Foto Pexels/Artem Podrez

Não protestem já, que a palavra não é minha. A expressão ‘cretinos digitais’ ficou famosíssima com o livro do neurocientista francês Michel Desmurget ‘A fábrica de cretinos digitais’, onde acusou a sociedade inteira de estar a criar exatamente isso: cretinos, pessoas incapazes de pensar, menos inteligentes que a geração anterior, viciados em ecrãs.

Ora bem: como foi acusado de se limitar a apontar problemas sem apresentar soluções, atirou-se a um segundo livro onde apresenta exatamente isso: soluções. E a maior de todas é esta: ‘Ponham-nos a ler’ (Ed. Contraponto).

O livro é um verdadeiro hino à leitura, mas é muito mais do que isso: apresenta estudos, investigações e dados que, assustadores como são, deviam ser conhecidos por todos nós.

Então como criar filhos que não sejam ‘cretinos digitais?’ Basicamente, pô-los a ler. Porque, afirma o neurocientista, “a leitura continua o melhor antídoto para o embrutecimento dos espíritos.”

Problema: o declínio da leitura já não é uma ameaça mas uma realidade, vítima da concorrência de muitos tipos de entretenimento digital. “Milagroso seria se a leitura tivesse saído ilesa da máquina de lavar digital que nos últimos trinta anos tem vindo a drenar uma parte cada vez maior da vida dos nossos filhos.”

Estão agora vocês a rolar os olhos e a dizer ‘ai andamos a falar nisso há tanto tempo e nada, eu já desisti’. E é verdade que andamos. Mas Desmurget apresenta este problema como uma verdadeira urgência da Humanidade: se não começarmos já a criar bons leitores, o mundo tal como o conhecemos corre sérios riscos.

Será demasiado tarde? Ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: é preciso tentar. Desmurget defende que, “Em primeiro lugar, há que travar a atual orgia de ecrãs recreativos que está a esmagar a inteligência dos nossos filhos” e em segundo, “reabilitar a leitura, cujo benefícios são tão profundos como insusbstituíveis.”

O que podemos fazer:

Saber porque é importante – Como começa por notar o neurocientista: “A indústria do entretenimento digital tem levado a cabo intensas campanhas para promover os benefícios ilusórios dos seus produtos para o cérebro das crianças. Os editores de livros infantis, por seu lado, permanecem em silêncio, como se os benefícios da leitura fossem evidentes.” Vai direto ao assunto: “desde o aparecimento da linguagem que a humanidade não inventou nada melhor do que a leitur para estruturar o pensamento, organizar o desenvolviento do cérebro e civilizar a nossa relação com o mundo.”

Levar o prazer a sério – Precisamente porque ainda temos, todos, pouca relação com a leitura, é que a relegamos muitas vezes para o universo escolar. Ora o verdadeiro benefício vem da leitura por prazer. Se não gostarmos de ler, os verdadeiros benefícios da leitura vão ser escassos.

Perceber a importância da família – E se acha que não fez ou não faz o suficiente, não se culpabilize: “a porta de acesso aos benefícios e prazeres da leitura mantém-se sempre aberta.”

Ler para os filhos (independentemente da idade) – Um facto engraçado dá o mote ao livro: independentemente da idade ou do país, todas as crianças afirmam adorar que lhes leiam. Problema: quantas têm pais, tios ou avós que lhes façam isso regularmente? Achamos isto uma ideia linda, mas poucos a põem verdadeiramente em prática. Vantagens: quando temos alguém que nos leia, já estamos a ler. Estamos a ter contacto com os livros, com as palavras, com o seu ritmo.

Limitar os ecrãs – Estava mesmo à espera desta, não é? Mas é verdade. Está claramente demonstrado que quanto mais ecrãs uma família consome, menos tempo resta para a leitura a sós ou partilhada. Isto é fácil de perceber. O que ainda muita gente não leva a sério é como os ecrãs se podem tornar viciantes.

Tornar os livros presentes – Outro estudo citado por Desmurget prova que as crianças dizem adorar ler. Problema: “o facto de as crianças gostarem de ler não significa que o façam realmente.”

Não ‘abandonar’ – O que é ‘ler bem?’ Muitos pais acham que a criança já lê bem porque sabe soletrar. Depois ela deixa de ler, os livros tornam-se mais complicados, e ela perde o combóio. “Temos de ler para as crianças, temos de lhes contar histórias, temos de as apoiar quando começam a ler sozinhas.” A palavra escrita é diferente da oral. Uma criança que não comece a habituar-se gradualmente a habituar-se, vai ter a partir do 4º ano dificuldades sérias na escola.

Saber que dá trabalho – A nós que somos leitores fluentes, parece fácil ler uma página (já agora parabéns por ter chegado até aqui. Não é para todos). Mas isso que esteve facilmente a fazer agora mesmo, pressupõe muito trabalho de muitos anos.

Brincar – Construir os alicerces verbais: brincar com as letras, brincar com os sons, cantar, conversar, falar muuuuuuuito, reler o mesmo livro várias vezes. Uma criança pouco habituada a ouvir e falar será uma criança com menos apetência para a leitura.

Falar mesmo durante a leitura – Eles n~eo têm de ficar sentados a ouvir religiosa,ente calados. Encoraje-os a falar, fzer perguntas, perguntar significados, pôr em causa, falar sobre a história, usar a história como pretexto para falar da vida.

Não desistir – Há passagens verdadeiramente catastróficas no livro, vomo esta: “Vários estudos mostram que em geral a capacidade de raciocínio dos jovens sobre a Informação encontrada na Internet pode ser resumida numa palavra: sombria. Tão sombria que acaba por representar uma ameaça à democracia.”

Mas o livro é muitíssimo mais do que isto: cada uma das suas 414 páginas tem informação imprescindível . Por isso agora vão ler ‘Ponham-nos a ler’, fazem favor, tenham ou não tenham filhos, estejam ou não estejam a fazer bem o vosso trabalho. Porque esta é mesmo uma leitura obrigatória.

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