Foto Pexels/Sound On

Andamos fartinhas de mandar dois gritos por tudo e por nada e não somos as únicas. Mãe de dois filhos, de 7 e 3 anos, autora do blog ‘Mum’s the boss’ e do livro ‘Berra-me Baixo’ (Manuscrito), Magda Gomes Dias deu-nos um curso intensivo para baixar a voz.


Por que razão gritamos? “Não gritamos nunca por causa das crianças. Aliás, nós não gritamos nunca por causa da outra pessoa a quem gritamos. É um processo nosso, tem a ver com o tipo de relação que criamos com os outros.”
Temos de ajudá-los a comportarem-se. “Se me irrito porque eles comem devagar, porque demoram a sair de casa, porque vou com eles no metro e eles vão a dar pontapés no banco da frente, grito com eles porque lhes admito esses comportamentos. As coisas não se resolvem na hora, resolvem-se antes, à retaguarda. Tenho de dizer-lhes quais são os comportamentos que eu permito e os que não permito. Por exemplo, se ele faz qualquer coisa de que a mãe não gosta, eu começaria por, à noite, falar com ele e dizer-lhe que aquilo que ele faz me deixa irritada. Perguntava–lhe: ‘o que é que podes fazer para isto deixar de acontecer?’ Para algumas crianças, isto é o bastante: não têm a mãe aos gritos, têm a mãe a ser honesta, a dizer-lhes que fica irritada mas sem o estar, e a perguntar-lhes a sua opinião.”

Nem tudo é uma provocação. “Um mau comportamento pode ser apenas uma forma de a criança gerir o stresse. damos à criança um poder que ela não tem, depois temos muita pena de nós e só conseguimos apontar os ‘sacrifícios’ que fazemos. e dizemos ‘eu amo os meus filhos, mas isto é muito difícil.
o meu amor é incondicional, mas.’ Quando alguém tem necessidade de falar em amor incondicional, eu coloco imensas reservas.”

Não corte a comunicação “Gritar não me facilita a vida, porque corta imediatamente a comunicação. Nós gritamos para sermos escutadas, mas assim que gritamos os miúdos param imediatamente de escutar.

Respeite o seu filho. “Pensamos que ralhar é gritar, mas isso é mentira. Por exemplo: quando está com um colega de trabalho e tem de o corrigir em alguma coisa, grita com ele? Não, não grita. Corrige-o, diz-lhe ‘olha, acho que isso não é bem assim’, mas não lhe grita. grito com o meu filho porque não o tenho como um ser humano igual a mim, com os mesmos direitos que eu. Isto custa muito a ouvir, mas é muito transformador. Eu acho que o meu filho não tem a mesma importância que eu, é diminuído, é pequeno, e não tem a minha experiência, e portanto eu trato-o como alguém abaixo de mim. Se eu respeito os meus filhos, isto não acontece.”

Aprenda a ralhar sem gritar. “Ralhar deve ser orientar, corrigir. Mas, muitas vezes, ralhar deixa de ser orientar e passa a ser apenas falar alto. Transforma-se numa agressão. Às vezes, as mães dizem-me: ‘Então agora já nem se pode ralhar?’ Isto assusta-as porque todos os pais têm um medo gigantesco de que as crianças ‘não deem certo’.
Temos um medo gigante de perder o controlo e a autoridade, e temos uma obsessão com a obediência. Entende-se que os pais queiram filhos cooperantes. Mas a última coisa que eles vão fazer, se eu gritar, é querer cooperar comigo.”

Ponha-se no lugar neles. “Não conseguimos pensar ‘Espera lá que eu se estivesse no lugar dela também faria isto’. E depois não damos nenhum valor ao que eles nos dizem. Não sabemos escutá-los, não os levamos em conta para tomar nenhuma decisão em casa, andamos demasiado rápido para o ritmo deles. Eles dizem ao pequeno almoço ‘hoje não me apetece pão com compota, posso comer com fiambre?’, e nós dizemos ‘ai agora não vou levantar-me para ir buscar o fiambre, come lá isso’. E ele diz, ‘ai então não como’. Quando, se o pai dissesse, ‘hoje apetece-me fiambre’, se calhar levantamo-nos e vamos buscar. E se nos apetece a nós, também lá vamos.”

Estabeleça regras. “As regras existem quando eles ainda não têm maturidade para algumas coisas. Servem para os proteger, para passar valores de família, e também para nos facilitar a vida.
E quanto mais bem estabelecidas estão, menos é preciso gritar.”

Procure ajuda “Na maioria das casas, o caldo está entornado quando chega o pai, que geralmente é o último. O que geralmente se passa: a mãe chega, põe o mais velho a fazer os TPC enquanto organiza o jantar, depois dá banho aos dois. Chega o pai e diz: ‘Então isto ainda não está despachado?’ A calma toda daquela mãe desaparece e ela vai gritar com quem? Com o miúdo, vai dizer que nada anda para a frente porque ele é preguiçoso. Enquanto que se o pai disser: ‘Ainda estão aí? O que é que eu posso fazer?’ O cenário já seria totalmente diferente. Aqui se prova que não gritamos por causa dos miúdos.”

Faça uma ‘tabela de tarefas‘. “Deixe de lhes gritar ‘ó João vai imediatamente arrumar o teu quarto’. Que tarefas quer que eles cumpram todos os dias? A tabela de tarefas é uma espécie de check-list dos miúdos: expõe o que eles têm de fazer no princípio e no fim do dia, e retira dos pais o papel dos chatos. Acaba com os jogos de poder e dá aos miúdos o controlo das suas vidas. Aos poucos, isto ajuda a acabar com as situações de conflito.”

Passe a mensagem de que não se pode gritar com os outros. “Educar para a paz está na moda, mas nós não sabemos fazer isso, tal como também não sabemos gerir as nossas emoções, autorregularmo-nos, e passar isto aos miúdos. Não sabemos nada sobre inteligência emocional. Gritamos por escape, mas nem nós ficamos mais calmas nem os miúdos.”

Decida não gritar. “O desafio ‘Berra-me Baixo’ nasceu em 2010, com uma mãe com quem trabalhei. A Maria lia o meu blog e numa sessão de coaching diz-me: ‘Ó Magda, a teoria eu percebo, mas na prática não consigo deixar de gritar com os miúdos’. E então combinei com ela o seguinte: a partir daquele minuto e até à sessão seguinte ela não gritaria mais com os filhos. Foi como uma ‘dieta de gritos’: em vez de ‘não come pão’ foi ‘não grita’. De manhã, picava o dia anterior como ‘não gritei’. Andou uma semana nisto, sem gritar.
Durante 4 semanas, acompanhei o que acontecia na vida dela. Como o problema de gritar era muito constante entre os pais, passei a usar este ‘método’ das 4 semanas sem gritar. É óbvio que elas não ficavam 4 semanas sem nunca dar um grito. Mas trabalhavam muito melhor a culpa, percebiam por que gritavam. Então criei o desafio ‘berra-me baixo’, onde enviava uma newsletter durante 4 semanas com ideias extra. O livro nasceu disso.”

Comece a praticar. “Antes de dizer ‘ai nada disto vai resultar’, experimente. É como as dietas. Sabemos que temos de estar dispostas a fazer aquele esforço, e que não há resultados de um dia para o outro. Mas as pessoas vão perceber que gritar é uma decisão. Há um momento em que decidimos gritar, e talvez isto os faça perceber que não gritam por causa dos filhos, e que não está à mercê mas ao comando das suas emoções, e que pode mesmo não gritar se não quiser.”



UM ‘CURSO’ EM QUATRO SEMANAS

‘Berra-me Baixo’ apresenta casos reais, conselhos, exercícios e sessões de coaching para uma vida mais pacífica, num ‘esquema’ organizado em 21 dias.

Primeira semana | Tomar consciência dos nossos comportamentos.
O que nos tira do sério?
Segunda semana | Pensar na relação que temos com eles: firmeza, afeto e paciência são os pilares.
Terceira semana | O ‘estágio’ com todas as situações que nos descontrolam.
Quarta semana | É uma semana ‘extra’, onde descobrimos que afinal não foi assim tão complicado melhorar.


livro | BERRA-ME BAIXO | Magda Gomes Dias | Manuscrito | €14,90

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