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*artigo publicado na revista ACTIVA de março de 2017

As meninas começam a duvidar da sua inteligência aos 6 anos – é o que conclui um estudo publicado já este ano na revista Science. Nele é revelado que até aos 5 anos as meninas associam a inteligência ao sexo feminino, mas que aos 6 já se veem como menos brilhantes e acreditam que não são inteligentes o suficiente para executar atividades dirigidas a “pessoas muito muito espertas”.


O que andamos a fazer para que em apenas um ano haja uma mudança tão grande na autoestima das meninas? Estaremos a reforçar os estereótipos culturais na sala de aula? Andarão os professores a dar mais importância a um menino que tenha dificuldades a matemática do que a uma menina, porque se generalizou que as raparigas têm mais dificuldades nesta disciplina? Será porque nos livros de história os grandes feitos relatados são todos feitos por homens? Será porque nós, pais, estamos a passar a mensagem errada? Já que não podemos mudar a História, devemos dizer-lhes que as mulheres durante longos séculos foram tratadas como cidadãos de segunda e que não tinham oportunidades iguais aos homens, e tentar perceber se estamos a fazer de tudo para criar filhas (e alunas) confiantes.

Evite comprar só jogos ou livros ‘direcionados’ para raparigas.

Porque não poderá ela gostar de um Atlas ou de construir em vulcão? Porque não damos aos rapazes um livro de atividades com bonecas e vestidos ou um kit para cozinhar? Porquê espartilhar quando podemos estar a lançar as sementes para uma futura vulcanóloga ou geóloga? A variedade de brinquedos e experiências enriquece-nos.

Nem sempre a regra ‘quem sai ao seus…’ se aplica.

Matemática pode ter sido o seu ponto fraco, mas não tem de ser o dela. Mas se afirmar constantemente que era péssima àquela disciplina, que não percebia nada, que desistiu, ela também o vai fazer à mínima contrariedade. Para se ser bom em qualquer área é preciso 10% de talento e 90% de dedicação e esforço. A sabedoria não cai do céu.

Não se rebaixe.

Muitas mulheres falam de uma maneira que transparece insegurança e falta de autoestima. Evite os ‘oh, que estúpida…’, ‘que burra’, ’não nasci para isto’, ‘que aselha…’. E também não o faça com as outras mulheres, ‘vê-se logo que é uma mulher ao volante’. Isto só vai fazê-la crer que as mulheres são péssimas a conduzir, o que nem sequer é verdade, os números oficiais apontam para muito mais homens envolvidos em acidentes que mulheres. Elogie-se a si própria quando alguma coisa corre bem, é bom sentir-se satisfeita com alguma coisa que fez pois é sinal de autoconfiança.

Não ‘normalize’ a violência.

Há ainda quem continue a dizer às meninas que quando algum rapaz a maltrata é sinal de que gosta dela. Não, não é! É assim que se passa a ideia de que mesmo que um namorado a ofenda, verbal ou fisicamente, é um sinal de que a ama, e isso não pode estar mais longe da verdade. Quando se gosta, não se bate nem maltrata ou insulta.

Prática faz a perfeição.

Não critique os erros, pelo contrário, diga-lhe que se aprende muito com os erros. Errar faz parte da vida de qualquer um, e é importante não desmoralizar perante a adversidade. Mais importante do que cair é levantar-se de novo. E aqui, como em todos os conselhos, é fundamental dar o exemplo, ser perseverante.

Dê bons exemplos… do seu círculo de conhecimentos

A tia que foi tirar o mestrado para a Austrália, a vizinha que gere um negócio de sucesso – e também fora dele: Michele Obama, como primeira-dama, Sheryl Sandberg, como CEO do Facebook, Susan Wojcicki, CEO do Youtube, Angelina Jolie, que faz um trabalho excelente na ONU e como realizadora, a cientista Jane Goodall, Arianna Huffington, que criou o site de notícias mais famoso em todo o mundo, J.K. Rowling, que escreveu a saga Harry Potter, Tavi Gevinson, que aos 12 anos se tornou conhecida por ter um blog de moda e agora aos 20 é editora da revista online Rookie… E por cá também temos imensos exemplos: inúmeras escritoras, muitas investigadoras (vá com ela ao Pavilhão do Conhecimento ver a exposição ‘Mulheres na Ciência’), a Patrícia Mamona no atletismo, Elisabete Jacinto como piloto todo-o-terreno, ou Inês Ponte, campeã nacional de ralis. É importante perceberem que há boas profissionais em todas as áreas.

Passe-lhe a palavra.

Deixe-a tomar decisões em família. A opinião dela conta. Incentive-a a escolher o prato quando vai a um restaurante, ou escolher a roupa que vai vestir (tudo isto no limite do razoável, para evitar lagostas suadas e t-shirts em pleno inverno). Que tal uma ajuda a fazer um bolo ou o jantar? E será que ela quer aquela atividade extracurricular, ou a escolha foi sua?

Ouça-a sem fazer perguntas.

Às vezes é o que elas precisam, de alguém que as ouça, sem julgar ou metralhar com conselhos e julgamentos. Não pressione, as suas intervenções devem ser no sentido de ajudar a encontrar a solução. Ouvindo a sua própria voz a exteriorizar o problema pode ser meio caminho andado para o resolver.

Sejam críticas de cinema.

Sente-se com ela no sofá e perceba que tipo de séries anda a ver, que modelos femininos tem ela pela frente? Questione e discuta se achar que desfavorecem a imagem da mulher.

Não fale sobre dietas de emagrecimento se quer perder quilos, se acha que o rabo fica grande com determinada roupa.

A sua falta de autoestima pode refletir-se na dela. Evite fazer comentários depreciativos sobre o seu corpo à frente da sua filha, mostre-se confiante como está. Todas as mensagens subliminares vão ser captadas pelas raparigas, já basta aquilo que veem na televisão ou na internet. O nosso valor não está no número que vestimos ou no que vemos na balança.

Os novos obstáculos

Steven Biddulph, psicólogo e autor do livro ‘Raising Girls’ (criar raparigas) diz que nos últimos anos tem havido um aumento no número de problemas de desenvolvimento nas raparigas, “1 em cada 5 vai sofrer de distúrbios psicológicos antes de atingir a maioridade. Elas estão mais ansiosas, mais depressivas, são mais objeto de bullying, e bebem até ficar em coma alcoólico o que pode dar origem a comportamentos sexuais de risco”. O psicólogo aponta o dedo ao marketing e à publicidade, que encontraram nos mais jovens um público a influenciar. Cada vez mais adolescentes sabem o que é cool ou não, ficam preocupadas se têm o visual, o corte de cabelo ou o tamanho certos. “Aos 10-11 anos, em vez de pensarem no que vão fazer, pensam no que vão vestir.” Mas há maneira de ir contra esta corrente: não ter televisão no quarto e carregar os telemóveis (de todos) na cozinha durante a noite é uma das medidas, defende o psicólogo. Outra é tentarmos ser um exemplo para elas, isto é, para serem educadas e pacientes também temos de o ser. Desde a maneira como reage a conduzir quando é ultrapassada, à forma como se dirige a um empregado de mesa que demorou mais tempo a vir atendê-la, como trata as pessoas mais velhas, os animais… tudo vai ficar registado e ser repetido. Se for agressiva, é essa a fórmula apreendida.


E são precisos dois para dançar o tango, certo? A forma como os pais ‘dançam’ lá em casa é também a forma como ela vai entender as relações amorosas.

O papel do pai

Felizmente, a figura do pai autoritário está em vias de extinção. Muitos estudos referem que a relação que as meninas têm com o pai vai refletir-se na sua autoestima, autoconfiança e naquilo que esperam numa relação. Se a sua fasquia for alta, a delas também será.
• Não as trate como meninas do papá, como donzelas em apuros, incapazes de cuidar delas próprias, senão vão passar a vida a pensar que precisam de alguém para as proteger. O que deve querer é que elas sejam independentes.
• Ensine-a a encontrar soluções para o problema que arranjou. A bicicleta está sem ar? Dê a bomba, ajude mas não faça por ela.
• Quebre estereótipos. Participar nas tarefas domésticas lá de casa, não é ajudar, é fazer 50%.
• Atenção pais divorciados, não precisam de magicar programas memoráveis de cada vez que saiam com as vossas filhas. Diga-lhes, sem palavras, como aprecia a sua companhia fazendo com elas aquilo que é suposto fazer: ir às compras, lavar o carro, dar uma caminhada, uma volta de bicicleta, tomar café …
• Mais importante que tudo: demonstre o seu amor incondicional todos os dias, com palavras ou ações. Diga-lhe que é linda, mas também inteligente, capaz, criativa, corajosa, imaginativa, confiável, competente, divertida, querida, honesta, forte, talentosa, cativante, fabulosa, espantosa, responsável, generosa… esta lista de adjetivos poderia continuar, basta querer.


Fontes: ‘Raising Girls’, Steven Biddulph, ‘The Gender Trap’, Emily W. Kane; Newsweek, The New York Times, Science, Time.

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