Muito velha, muito gorda, muito mulher. Como o preconceito da idade e do corpo afeta sobretudo o sexo feminino
Muito velha, muito gorda, muito mulher. Como o preconceito da idade e do corpo afeta sobretudo o sexo feminino (Foto: Pexels by Karolina Grabowska)

Os anos vão passando, mas o discurso parece permanecer o mesmo. Centrado numa visão masculina da sociedade e da mulher, a discriminação acentuada pelos cânones de beleza impossíveis, pela sexualização, pela idade e pelos preconceitos de género parecem permanecer colados à pele das mulheres, numa estigmatização que deixa de fora quem não pertence aos rótulos seguros da imagem perpetuada pela visão do homem.

Quando a sexualização começa demasiado cedo, mas a mulher a partir dos 40 já é vista como velha; quando se exige que a pele permaneça firme e sem rugas e o cabelo sem sinais de brancos, sendo o contrário visto como desleixo; quando uma mulher, para ser desejável, deve vestir o tamanho S e ter um corpo em formato ampulheta; quando a imagem é a base para definir alguém, em detrimento do conteúdo… Quando tudo isto ainda é uma realidade diária para a maioria das mulheres, que sofrem com o peso do olhar crítico dos outros, torna-se visível o caminho que ainda é preciso fazer para mudar mentalidades.

Querer colocar as mulheres em caixas demonstra bem como muitos homens precisam dessa segurança para sentirem algum tipo de poder sobre o sexo feminino. Sermos quem quisermos, como quisermos, e quando quisermos assusta os outros. Os padrões dão a tranquilidade do conhecido. Quem foge da regra e tem a audácia de ser exatamente como é, sem rótulos necessários para se definir, não é vista com bons olhos por quem se mantém nos preconceitos e nos laivos altivistas do machismo e da misoginia.

(Foto: Pexels by Pavel Danilyuk)

Neste caminho de ser mulher, parece que somos sempre ou de mais ou de menos, segundo a perspetiva alheia. Um espelho onde tantas vezes nos fazemos refletir e onde, tantas outras, nos diminuímos para encaixarmos. Porque crescemos com papéis pré-definidos, numa sociedade que valoriza substancialmente mais o homem, seja ele de que idade for. Porque permanece a ideia de que um homem com cabelos brancos é charmoso e ainda tem lugar em qualquer tipo de emprego, sendo considerado uma mais-valia pela sua experiência. Já uma mulher é vista como datada e as portas fecham-se instantaneamente. De acordo com um relatório da Catalyst Foundation, “por volta dos 40 anos, as mulheres começam a sofrer discriminação com base na sua aparência ou com base em padrões de beleza juvenis, agravados por preconceitos culturais injustificados atribuídos às trabalhadoras”, como a capacidade de inovação e de adaptação, pelo que, e em geral, “são julgadas menos qualificadas”

O idadismo, ou seja, a atitude preconceituosa e discriminatória com base na idade, está bastante presente na nossa sociedade, mesmo que por vezes seja camuflada. É verdade que os preconceitos começam a cair numa proporção direta de vozes que se levantam para não deixar na sombra os comportamentos que, embora normalizados por anos e anos de uma cultura pouco empática e demasiado sobranceira, magoam e marcam. Mas também é verdade que ainda há muitos muros para deitar abaixo nesta luta de maior respeito por quem somos. Ser mulher não é condição que nos faça ter que aceitar determinados comentários ou comportamentos. Do nosso corpo, da nossa aparência, da forma como nos vestimos e apresentamos sabemos nós. Porque nunca se é demasiado velha para usar cabelo comprido, nem muito gorda para ir à praia de biquíni, nem muito mulher para se chegar onde quiser.

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