
Normalmente, somos nós a lançar desafios aos entrevistados, mas desta vez fomos nós a ser postas à prova. Durante um mês mudámos hábitos profundamente enraizados no nosso dia a dia ou ainda decidimos criar outros, mais saudáveis. Pelo menos, tentámos…
Mais ainda que na passagem de ano, os meses depois das férias de verão, trazem uma nova onda de boas intenções. Entre mergulhos e bolas-de-berlim, prometemos deixar o açúcar, fazer exercício o ano inteiro, ler mais e ver menos televisão à noite… Este ano, a redação da ACTIVA decidiu não ficar pelas boas intenções e passar à ação.
E nem sempre somos o exemplo de boas práticas democráticas. Que o diga Patrícia, empurrada para o ginásio à força, depois de uma vida sedentária que nunca a incomodou particularmente. Já Catarina não precisou de ajuda para dificultar a sua própria vida. Ainda lhe sugerimos que passasse a beber mais água, mas ela preferiu levar água ao seu moinho: comprou o passe Navegante e começou a vir de Lisboa para Paço de Arcos de transportes, desafio que veio a dar-lhe água pela barba. Foram 30 dias (ou mais) por vezes difíceis, com muita contestação (e gargalhadas) à mistura, agora aqui relatados numa espécie de desabafo público.
Aqui fica o testemunho da nossa editora coordenadora, Cíntia Sakellarides. O próximo episódio sai daqui a uma semana.
“Começo por dizer que sou pessoa para comer exatamente a mesma coisa todas as manhãs e durante 40 anos não vivi sem o meu pãozinho matinal. Mas sempre fui exigente: o pão tinha de ser de mistura ou escuro, tinha de estar bem cozido, estaladiço e não podia ter miolo a mais. Era capaz de percorrer quilómetros para ir comer a chapata que só encontro num café bem escondido nas Galerias do Alto da Barra, em Oeiras, e de fazer os detours necessários para encontrar o pão de Rio Maior perfeito. Durante anos fui alvo de chacota por parte dos colegas quando, no bar da empresa, pedia ao Sr. Lopes ‘uma bola de mistura, bem cozida e estaladiça e com uma só fatia de queijo’ ou ‘uma torrada em pão caseiro, com pouca manteiga, só de um lado e homogeneamente espalhada’. Nem sequer vou entrar pelo departamento do pão naan pois estou neste momento à secretária, limitada a um pokê bowl com quinoa.
Sempre fui magra, a não ser quando dei alegremente abrigo a 20kg extra em cada uma das duas gravidezes. A minha barriga de grávida parecia ela própria uma bola e posso dizer que ficou muito pouco estaladiça após o parto. Por causa dela quis terminar temporariamente a minha relação de longa data com o pão, para voltar a vislumbrar o músculo abdominal e recuperar o tal ‘six-pack’ de sonho. Achei que era o fermento que fazia levedar o volume da minha barriga – claro que não ia desconfiar da imperial dos petiscos ao fim de semana… Comecei o meu desafio mais cedo do que as minhas colegas, logo ali junho, antes mesmo das férias – sou daquelas pessoas que quando mete uma coisa na cabeça é para fazer logo e despachar. Avisei o impiedoso ‘júri’ da Redação que poderia ‘pecar’ no Santo António, altura em que a fatia de pão a fazer de caminha à sardinha salgada e gordurenta e no fim comida com a salada de pimentos bem temperada faz de mim uma mulher muitissimo feliz.
Os primeiros dias foram confusos: para mim, não comer pão era sinónimo de fazer dieta e sem pensar comecei a ficar obcecada e a cortar noutros hidratos de carbono. Quando fazia um pedido num restaurante, ficava horas a perceber se tinha ou não luz verde para avançar.
Passei fome, até meter na minha cabeça que o pão era o único vilão neste filme de terror e acho que até perdi peso. Depois, foi o debate na Redação do que era, afinal, considerado pão. Cheguei a telefonar às minhas colegas fora de horas a perguntar se podia comer quiche. Depressa me vedaram o acesso às tostas (e à pizza) e alimentar-me ao longo do dia começou a ser um verdadeiro desafio.
Quando tinha fome, a única coisa que me saciava era uma sandes e sem ela dei por mim a comer ainda com mais frequência. O pequeno almoço foi o mais difícil, alternava entre papas de aveia e os ‘overnight oats’ da moda, que consiste numa mixórdia que passa a noite no frigorífico, num convívio supostamente saudável entre a aveia e outros superalimentos, como a chia, considerados os atuais ‘influencers’ da nutrição. E tomar o pequeno almoço fora tornou-se impossível, a não ser uma vez que investi num boião mal servido de iogurte com meia dúzia de sementes que me custou mais de 4 euros. Durante as horas de trabalho, pois que o mastigar passou a fazer concorrência com o teclar: iogurte com granola, frutos secos, queijo e muitas bolachas de milho e arroz. Deu mesmo para enjoar.
Passados os 30 dias, não comecei logo a comer pão, mas chegadas as férias o molho à bulhão pato falou mais alto e lá cedi ao sedutor alentejano. Quanto aos resultados do desafio, não são fáceis de avaliar. Primeiro, porque comecei a ir ao ginásio com bastante mais frequência. Depois, porque, em plena época balnear, decidi também testar alguns cremes com promessas tentadoras. E, além do mais, descobri que há alimentos bem piores para a minha barriga do que o pão (os brócolos por exemplo). É verdade que me senti bem, mais ‘leve’, e foi muito bom para diversificar a minha alimentação – também passei a comer mais fruta. Mas hoje não me privo de uma chapata bem cozida e estaladiça.
E o Santo António, como ficou? Pois devo dizer que resisti e a sardinha este ano não teve direito a colchão, apenas a um lençol de alface e pimentos. No caso dela, valeu-lhe a barriga gorda a amortecer. Sim, porque na ACTIVA as sardinhas também são bem reais.”