Foto Pexels/Hassan Ouajbir

No outro dia, o meu tio estava gabar o técnico da TV Cabo. Porque tinha ido lá a casa e resolvido o problema lá não sei do quê num instante. E alguém perguntou: ‘Então porque não ligou para lá a dizer bem do homem? Coitado, alguns têm uma vida tão dura, pode ser que ainda caísse alguma coisa para o lado dele’.
O meu tio ficou um bocado de boca aberta porque tal coisa claramente nunca lhe passou pela cabeça, mas recompôs-se e respondeu que dizer bem do homem provavelmente não ia adiantar nada e se calhar até lhe ia arranjar problemas, o que eu achei admiravelmente maléfico e tipicamente português.
Pus-me a pensar que de facto nós adoramos apontar o dedo e protestar que isto e que aquilo é inadmissível, mas quando é para dizer bem, somos incrivelmente caladinhos.
E falo contra mim. Eu mesma nunca liguei nem escrevi para lado nenhum a dizer que o senhor tal e tal me tinha prestado um excelente serviço. E já tive razões para isso. Assim de repente, lembro-me de um taxista que me levou em pânico (pânico de chegar atrasada, que eu sou stressadinha com as horas) já não me lembro para onde numa noite em que chovia pedra e ele com a maior das calmas lá me deixou onde eu pedi. Também me lembro de uma senhora do call-center da TAP (no tempo em que a TAP era a TAP; não agora) que em duas horas me pôs uma amiga em Portugal, num dia em que lhe morreu uma avó e ela estava demasiado em choque para tratar do assunto.
Podíamos dizer que se limitaram a fazer bem o seu trabalho, mas o facto é que o fizeram, e eu não agradeci a nenhum deles. Porque é que não o fiz? Podia dizer que nem me passou pela cabeça. Mas tristemente até passou. Não o fiz porque sou preguiçosa, e em não fazendo na hora depois a ocasião passa.

Bem, lá no tal dia do meu tio e da TV Cabo, alguém perguntou porque é que nunca dizemos bem de ninguém. E eu, que também sou stressada com as respostas, disse logo, ‘É dor de cotovelo. Odiamos saber que há alguém bom naquilo que faz, como se isso nos tornasse piores’.
O que é verdade. Adoramos achincalhar as pessoas e exibir o que têm de pior, se possível em público. Mas no caso do senhor da TV Cabo isso era ridículo. Não tens dor de cotovelo em relação ao senhor da TV Cabo. Então não ligas para lá a dizer bem dele porquê? Como em tudo, há várias razões, umas mais superficiais que outras.
A primeira (a minha) é a preguiça pura.

A segunda é que não estamos habituados a que as coisas corram bem. Estamos habituados a serviços que não funcionam, a esperas intermináveis, a pessoas que não sabem o que fazem, e quando correm bem é uma espécie de compensação para as alturas em que correm mal.

A terceira razão é que não faz parte da nossa cultura agradecer. Somos labregos. Agradecemos quando nos serve para alguma coisa. Engraxamos o chefe mas não agradecemos ao empregado do café que nos serviu depressa e bem. Em não servindo, em nunca mais indo ver aquelas pessoas, achamos que não vale a pena.

A quarta é que temos muito para fazer e aquilo que é realmente importante (agradecer, telefonar à avó, comer gelados) acaba por ficar de fora.
A quinta é que o Estado Novo nos deixou desconfiados de dizer o que quer que fosse acerca dos outros.

A sexta já não me lembro.

Fui ver o que é que a ciência tinha a dizer sobre isto. As investigadoras americanas Erica Boothby and Vanessa Bohn estudaram a razão porque, precisamente, não elogiamos tanto como poderiamos fazê-lo, e descobriram que a primeira razão porque não elogiamos é… porque nem pensamos nisso. É triste mas é verdade. E não pensamos nisso porque não nos apercebemos da potência de um elogio, daquilo que pode mudar na vida de alguém (e toda a gente sabe isto por experiência própria). Depois, achamos que o recetor do elogio se vai sentir desconfortável e incomodado, ou pior, que as nossas palavras vão ser mal interpretadas e, com azar, ainda se podem voltar contra nós (o famoso ‘quando a esmola é muita o pobre desconfia). Isto também é verdade.

Mas, segundo a psicóloga Emily Balsetis, no artigo ‘Give more compliments: it won’t be as awkward as you think’ (qualquer coisa como: ‘Elogie mais: não vai ser tão estranho como pensa’) na Psychology Today, estes medos não têm fundamento, porque mesmo que haja pessoas que se sentem desconfortáveis quando são elogiadas (isto dá outro artigo, stay tuned) a maioria, mesmo assim, adora.

E deixa uma ideia: use o fator surpresa a seu favor. Elogie sem segundas intenções, sem dar graxa, sem ‘precisar’ da outra pessoa para nada. Elogie um avô, uma tia, um filho, um sobrinho, um amigo, um desconhecido. E seja específica: diga mesmo de que é que gostou. Segundo Emily, “Num mundo onde é tão raro ver o impacto imediato das nossas ações, aqui está uma forma de o tornar possível.”

E num mundo onde a vida já é tão difícil e onde nos sentimos tantas vezes invisíveis, dar uma palavrinha de apoio não custa nada: e pode fazer toda a diferença. Afinal, se temos o fantástico poder de iluminar uma vida, porque não o usamos mais vezes?

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