iStock-882358798.jpg

nd3000

*artigo publicado originalmente na revista ACTIVA de janeiro de 2018

“Não há casamentos perfeitos”, começa por dizer Isabel Antunes, 48 anos. Fala com naturalidade de uma traição acontecida há 10 anos e que ela nunca esperou. “Tudo se precipitou quando o pai do João, o meu marido, morreu e ele precisou de um apoio exclusivo que eu na altura não consegui dar. Os meus filhos eram pequenos: o Vicente tinha cinco meses e o Tomás, quatro anos. Eu não podia de repente deixar as crianças para me dedicar totalmente a ele.”
Um dia o marido contou-lhe que tinha outra pessoa. “Fui totalmente apanhada desprevenida. Se me tivessem dito ‘o teu marido morreu’, o choque teria sido igual.” Ainda ficaram na mesma casa 15 dias, até Isabel o mandar embora. “Ele foi para casa da mãe. E eu fui desabafar com uma amiga mais velha, que tinha passado pelo mesmo, e que me aconselhou: ‘Não faças nada agora. E não digas nada aos teus filhos de que depois te possas arrepender.’
Claro que tive discussões brutais, e o meu filho mais velho apercebeu-se. Quando o pai o vinha buscar, não queria ir. Mas eu não entrei no jogo. Disse-lhe sempre: ‘Se não queres ir, és tu que lhe vais dizer que não queres ir. Isto é entre vocês os dois.’ E claro que ele nunca lhe disse nada.”
Na altura, a separação pareceu-lhe definitiva: “Eu achava que iría­mos ficar mesmo separados, ele não. Mas eu tinha de andar para a frente, não podia ficar à espera dele. E a ‘outra’ estava convencida de que ele a ‘enganava’ comigo. Foi ridículo.”

A culpa é sempre da mulher

As respetivas famílias foram um exemplo: “Contei tudo aos meus pais um mês depois, quando as coisas já estavam mais calmas. O meu pai disse-me: ‘Qual é o problema? Tens a tua casa, tens a nossa casa, estou aqui para o que quer que precisares.’ E a família do João sempre me apoiou. Tive muita sorte.”
Mas se a família não a recriminou, o resto do mundo não ficou calado. “Uma das coisas que aprendi foi que não podes dar ouvidos ao que as pessoas dizem. Percebi que era suficientemente forte para criar dois filhos sozinha sem precisar de homem nenhum, e isso foi uma grande e útil lição. Mas ouvi tanta coisa… Que a culpa era minha, que eu é que tinha amantes, que se ele tinha uma amante era porque não tinha em casa o que queria, que eu não sabia cozinhar, coisas absurdas. Em Portugal, quando um homem sai de casa, a culpa é sempre da mulher.”
Isabel aprendeu a viver com a situa­ção, mas o ‘fugitivo’ não. “Ele começou a ficar magro, desfigurado, e eu comecei a animá-lo, a dizer que ele tinha de resolver a vida dele.” Começou a haver uma reaproximação. “Uma mulher, quando deixa, é para sempre. No dia em que uma mulher diz: ‘Esta relação acabou’, ela não volta. Mas os homens agem no momento, e só quando perdem alguém é que percebem.”
Conta que aprendeu muito no meio do sofrimento: “A resolver os meus problemas, a estar sozinha, a levar o carro à oficina…”

refazer um casamento

Recomeçaram… a namorar. “Fui criticada quando ele me deixou e fui criticada quando ele voltou. ‘Vais aceitá-lo de volta depois do que ele te fez? E quem trai uma vez trai duas.’ Aí é que precisas de esquecer os outros e fazer exatamente aquilo que achas melhor para ti.” Mas o casamento já não era o mesmo, porque os dois tinham mudado. “Não se tratou nunca de dificuldade em voltar a confiar, porque isto é uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa, em qualquer altura. Mas tudo tinha mudado.” O poder mudou de mãos. “Senti-me com mais poder. Dantes era acomodada, não dizia o que me apetecia, não valia a pena. Agora o casamento abriu: já não tenho medo de nada. Afinal o pior já me aconteceu.”
João ficou mais atencioso, mais meigo, com mais surpresas. “O casamento deixou de ser um dado adquirido, porque percebemos com que facilidade se destrói. Somos mais abertos, mais românticos. Damos mais valor um ao outro. Vamos muitas vezes passar um fim de semana juntos, porque durante a semana não conheces aquela pessoa, só quando estás sozinha com ele é que o conheces. E descobrimos tanto sobre o outro!”

iStock-811258988.jpg

AntonioGuillem

‘Nunca pensei ser eu a sair’

Mariana Alves, 40 anos, tinha um casamento dito ‘normal’. “Namorei seis anos, casámos por amor, fomos pais, uma e outra vez. Tudo como manda o figurino.”
Mas quando nasceu o segundo filho a relação alterou-se: a mulher a precisar de dar mais atenção às crianças, o marido a precisar de espaço por causa da responsabilidade, e uma relação quase abandonada. “Começaram as discussões, as desconfianças, as saídas dele quase semanais com um grupo de quem eu não gostava, as viagens dele à neve com os amigos… etc.”
Mariana admite que sempre foi ciumenta, mas que nunca pensou ser ela a dar o passo para terminar o casamento. “Um dia encontrei no Facebook a minha grande paixão dos tempos da faculdade. Mandei-lhe uma mensagem e marcámos um almoço para nos vermos.” Daí até recuperarem a antiga paixão não foi preciso mais do que uns meses de almoços e e-mails. “Tudo o que tínhamos tido há 17 anos voltou com mais intensidade, como se mais nada fizesse tanto sentido como eu e ele juntos. Eu tinha um casamento feliz, sempre nos demos muito bem. E nunca me passou pela cabeça encontrar outra pessoa…”
Foram precisos quatro anos de uma relação dupla, bastante sofrimento e o nascimento de mais uma filha para não aguentar mais. “Tive todas as dúvidas possíveis e imaginárias, senti-me a pior pessoa do mundo por estar a trair o meu marido, tentei acabar milhões de vezes, e posso dizer que ninguém o fará sem remorsos nem sofrimento.” Desabafou com as suas melhores amigas, que a tentaram ajudar: “Foram as pessoas que me ouviram no meio de toda aquela confusão, e que, não concordando comigo, nunca me julgaram.”

A coragem de ser feliz

Finalmente, a decisão que tinha de ser tomada foi tomada a dois: “O meu marido já sabia que eu não era feliz há muito, já que a nossa vida e convivência tinham-se tornado um inferno, e saiu de casa. Como é óbvio, ele soube de tudo e ultrapassar isso foi complicado. Fiz tudo para que os miúdos sofressem o menos possível, sempre foram a minha prioridade, e, ainda que eu quisesse muito separar-me, é óbvio que ver um casamento falhado é sempre triste.”
Quanto ao resto da família, como costuma acontecer, dividiu-se: “Os meus pais são pessoas excecionais, que nunca deixaram de me dar uma palavra de apoio, e os meus irmãos são os meus pilares. Quanto à minha outra família, passei a ser pessoa non grata: ninguém me fala, mas passados quase cinco anos parece que finalmente tenho luz verde para ser feliz.”
E como é que fica um segundo casamento depois de um primeiro falhado? “A minha segunda relação lucrou, sobretudo, com o que crescemos ambos no meio deste turbilhão. A nossa vida não é fácil, temos questões bem mais profundas do que tive com o meu ex-marido, ganhei mais dois filhos, um cão, uma casa maior, mais trabalho, muitas incertezas e uma existência turbulenta, mas sou infinitamente mais feliz.”

17309741_1499292786772248_6837072303678001375_n.jpg

Que engana mais? “É 50/50”, revela Margarida Vieitez. “Ultimamente até tenho acompanhado mais casos em que é a mulher a trair. E cada vez mais os homens mais jovens têm abertura para conversar e tentar perceber e lutar pela relação, coisa que as gerações mais velhas têm muita dificuldade em fazer. Quando existe amor, obviamente.” Se há uma história de casal por trás, as pessoas conseguem reconstituir a relação. “E aí o foco passa a estar, não na traição, mas numa relação de amor vivida pelos dois. Mas quem procura terapia de casal já vai disposto a recomeçar. Os outros vão diretos ao advogado.”

D.R.

Fugimos ou ficamos?

Margarida Vieitez é terapeuta de casal, autora de livros como ‘Guerra entre quatro paredes’, e todos os dias recebe no seu gabinete casais a braços com o sofrimento de se terem sentido enganados pelo outro. Então comecemos pelo princípio: se eu desconfio que a outra pessoa me anda a enganar, faço o quê? “Pressentimento não é certeza”, nota Margarida Vieitez. “Espiar mensagens e telemóveis acontece muito, mas é uma falta de respeito imensa: mostra que a confiança já se foi. Portanto, é necessário dar oportunidade ao outro de se explicar.”
E quando há factos concretos, e não apenas fantasias, inseguranças e ‘filmes’, faço o quê? “Depende do que quer para a sua vida. E ninguém pode tomar essa decisão por si. Cada pessoa lida de forma diferente com a rejeição: há pessoas para quem é impossível retomar o casamento e outras que não. Ambas são válidas. O que eu aconselho é que deixe passar algum tempo e não tome uma decisão imediata, no meio da tempestade, até porque isso vai ser outro fator de stresse. Espere um pouco e depois decida como gerir a situação.”
O mais comum depois de uma traição é que as duas pessoas se separem. A separação é o primeiro impulso a partir da revelação, é uma fuga para a frente, porque é um golpe muito profundo na autoestima. “Sentimo-nos sempre ‘trocadas’ e pensamos, ‘o que é que ele ou ela tem a mais que eu’?” Portanto, há muitas pessoas que se separam, há quem continue na relação e entre em negação, mesmo quando não há qualquer possibilidade de a traição não ter acontecido, e depois há os que se separam mas voltam, o que acontece cada vez mais.”
Quando é que é possível ‘salvar um casamento’, como diziam os nossos avós? Quando os dois querem. “Quando somos confrontadas com os factos, ficamos sem conseguir raciocinar, com as emoções à flor da pele”, explica Margarida Vieitez. “A separação funciona como uma punição do outro. Mas depois de algum tempo há quem se pergunte se será possível ficarem os dois juntos novamente.”
TPC para depois de uma traição: não se culpabilizar e tentar perceber as motivações dele ou dela. “O que é que o levou a fazer isto? Claro que no meio da tempestade é impossível colocar-se no lugar do outro, por isso é que é importante deixar passar algum tempo. A quente, a única coisa que há a fazer é ouvir.”

Da condenação ao perdão

Quem tem crianças deve informá-las de que os pais decidiram separar-se, se for o caso, mas sem entrar em pormenores. “Não tem de explicar nem dar justificações. Isso diz respeito à vida dos pais e devem proteger os filhos desses conflitos.”
Se decidem separar-se, devem evitar uma relação imediata, tipo ‘rebound man’. Se decidem manter o casamento, devem pensar que tipo de casamento querem. “O que acontece muitas vezes é que a volta envolve cobranças, desconfianças, controle, jogos psicológicos, manipulação e posse. Isto é visto como um castigo, como se a pessoa voltasse para a relação mas com uma fatura para pagar.”
Portanto, para que a relação sobreviva tem de haver capacidade de amar, de aceitar a imperfeição do outro. “E é fundamental, numa fase mais tardia do processo, perdoar. E isto quer se volte ou não para a relação. A relação seguinte, seja com aquela pessoa ou com outra, será sempre um novo amor, e tem de ser construída sobre o perdão total.”

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

Os 40 atores negros mais famosos de Hollywood

Os 40 atores negros mais famosos de Hollywood

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Eleições no Brasil: Flávio Bolsonaro e Lula da Silva vão à segunda volta daqui a três semanas

Eleições no Brasil: Flávio Bolsonaro e Lula da Silva vão à segunda volta daqui a três semanas

Os “looks” dos famosos na passadeira vermelha dos Globos de Ouro

Os “looks” dos famosos na passadeira vermelha dos Globos de Ouro

Reportagem na selva mágica da Amazónia

Reportagem na selva mágica da Amazónia

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1750

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1750

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

O santo casa, a multinacional quer ficar com a boda.

O santo casa, a multinacional quer ficar com a boda. "Santo António, O Casamenteiro de Lisboa", de Ruben Alves

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e "resorts" de Portugal

Ovos

Ovos "ilibados" no caso do colesterol

Vídeo polémico de Miguel Vicente nu circula nas redes sociais

Vídeo polémico de Miguel Vicente nu circula nas redes sociais

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Moda:

Moda: "Look" festivaleiro

Um século de propaganda na VISÃO História

Um século de propaganda na VISÃO História

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

O futuro da energia é agora

O futuro da energia é agora

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Celebrar a Páscoa com escapadinhas para todos

Celebrar a Páscoa com escapadinhas para todos

CARAS Decoração: Cromática, uma coleção desenhada por Pedro Almodóvar

CARAS Decoração: Cromática, uma coleção desenhada por Pedro Almodóvar

Deus, intuição e Rock and Roll

Deus, intuição e Rock and Roll

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

Séries: 21 estreias e regressos para este outono

Séries: 21 estreias e regressos para este outono

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Helena Isabel em topless no México:

Helena Isabel em topless no México: "Veste qualquer coisita"

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

O

O "look" de Letizia no reencontro com a filha em Marín

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Sem ele, não teria havido República em 5 de outubro de 1910

Sem ele, não teria havido República em 5 de outubro de 1910

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Em “Senhora do Mar”: Pedro pede a Maria que aceite ter filhos com ele

Em “Senhora do Mar”: Pedro pede a Maria que aceite ter filhos com ele

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem "acordar" células cancerígenas adormecidas nos pulmões

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

Quis Saber Quem Sou: Será que

Quis Saber Quem Sou: Será que "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais?"