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Têm boas notas, mas muitas vezes é isso que os afasta dos outros. Ou enfim: isso vem por arrasto. Joana Lima, ‘ex-boa aluna’ e hoje médica, recorda o seu tempo de ‘bullied’ no ensino secundário: “Quando és bom aluno em pequeno, não és ostracizado por teres boas notas, porque os miúdos não se importam nada com isso. És ‘bullied’ por seres outras coisas que muitos bons alunos são: por seres tímido e pouco sociável, principalmente. Mas também é uma coisa que dura uns três ou quatro anos e depois transforma-se no oposto: de repente és o herói da escola e toda a gente quer lucrar com as tuas boas notas.” “Pois: mas esses três ou quatro anos podem deixar muitas e graves marcas”, comenta Patrícia Poppe, psicóloga e fundadora da Escola de Pais. . “Por isso é que tem de se intervir logo, assim que a criança começa a mostrar sinais como tristeza, ansiedade, dores de cabeça ou barriga, recusa em ir à escola. Eles têm de saber que, se qualquer coisa correr mal, têm de contar a um adulto. E esse adulto tem de reagir e não ignorar. Porque as crianças têm todo o direito de se sentirem seguras na escola e é mesmo importante evitar este sofrimento.”

TER BOAS NOTAS PODE SER ‘COOL’
Se tem um bom aluno em casa e já está a tremer, relaxe: a maioria dos bons alunos estão bem integrados. Mas é decisivo o valor atribuído ao desempenho escolar. “Há países, como o Reino Unido ou a Ásia Oriental, onde os bons alunos são muito respeitados e celebrados, mas há outros, por exemplo como a Alemanha, onde não é muito ‘cool’ ter boas notas”, explica Patrícia Poppe. “Nestas idades, 12-15, o que um adolescente quer é ter um papel dentro do grupo e ser reconhecido pelos pares, não é ser bom aluno. Mas há sempre miúdos que, por qualquer razão, não se encaixam nestes padrões.” A boa adaptação escolar também depende da turma em que se está inserido: uma turma com uma maioria de maus alunos vai massacrar mais os bons alunos.
O que há a fazer: começar pela prevenção.”Há que tentar criar um bom ambiente na escola através de turmas equilibradas. eEuilibrar alunos bons com alunos menos bons, rapazes com raparigas, juntar alunos que querem ficar juntos”, explica Patrícia Poppe. “Mas por mais que se previna, situações de bullying vão acontecer em todas as escolas.” Sempre que existe um grupo de pessoas, vai haver situações pontuais de conflito. O que se pode fazer: “Criar um bom ambiente na escola, falar abertamente sobre o tema e não fingir que não acontece nada, porque os alunos não podem estar a sofrer durante muito tempo.”

OS BONS ALUNOS TAMBÉM PRECISAM DE ATENÇÃO
Para criar um bom ambiente na escola, todos podem ajudar: pais e professores.
Os professores: “Devem valorizar os resultados e as boas qualidades dos bons alunos sem os favorecer cegamente. É muito importante ter o cuidado de não fazer comparações entre alunos bons e menos bons. Estes podem ajudar-se mutuamente em equipas de trabalho, por exemplo.” Muitas vezes, os pais também não ajudam face às boas notas dos filhos e tornam-se demasiado competitivos através das crianças.
“Tenho um filho que sempre teve 5 a tudo”, conta Maria Isabel Pereira, mãe do Miguel. “Pois não há fim de ano ou de período em que eu vá ver as notas que não apanhe alguma mãe atrás de mim a dizer ‘Ai mas quem é este Miguel, que teve estas notas?” com uma voz tão despeitada que até me faz tremer. Acho que os pais são terrivelmente competitivos através dos filhos e isso assusta-me imenso, porque não é esse tipo de mundo que quero para o Miguel.”

Também nota que o filho se tornou bastante reservado, para se proteger da inveja alheia. “Faz tudo para não dar nas vistas, e houve uma altura em que tinha alguns problemas por causa dos outros meninos. Mas agora as coisas já lhe correm melhor, porque os outros percebem que ele explica bem as coisas e servem-se disso…”

“Quando os pais mostram um orgulho demasiado grande perante os resultados dos filhos é como se aquele resultado fosse deles e não dos miúdos”, comenta a psicóloga Patrícia Poppe.
Outras vezes, os pais relaxam porque sabem que a criança é boa aluna, mas desvalorizam aspetos importantes da sua vida como a capacidade de ter ou fazer amigos, tão importante para qualquer pessoa, mas principalmente para um adolescente: “Há pais que pressionam demasiado as crianças para as boas notas, quando deviam ajudá-las noutros aspetos muitas vezes pouco valorizados, como a socialização. Podem inseri-los em ocupações de tempos livres que não sejam competitivas e sejam feitas por prazer. Podem ainda estimular as competências sociais: convidar amigos lá para casa, por exemplo.”

COMO LIDAR COM SITUAÇÕES DE BULLYING
Quando uma situação de bullying acontece, seja por este ou outro motivo, é urgente ajudar os alunos a lidar com isso, tanto o agressor como o agredido, porque ambos precisam de ajuda.
“Mas há muitas formas de lidar com a situação que não passam, pelo menos nas primeiras ocorrências, pelo castigo, mas pelo diálogo, pela capacidade de se pôr no lugar do outro, e pela reparação do que fizeram”, explica ainda Patrícia Poppe.
“Num primeiro momento não se deve os pais. Tentamos perceber o que aconteceu falando com as crianças e com colegas que tenham presenciado o conflito, e tentamos que todos tenham consciência do que se passou. Tentamos que o agressor tenha capacidade para se pôr no lugar do outro. Porque muitas vezes o agressor não tem noção do sofrimento que causou.” E acima de tudo o mais importante é ajudá-los a lidar com as emoções (as boas e as más) e educá-los para a tolerância.
“Temos urgentemente que lhes ensinar a tolerância para a diferença, qualquer diferença. E é muito importante fazê-los perceber que há muitos tipos de diferença.”
Importante: ninguém deve ter vergonha ou medo de ser bom aluno. Mas o mito do ‘nerd’ caixa de óculos sem um amigo nem sempre se aplica: é perfeitamente compatível ser bom aluno e ser sociável. Como ajudar um adolescente a conseguir isto? “Deve ter confiança em si mesmo, e não deve envergonhar-se dos seus bons resultados”, diz a psicóloga Patrícia Poppe.”Às vezes não gostam de se destacar, mas lá está, isso depende daquilo que a escola, os pais e os colegas valorizam, e depende também da maneira como são tratados os maus alunos. Se estes forem maltratados, têm de descarregar em alguém. E a inveja dos outros pode ser muito destrutiva.”

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