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Passamos a vida a queixar-nos dos homens, lemos notícias sobre namoros violentos, mas o que fazemos para contrariar a situação? Se tem filhos rapazes, saiba se está a fazer um favor às mulheres da próxima geração, ou se está a prolongar o reino dos maus namorados.

Maus namorados já quase toda a gente teve.
Há quem tenha sobrevivido ao topo da escala das agressões, e há quem se queixe apenas daqueles pormenores que não matam mas moem (lembra-se do Carlos Jorge, que fazia barulho a comer a sopa? Do Tozé, que embirrava com todas as suas amigas? Do Paulo, que insistia em passar todo o fim de semana a jogar Playstation?)

Mas há pior. Mais de metade dos rapazes e das raparigas acha normal proibir a namorada/o de vestir certas roupas e de sair com determinados amigos: foi uma das conclusões de um questionário feito a uma amostra de 885 alunos de escolas de Porto e de Braga no âmbito do Projeto Mudanças com Arte da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta). 5% dos rapazes considera ainda que agredir a namorada ao ponto de deixar marcas não é ser violento. 25% dos rapazes e 13,3% das raparigas entendem que humilhar a namorada/o é legítimo e que ameaçar é normal.

Claro que as mães e pais não têm culpa de tudo, mas há muito que podemos fazer para criar um homem do qual uma mulher se possa vir a orgulhar. “Não há uma receita, mas há sempre medidas que se podem tomar desde muito cedo na educação de uma criança”, nota a psicóloga clínica Íris Martins, do centro de atendimento da Associação de Mulheres Contra a Violência. “Acima de tudo, os rapazes têm de ser educados para o respeito, para a não banalização da violência, e isto vê-se em situações muitas vezes comezinhas. Se os irmãos se batem, toda a gente acha normal, e não é. Uma criança levantar a mão aos adultos, por exemplo, é um comportamento frequente, sim, mas que deve ser falado e discutido para que as crianças não se habituem a viver através da violência.”

Ou seja, regra n.º 1: habitue-o desde pequeno a encontrar formas ‘criativas’ de resolver os seus problemas que não sejam o estalo ou o ‘chamar nomes’.
“Se a criança se habitua a resolver os seus problemas porque levanta a mão e é o mais forte, não desenvolve ao longo da infância competências sociais e sentimentais que o vão ajudar a ter uma vida saudável”, diz Íris Martins.

Mas o que é que as mulheres de facto procuram? Esqueça o garanhão que arranja as torneiras: aquilo que as mulheres mais procuram, segundo o site uk.askmen.com, é alguém que as faça sentir belas e amadas.
Em segundo lugar vem a capacidade de as encorajar a ir mais longe.
Também é importante que seja criativo, confiante, respeitador, alegre e que saiba ouvir. Se conseguir criar um espécime destes, parabéns. Se não, lembre-se que a maioria deles também não é assim…

“Mas onde é que ele aprendeu aquilo?”
Muitas vezes, não é dentro da família que os rapazes aprendem a violência.
“Fazemos muito a pergunta ‘Mas onde é que ele terá aprendido isto?’ e esquecemo-nos de que muita coisa é passada culturalmente, sem sequer ser dita”, lembra a psicóloga.
Os pais e família têm um papel muito importante, mas têm de se lembrar de que nem tudo depende deles: “Toda a sociedade está organizada em torno da banalização da violência, num mundo em que os papéis masculinos e femininos continuam estereotipados. Os mais pequenos são esponjas sociais, absorvem mesmo aquilo que não é dito: as diferenças de género, a ideia de que os rapazes são mais fortes, por exemplo. E estas diferenças são interiorizadas quer pelos rapazes quer pelas raparigas.” A família não pode imunizar totalmente a criança, mas pode oferecer-lhe qualquer coisa importantíssima: a autoestima.
“Um menino seguro de si não vai precisar de agredir, diminuir ou controlar a namorada, uma menina confiante consegue contar às amigas ou aos pais que o namoro está a correr mal sem se sentir posta em causa. Uma menina mais insegura tem dificuldade em aceitar que a relação não está a correr bem, que escolheu mal, que não era aquilo que queria.”

Guia para a autoestima
O que fazer para criar esta autoestima de que tanto se fala mas que tanto falta? Começar por dizer diariamente aos nossos filhos que gostamos deles é um bom princípio, embora pouco seguido.
Sim, é óbvio que eles sabem que gostamos deles, mas as crianças precisam de ouvir o óbvio. Quando foi a última vez que lhe disse ‘adoro-te, és importante para mim’? “Nós ainda temos muita dificuldade em elogiar uma criança”, diz Íris Martins.
“Claro que não é elogiá-los a torto e a direito ou quando eles fazem um disparate, mas mesmo nessa altura é possível criticar pela positiva: ‘Tu és tão esperto e tão bom rapaz, como é que foste fazer uma coisa destas, vamos lá guardar, arrumar, ajudar’. Portanto, a forma como ralhamos também é importante na forma de passar a mensagem.”
É verdade que muitas vezes não damos aos mais novos os melhores exemplos porque a vida também não nos ajuda a conter a nossa agressividade. “Aliás, se compararmos a descontração das nossas rotinas quando tínhamos 6 anos com a dos nossos filhos, tudo mudou radicalmente.
As crianças já nascem em stresse.” Precisamente por isso é que é tão urgente ajudá-las a lidar com a vida da melhor maneira, sem que a agitação seja uma desculpa para atos violentos. E outro aspeto importante: a educação sexual deve iniciar-se em casa. “Eles começam desde cedo a fazer perguntas, e é muito importante falar com eles, sem lhes dizer que isto ou aquilo não é para a idade deles”, defende Íris Martins.
Mas a educação não é só saber o que entra onde e por onde sai o bebé, também é ensinar a respeitar o outro, ensinar que o sexo é algo que se faz apenas quando os dois querem. “Aprender a pôr o preservativo e onde entra o quê, eles aprendem na net, mas a educação sentimental sim, é difícil de ensinar e de aprender. ‘Eu não quero dormir com o meu namorado, mas ele pressiona-me, o que é que eu faço?’, questões destas podem ser complicadas de gerir. O que é importante é haver abertura para que isto seja discutido.”

Problema: às vezes nem os adultos sabem lidar com isto, principalmente se eles próprios já passaram por situações incómodas. “Mas se os pais querem ter filhos com capacidade para se confrontarem com problemas que podem surgir – e as estatísticas dizem que uma em cada quatro raparigas já esteve exposta a uma situação de violência – têm de se habituar a discutir situações difíceis desde muito cedo.”

‘Ele quis um Nenuco, e eu comprei-lho’
“Ainda não sabiam pronunciar o próprio nome e já os meus filhos diziam “se faz favor” e “obrigada”. Aliás, eles até diziam “obrigada” (com o género trocado) pelo hábito de ouvir a mãe dizer”, conta Ana Isabel, diretora comercial, mãe do Duarte, 12 anos, e do Lourenço, 7. Parece um pormenor, mas Isabel acredita que é por aí que se começa: educar no respeito e na atenção aos outros.
“Aqui em casa só há filhos meninos, mas há uma ‘princesa’ adulta que acredita em amores para a vida. E os amores para a vida trabalham-se desde tenra idade. Os meus filhos já sabem que em matéria de afetos não existem barreiras, preconceitos ou limitações e cedo aprenderam que mimos em ‘excesso’ é um disparate inventado por adultos confusos.” Isabel esforça-se por combater os preconceitos que rodeiam a educação de um rapaz. “Há uns anos, o Lourenço quis ter um Nenuco, e eu comprei-lho. Lembro-me de pensar: porque não? Também ele terá de saber mudar fraldas um dia, alimentar a sua cria, desenvolver o instinto paternal… Claro que há certas coisas que ainda prefiro manter ‘à moda antiga’: o cavalheirismo, os pequenos gestos de segurar uma porta, oferecer o casaco à namorada que está com frio, levar o pequeno almoço à cama.” Ou seja, ser um bom namorado não é apenas não agredir. É também não ter medo de mimar os outros.
Mas um filho quase adolescente é um desafio para uma mãe apostada em lutar contra o preconceito, ainda por cima quando se é rapaz e se é ao mesmo tempo sensível: “Agora discuto muito com o Duarte a questão dos rótulos e dos estigmas porque ele está numa idade em que os miúdos descobrem a sua identidade sexual e têm muitas dúvidas. E é muito fácil caírem gratuitamente em preconceitos.”

Educar contra a corrente não é fácil, mas Isabel orgulha-se de, pelo menos, tentar. Ou seja: “Mais do que preparar o namorado que toda a menina tenha orgulho em apresentar à avó, quero preparar o ser humano que valoriza o próximo pela sua bondade e caráter. Quero que os meus filhos possam amar uma mulher ou um homem sempre que isso for coerente com os seus sentimentos.”

E se tiver filhas?
Uma menina é igualmente sensível à imagem masculina associada a comportamentos agressivos. Ora então, o que é que a minha filha deve saber? “Deve saber, entre outras coisas, o que é um namoro saudável”, nota a psicóloga Íris Martins. “Um namoro saudável exige que a pessoa seja tratada com carinho e respeito. Uma rapariga – tal como um rapaz – deve poder escolher os seus amigos e roupas, e ver quem quiser quando quiser, por exemplo.”
O controlo leva sempre à violência, seja física ou psicológica ou sexual. Terminar o namoro também é um direito, até porque muitos rapazes mantêm uma situação de ‘stalking’, ou perseguição, e não é fácil quebrar a relação.
“As meninas têm de se saber defender e não guardar estas situações para elas próprias, mas falar com alguém: pais, um professor, um tio, um amigo mais velho.” O problema é que elas não identificam muitas destas situações como violência! “Acham que muitos destes comportamentos controladores, como o ciúme, são provas de amor. Ainda por cima, na adolescência as pessoas têm muita necessidade de se sentirem aceites e amadas, e fazem tudo para serem parte do grupo. Ter um namorado, para algumas, é uma forma de serem incluídas e de se sentirem adultas.”

Conclusão: rapazes e raparigas devem saber que amor não significa agressividade ou controlo. E os pais têm de dar uma ajuda e conversar sobre o assunto.


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