes de ter bebés, é importante que o casal converse sobre todas estas mudanças. É verdade que não há uma preparação total, mas há predisposição para conversar e para discutir os problemas que vão surgir."

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