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“Mãe, odeio-te. Tu não és capaz de ser uma boa mãe. Não há paz entre nós.” O bilhetinho deixado pela Luísa, 9 anos, foi desmoralizante para a mãe, que ao mesmo tempo não consegiu deixar de rir. “Ela era tão sossegadinha e de repente é isto…” desabafou. Foi aí que se deu conta de que tinha uma pré-adolescente (ou ‘tween’) em casa.


“Hoje, os miúdos com 10 anos já são muito críticos, já têm capacidade de confrontar os pais, de lhes apontar os erros”, confirma a psicóloga Cristina Valente, autora do livro ‘O que se passa na cabeça do meu filho?’ “É que estes miúdos em primeiro lugar são digitais, em segundo lugar são democráticos, em terceiro lugar são cidadãos do mundo. Portanto, se nós não tivermos inteligência e jogo de cintura para acompanhar a ‘pedalada’, ficamos perdidos.”
Mas é normal que um pai se sinta perdido num primeiro momento: na pré-adolescência, começa um movimento de individualização e de afastamento em relação aos pais, que se sentem um bocadinho feridos.


“Nós personalizamos muito estes comportamentos e levamos a mal, quando são muitas vezes hormonais”, explica Cristina Valente. “A adolescência hoje começa mais cedo – pela alimentação, pelo estilo de vida, pelo acesso à informação, pelas novas tecnologias – e o córtex pré-frontal, que é a nossa zona pensante, sofre mudanças e diminui a sua atividade.”


O cérebro fica como que ‘offline’: “E há comportamentos típicos – capacidade para medir riscos, arrogância e insegurança, capacidade para aprender coisas novas muito rapidamente (uma nova língua ou uma droga – porque estranhamente a adição a uma droga é considerado pelo cérebro como uma novidade e uma aprendizagem).”

“Temos medo do poder dos filhos”
Hoje, a entrada na pré-adolescência é vista com susto e não celebrada pelos pais: o que é uma pena, nota Cristina Valente. “Os povos antigos tinham uma coisa que se perdeu: as cerimónias iniciáticas, que davam a estes miúdos, que ainda não eram adultos e já não eram crianças, um sentido de importância, um certo estatuto e um lugar na tribo. Reconheciam o seu poder, legitimavam-no e valorizavam-no. Nós hoje só o tememos. Temos imensa dificuldade em legitimar o poder de um pré-adolescente. Quando são bebés, celebramos muito o facto de ele já comer ou andar sozinho. Em adolescentes, temos medo deste segundo aprender a caminhar, porque isso nos ameaça.” Esse poder não é mau em si – depende do que nós fazemos com ele. “Qual é a maneira mais fácil de provar que já sou dono de mim?


É fazendo exatamente o contrário do que os pais querem. Se os pais usassem aquelas calças de cós descaído, eles vestir-se-iam todos à betinho! (risos) Portanto, ele está a revoltar-se não por convicção mas por reação.”
O que se deve fazer: ajudá-los a usar esse poder de forma positiva, deixando-os experienciar os seus erros. “Por exemplo: se ele gastar o dinheiro todo numa coisa estúpida, não lhe dou mais. Por outro lado, não o impedi de o gastar. Portanto, não controlei o dinheiro dele, deixei-o aprender com aquela experiência.”

“Sinto-me diferente fisicamente e nem sempre gosto”
E não, esta não é ‘a terra de ninguém’. Passa-se imensa coisa entre os 10 e os 12 anos, há mudanças radicais a acontecer. Deixar de ser criança não é mais fácil para os rapazes do que para as raparigas. “Sinto-me diferente fisicamente, noto alterações no meu corpo, e nem sempre gosto”, confessa Afonso, de 12 anos. “Gosto muito mais de estar junto das meninas. Gostava de ter uma namorada gira. Mas não noto muita diferença na minha maneira de ser.”


O que o preocupa mais: “O bem-estar da minha família; a minha mãe e o meu irmão estarem bem e felizes. O que mais gosto de fazer é desenhar… sou muito feliz quando me expresso pelo desenho. Quando for adulto quero logo tirar a carta e fazer arquitetura na faculdade.”


A mãe, a empresária Maria João Gaspar Correia, confirma que o Afonso mostra maior preocupação com a imagem. “Nota-se um entusiasmo muito maior pelas raparigas e pelo universo feminino. Sempre foi astuto e crítico em relação ao que o rodeava, agora está acima de tudo muito curioso e opina sobre tudo o que ouve na comunicação social. Mas na verdade não lhe observo diferenças acentuadas. Continua calmo, meigo e atento como sempre foi.”


Lembra que a sua pré-adolescência foi muito diferente da do Afonso. “Eu era muito irreverente e com uns pais muito conservadores. Existia muito pouca abertura a conversas ‘de adultos’, foi uma fase de grandes dúvidas e angústias. Hoje existe uma aproximação de gerações que dilui os conflitos. Eu sou mãe, mas sou também a confidente e a amiga. Seria impensável esta proximidade com os meus pais.”


Segundo os psicólogos, Maria João está no bom caminho: continua a apoiar o filho e a respeitá-lo, ao mesmo tempo que está atenta às suas mudanças. “A pré-adolescência prepara-se antes de eles nascerem”, explica Cristina Valente. “Há sempre coisas que correm mal, mas faz parte. Podem é correr melhor ou pior, por isso é importante haver um canal de comunicação já estabelecido entre pais e filhos, para que depois seja mais fácil lidar com fases mais difíceis.”

“Eu queria brincar, mas não me deixam”
Se há pessoa que tem uma visão ‘global’ da pré-adolescência é a psicóloga Rita Xarepe, editora da revista ‘Visão Júnior’, que é precisamente pensada para estas idades.


“Os nossos leitores são incríveis: muito dedicados, muito fiéis, fazem tudo o que lhes propomos”, nota Rita Xarepe. “São muito interessados, muito criativos, e muito solidários. Por exemplo, às vezes acontece que sai um erro ou uma gralha na revista, e eles nas mensagens que nos escrevem começam sempre da mesma maneira: ‘Errar é humano, vocês são a melhor revista do mundo, adoro-vos, mas vejam lá na página 33…’” (risos).


A maior característica desta fase? O que os outros pensam torna-se muito importante. “Há pouco tempo entrevistei uma miúda de 12 anos, a propósito do que é ser criança”, conta Rita. “E perguntei-lhe isso mesmo: tu vês-te como criança? Ela respondeu: ‘Vejo-me como pré-adolescente’. Mas a grande preocupação dela era que ela gostava de brincar, mas com aquela idade isso já não era bem-visto pelos outros. Portanto, aos 12 anos ainda é criança mas toda a gente acha que já não deve brincar. Ora esta mania de nos meterem em ‘caixas’ artificiais é muito prejudicial. O que é que nos diz que temos de parar de brincar aos 12 anos? Porque é que não brincamos a vida toda?”


Os pais podem ajudar nestes conflitos? “Devem fazer o que fazem com filhos de qualquer idade: apoiá-los para serem aquilo que eles quiserem. Isso é o mais importante.”
Esta é de facto a idade de transição em que ainda me apetece brincar. Mas se não posso e já não sou criança, sou o quê? “Isso são tudo barreiras inventadas por nós, porque na verdade continuo a ser quem sou. Tenho é de me enfiar dentro de uma caixa e de um grupo, e é isto que não faz sentido.”


A segunda alteração importante, nota Rita, é que esta é a altura em se deixa de ter um único professor e se passa a ter uma série deles. “Essa transição de um modelo maternal, para muitas pessoas com as quais não tens uma relação especial é uma grande mudança e não é fácil de viver.”

“Estamos a criar zombies digitais”
Mas como dizia Maria João, mãe de Afonso, ser ‘tween’ agora é muito diferente do que foi para nós. “Nós tínhamos mais liberdade. Estes miúdos são mais protegidos e estão menos aptos a reagir e a resolver problemas do dia a dia”, explica Rita Xarepe. “Por um lado, recebem uma quantidade imensa de informação pela net, por outro lado, não têm autonomia. O resultado desta equação: não conseguem que aquilo que sabem se aplique à realidade, e há um desfasamento muito grande entre a cabeça e o corpo. É como se não actuassem essa realidade. Mas depois, também noto que são muito solidários, são capazes de grandes manifestações de afeto.”


“Quando chegam à pré-adolescência, eles nunca foram a pé sozinhos para lado nenhum, nunca tiveram de poupar para comprar alguma coisa, nunca fizeram uma refeição sozinhos, nunca tiveram uma gratificação adiada”, confirma a psicóloga Cristina Valente. “E, portanto, quando chegam as hormonas, nós ficamos sem ferramentas porque também não lhes demos ferramentas para lidarem com isso.”


A forma mais sólida de aprendizagem é pelo exemplo: mas nós muitas vezes exigimos coisas que não fazemos e não somos. “Falamos com os miúdos como um chefe fala para um súbdito, mas não somos líderes, não educamos pelo exemplo”, nota Cristina. “Muitas vezes esquecemo-nos de que os miúdos são de carne e osso como nós. Por isso é que quando eles começam a ter poder, assustamo-nos.”
Outra forma de aprendizagem é através do erro. Temos de os deixar errar e aprender com isso. “Fazemos-lhe a papinha toda, os meninos não podem sofrer, não podem crescer, quase não têm emoções, e eles ficam sem competências internas para lidar com o sofrimento. São tratados como o centro do universo. Isto é paradoxal: devíamos deixar de andar tanto ao serviço deles e respeitá-los mais como seres humanos. Eles não podem ir para a escola sozinhos mas têm um telemóvel onde veem conteúdos violentíssimos na net. Ou seja, estamos a abebezá-los nas coisas erradas e a ‘adultificá-los’ também nas coisas erradas.”


O que está a faltar na vida dos ‘tweens’? Educação para os sentimentos, segundo Cristina Valente. “Não nos interessa que sejam boas pessoas, só interessa que sejam bons alunos: estamos a criar zombies digitais, e queremos que sejam estrelas, quando a única coisa de que eles precisam é de amor e de tempo.”

“Tenho de comprar as guerras que valem a pena”
Como educar um ‘tween’? Com um plano, defende Cristina Valente. “Eles vão passar cada vez mais tempo longe de casa. Portanto, se não lhe dei competências internas, se ele já não sabe por ele o que é bom ou mau sem eu estar a policiar – e um castigo é uma forma de policiamento – não vai saber regular-se sozinho.”


Tenho de lhe dar espaço para ele treinar as suas competências de adulto, mas também tenho de estabelecer limites muito claros nas coisas que realmente me interessam. “Ou seja, não adianta ter 20 regras. Há ‘nãos’ inegociáveis: os que têm a ver com drogas, com horas de chegada a casa, com respeitar todas as pessoas, e têm de ser regras muito claras. Eu tenho de comprar as guerras que valem a pena.”


Castigar, retirar privilégios, criticar, nada disso adianta. Deve fazer bons negócios com eles. “Por exemplo, às vezes o meu filho de 12 anos não quer tomar banho. É uma fase muito típica. E então fizemos este acordo: se jogou futebol na escola, tem de tomar banho. Se não, pode lavar só os genitais e os pés. É um negócio. Porque a mim, às vezes, também não me apetece fazer algumas coisas.”


Ok, e se um valor ‘inegociável’ for quebrado? Tenho de mostrar que estou do lado dele, apesar do erro. “Se o respeito, não castigo, não critico, não deito abaixo os amigos. Sou sincera: – ‘Olha, eu tenho muito medo que te aconteça qualquer coisa, por isso vamos combinar uma hora contigo’. E decidimos com ele também uma consequência antes, para não ser um castigo. Portanto, em caso de quebra, essa consequência não será vista como uma agressão. E esta consequência é para cumprir. Mas dizemos-lhe sempre que temos confiança nele: se mostrarmos confiança e lhe dissermos que acreditamos que se vai sair bem, ele regra geral sai-se bem. Se só estivermos à espera que vá fazer porcaria, geralmente faz porcaria.”


De qualquer maneira, relaxe. Com os ‘tweens’, estas batalhas ainda estão em embrião, e não adiantapreocupar-se já com o que não aconteceu. O que pode fazer? Respeitá-los, apoiá-los e… divertir-se com eles.

“A fase mais incrível”
Falamos muito de medos quando se fala em pré-adolescência, mas não falamos nas coisas boas: pode ser muito divertido ter um ‘tween’. “Esta pode e deve ser a fase mais incrível entre um adulto e o filho que está a deixar o ninho”, nota Cristina Valente. “Há o mito de que eles não querem fazer nada com os pais, mas conheço muitos miúdos que continuam a adorar estar com os pais.

Geralmente são filhos de pessoas que os levavam para todo o lado e os respeitavam. Ora se eu nunca estou com os meus filhos, e se o pouco tempo que passo com eles sou um chato, claro que aos 12 anos, com todas as solicitações que têm, estar com os pais será a última coisa que vão querer fazer. Nessa altura dá-nos muito jeito culpar a adolescência, mas a adolescência é um investimento.”

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