Magda é autora do blogue Mum’s the Boss e fundadora da Escola Parentalidade

Magda Gomes Dias assumiu a missão de ajudar as famílias a serem mais felizes. Uma felicidade que começa nos pais e que, depois, se reflete nos filhos e na relação entre eles construída. Contudo, há vários fatores que pesam cada vez mais nesta relação que devia ter sempre por base o amor incondicional. Quando o peso do cansaço e das responsabilidade inerentes à parentalidade começa a ser maior do que tudo o resto, pode ser sinal de burnout parental. Um tema cada vez mais premente, mais ainda pouco discutido, e que carece de ajuda imediata. Foi precisamente sobre isto que a ACTIVA online conversou com a fundadora da Escola Parentalidade e autora do blogue Mum’s the Boss. Na verdade, Magda tem sido uma voz muito ativa sobre burnout parental e está a preparar uma imersão online, aberta a todos, no dia três de fevereiro, onde vai explorar esta temática.

Há um conhecido provérbio que diz que é preciso uma aldeia para criar uma criança. Embora encerre em si muita verdade e precisão, hoje as redes de apoio, quando existem, são mais pequenas e diluídas. Isto significa que há sempre alguém – por norma a mãe ou pai – que têm sobre si grande parte do trabalho de uma aldeia inteira? 

Sim, e às vezes nem os pais conseguem fazer esse trabalho em condições. Desse ponto de vista, para mim, a responsabilidade da educação de uma criança é de toda a sociedade. E digo isso pela minha própria experiência: trabalhei durante alguns anos na Cruz Vermelha e dei formação em cursos que davam equivalência ao nono ano e alguns miúdos não tinham estrutura em casa para os educar e acompanhar. Se eu me despedisse da minha função de agente educativa – não gosto daquela expressão que diz que os pais educam e a escola ensina, é completamente deficiente – não estaria a exercer o meu papel, nem a apoiar quem precisa de apoio.

Vivemos, cada vez mais, numa sociedade individualista, sobretudo com esta crescente onda das virtudes da parentalidade positiva, onde se acha que se pode comprar um livro e deixar de precisar da ajuda de alguém. Inclusive dos avós e da restante família, para quem a palmadinha é uma estratégia educativa, colidindo com a posição dos pais, que sentem que se têm que afastar porque os familiares não educam as crianças como eles pretendem. E o que é que acontece? A criança fica manca de realidades diversas, de contacto com outras pessoas, e os pais não têm apoio.

Como é que se faz essa gestão para incluir e não excluir?

Percebendo que, na maioria das vezes, os outros não são ameaça. Mas, quando se está muito no papel parental, sobretudo os pais de primeira viagem que têm muita informação que não é necessariamente conhecimento, acaba-se por cometer estes erros, por querer fazer o melhor e não expor os miúdos a determinado tipo de situações. Mas acabam por provocar dano e uma sobrecarga gigantesca para si mesmos. Por norma, são pais e mães que não confiam em ninguém, porque sentem que ninguém vai fazer tão bem quanto eles. E a verdade é que, algumas vezes, os avós ainda castigam, batem e são pessoas tóxicas que comparam os miúdos, que retiram a autoridade aos pais e aí é perfeitamente natural que os pais se afastem, porque não querem aquilo para eles. Há sempre muitas realidades. Mas os pais isolarem-se neste seu papel não é bom para ninguém, porque começa a haver uma sobrecarga. Quando não se pode contar com os avós, há sempre aquela amiga, ou a mãe do amigo do filho, a quem se pode recorrer.

Sem qualquer tipo de ajuda é muito fácil cair-se num burnout parental. Quando se chega a este estado, os pais têm muita dificuldade em colocar limites aos filhos, o que traz um desgaste à relação, uma frustração muito grande e um cansaço gigantesco.

Há muitas dinâmicas familiares e cada pessoa tem que ter a capacidade de olhar para a sua perceber o que faz mais sentido para si naquele momento?

Naquele momento. É mesmo isso. Nesta era de tanta informação, é natural que os pais fiquem muito confusos, mas sem qualquer tipo de ajuda é muito fácil cair-se num burnout parental. Quando se chega a este estado, os pais têm muita dificuldade em colocar limites aos filhos, o que traz um desgaste à relação, uma frustração muito grande e um cansaço gigantesco. E a relação entre pais e filhos, nesta situação, não melhora, só vai piorando. Mas não se pede ajuda, não se delega. Porque, aos olhos de algumas pessoas, sobretudo mulheres, delegar é um sinal de fraqueza.

Isso passa por aquela ideia, que é importante desmistificar, que temos que ser super mulheres e estar em todas as frentes sem falhar em nenhuma?

Sim, é isso. Mas temos aqui um paradoxo, porque, por um lado, queremos mostrar que somos super mulheres, por outro, é a manifestação do nosso cansaço e da nossa exaustão que nos coloca a medalha de melhores mães do mundo.

Como assim?

Porque é a prova de que sou eu que faço tudo – sendo que querer fazer tudo é uma forma de controlo. E é assim, mostrando que estou lá sempre, pronta para fazer tudo sem ajuda nenhuma, que ganho a medalha de melhor mãe do mundo. É como se o cansaço de uma mãe ditasse a qualidade da sua parentalidade. Isto é uma marca da nossa cultura judaico-cristã, porque para merecer o céu, eu tenho que sofrer. E esta medalha é atribuída não pela relação que se tem com os filhos, porque essa normalmente está praticamente morta, mas pela pena/admiração que os outros têm em relação àquela mulher que tudo faz.

“De que adianta estar presente se a mãe ou o pai estão um caco e não têm paciência para os filhos?”, questiona Magda.

Nessa crença e comportamento não há dois pesos e duas medidas, no sentido em que a mulher toma muito para si essa responsabilidade – toma e é-lhe ensinado isso – mas o mesmo não acontece com o homem?

Não existe esse peso em relação ao homem, é verdade. Mas os homens também sofrem de burnout parental. O que acontece é que os homens, por norma, além de não terem esse peso que as mulheres carregam, não são treinados para desempenharem este papel. A mulher, desde que nasce, que está em contacto com a realidade da educação. E, como acrescento, por norma, a mulher tem um peso muito maior porque escolhe exercer a sua parentalidade daquela forma. Porque nós temos escolha. Mas ou nos faltam amostras, porque não temos ao nosso lado mulheres que o façam, portanto não sabemos fazer de outra maneira, ou achamos que tem que ser assim, seja porque queremos que seja assim, ou porque queremos corresponder às expetativas.

Com tudo isto, e aqui leia-se os fatores externos que pesam às já muito pesadas expetativas individuais, torna-se fácil cair num burnout parental sem sequer se perceber que é por aí que estamos a ir?

Sim. Uma coisa é o cansaço da parentalidade, que é normal. Educar cansa, estamos sempre a repetir as coisas, acordamos muitas vezes durante a noite, corremos para aqui e para acolá… Faz parte. Mas quando é durante muito tempo, sem aliviar, pode trazer danos. É muito fácil cairmos no burnout parental porque desvalorizamos, mas depois chega uma altura em que sentimos que não há uma saída. Isto porque nós não nos podemos despedir do papel de pai ou de mãe.

Uma criança cujos pais estão em burnout parental não se sente amada. Sente que tudo é um sacrifício e nunca sabe com o que pode contar. E isso é horrível, as crianças precisam da segurança da consistência.

Não sendo isso possível, de facto, como é que se pode sair de um burnout parental?

A primeira coisa é pedir ajuda e traçar um plano. E esse plano pode passar por delegar e eliminar tarefas, trabalhar competências parentais, trabalhar a auto-estima, sobretudo da mãe, que é quem tem mais questões a este nível – o objetivo é a pessoa ficar mais robusta, mais forte e ir recuperando. Leva tempo a sairmos de um burnout. Porque há hábitos que têm que ser ultrapassados e há capacidades que têm que ser trabalhadas. É um processo. Quem entra num burnout parental costuma ter um traço vincado de perfecionismo. Tudo tem que ser feito à minha maneira, mas depois é curioso porque normalmente são pessoas pouco assertivas com os miúdos. Podem sê-lo com outras pessoas, mas com os filhos não conseguem. É muito triste ver uma mãe em burnout parental, porque ela quer fazer as coisas, mas está num estado de exaustão tão grande, que não tem energia. Chega a um ponto em que já não quer saber – os miúdos podem não tomar banho há três dias, podem passar uma semana a comer pizza a todas as refeições… Outra coisa que denuncia logo um burnout parental é o número de horas que a pessoa fica no trabalho ou fora de casa, porque não quer voltar para casa. Mas enquanto uma mãe se sente mais obrigada a ir para casa, um pai já consegue ficar mais tempo fora para não ter que lidar com o que se passa.

Todos passamos por fases mais intensas, seja porque temos algum desafio no trabalho, seja porque estamos a lidar com uma fase da vida dos nossos filhos que é mais exigente, seja porque em termos familiares aconteceu alguma coisa. Mas é justamente nessas horas que precisamos de uma rede de apoio, para conseguirmos ultrapassar melhor essa fase. Porque é isso que é, uma fase. Mas o burnout não. É algo prolongado no tempo, com problemas sempre a surgir. Não há subtração de problemas, só adição. É um esgotamento, a sensação é que não há uma saída. Uma criança cujos pais estão em burnout parental não se sente amada. Sente que tudo é um sacrifício e nunca sabe com o que pode contar. E isso é horrível, as crianças precisam da segurança da consistência. Mas pais em burnout ora mandam os filhos lavar os dentes aos berros, como deixam que eles não lavem os dentes três dias seguidos. E aqui os miúdos vão chamar a atenção da pior forma. O que se chama de mau comportamento tem sempre uma necessidade que não está a ser correspondida. A criança pede ajuda, mas muitas vezes é com comportamentos mais desafiantes.

Portanto, se não estamos bem connosco próprios, não conseguimos dar o melhor de nós aos nossos filhos?

Exatamente. Pense numa mãe que não dorme, que acorda três vezes por noite durante três anos. A não ser que durma durante o dia, não acredito que esta mãe tenha capacidade de gerir a sua paciência e emoções, que ande feliz e que tenha qualidade de vida. E as pessoas não procuram ajuda porque acham que vai passar. E tudo se arrasta. Precisamos cuidar de nós para podermos dar o melhor de nós. E o cuidar de nós passa por fazer boas escolhas – o maior auto-cuidado que os pais podem ter é dormir, por exemplo. Porque de que adianta estar presente se a mãe ou o pai estão um caco e não têm paciência para os filhos?

“Hoje, as pequeninas frustrações são vistas como traumas, em vez de serem encaradas como possibilidade das crianças trabalharem a sua resiliência. Com o medo que temos de errar, não fazemos as coisas que temos que fazer e a autoridade parental que é absolutamente necessária deixa de estar lá.

É curioso porque esse comportamento dos pais tem impacto real nas crianças, mas depois vivemos numa era em que parece haver um medo generalizado dos pais que não querem traumatizar os filhos… Passamos de um extremo ao outro num piscar de olhos?

Céus. (Suspira) Existe mesmo esse medo… Mas é inevitável que, mais cedo ou mais tarde, os nossos filhos tenham algum tipo de mágoa connosco. Porque faz parte da nossa construção enquanto pessoas – os pais têm que mostrar que não são perfeitos. O trauma é a exposição prolongada a situações que não são benéficas, não havendo uma ressignificação dessas situações. Mas, hoje, as pequeninas frustrações são vistas como traumas, em vez de serem encaradas como possibilidade das crianças trabalharem a sua resiliência.

E porque é que caímos neste exagero?

Porque há mais literatura e há uma projeção gigantesca de coisas que não foram resolvidas com os nossos pais. Com o medo que temos de errar, não fazemos as coisas que temos que fazer e a autoridade parental que é absolutamente necessária para a construção de futuros adultos com uma auto-estima equilibrada e que sabem estar em sociedade, deixa de estar lá. Se tivéssemos menos medo de fazer estragos, faríamos menos estragos. Muitas vezes fazemos grandes asneiras por causa do medo que temos e não somos quem temos que ser no nosso papel parental.

Ou seja, a ironia perversa desta situação é que o medo de traumatizar os nossos filhos leva-nos a cometer erros que podem, de facto, traumatizá-los?

Exatamente! A vida é uma série de coisas boas e menos boas a acontecerem. E nós temos que lidar com isso e perceber este equilíbrio. São as coisas boas que nos dão alento nos momentos maus, e são esses momentos que nos permitem valorizar as coisas boas. Não podemos tirar às crianças a oportunidade de lidarem com as frustrações. Naturalmente, uma criança aprende, nós é que, muitas vezes, lhe retiramos as oportunidades de aprendizagem. Os pais têm que ser sempre um lugar seguro para os filhos, mas não os podem privar dessa aprendizagem tão necessária.

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