Foto Pexels/Polina Tankilevitch

Desenvolver-lhes os sentidos não é torná-los génios da matemática com seis meses nem ensiná-los a ler com quatro, mas, antes de mais, desenvolver laços de carinho enquanto brincamos com eles. “Brincar é um dos aspectos mais importantes da vida de uma criança e um dos instrumentos que o adulto pode usar para diminuir o stresse do dia-a-dia”, lembra Ana Paula Nunes, psicóloga e especialista em cuidados de saúde infantil. “Por exemplo, é brincando com a criança que é possível aliviar o afastamento dos pais durante a permanência no infantário.” A brincadeira é a ‘profissão’ da criança que está a crescer. “O espaço onde ela brinca é um lugar de experiência criativa”, afirma Ana Paula. “Através da brincadeira, encena os seus conflitos internos, preocupações e medos, num teatro privado, onde é simultaneamente espectador, encenador e actor.” Os pais podem e devem participar neste tipo de diversão, porém, as formas como o fazem diferem consoante a criança vai crescendo. Não se brinca da mesma maneira com um bebé de três meses e com uma criança de dois anos. Então, como é que podemos ajudá-las a tornarem-se crianças ainda mais felizes, ainda mais mestras na arte de brincar?


ATÉ 6 MESES
“Nos primeiros meses de vida, é difícil distinguir as condutas lúdicas do exercício funcional das suas capacidades”, lembra Ana Paula Nunes.
Quer dizer: nos primeiros tempos, um bebé está preocupado, acima de tudo, com actividades do tipo aprender a alimentar-se. Como é que se brinca com alguém que ainda está ocupado a aprender a engolir? “Nesta etapa, as brincadeiras centram-se no corpo do bebé e só mais tarde em objectos externos”, afirma a psicóloga. É que o próprio bebé ainda se está a habituar a ser bebé, a estar na Terra. Para que serve uma boca, um dedo, um braço? Ele tem de descobrir o próprio corpo antes de descobrir o mundo lá fora. E a mãe pode ajudá-lo nesta aprendizagem. “Mesmo quando o jogo é funcional, está sempre integrado numa relação a dois”, nota Ana Paula Nunes.
“As actividades só se transformam num jogo pela relação com o outro.” A mãe pode estimular a visão do bebé, por exemplo. Segundo Morris Green, autor do guia americano ‘What to Expect: The First Year’ (‘O que Esperar: O Primeiro Ano), um recém-nascido vê melhor entre 20 e 30 centímetros de distância e isto não é ao acaso, porque nada na Natureza é ao acaso: corresponde à distância a que está do rosto da mãe.
Qualquer objecto pendurado por cima do rosto dele não lhe dará grande alegria: experimente colocá-lo de um dos lados.
Mesmo assim, só por volta dos três meses é que um bebé é capaz de seguir um objecto de um lado ao outro, num arco feito por cima do berço. Não o encha de mobiles, ele não precisa. Um ou dois estímulos são o suficiente. Há um brinquedo que a maioria dos bebés gosta: caras, em carne e osso ou desenhadas. Ao contrário do que se pensa, preferem padrões a preto e branco do que a cores, adoram luzes (uma lâmpada, um candeeiro, uma janela) e são mais felizes numa sala bem iluminada do que na penumbra.
Mas não é preciso tirar um curso para estimular um bebé a maioria dos pais estimula adequadamente os filhos apenas por falar ou brincar com eles.
Mesmo assim, este livro aconselha a que se aproveitem todas as oportunidades para falar ou cantar com o bebé enquanto se dá banho, durante o passeio, no carro. “O seu objectivo não é ‘ensinar’ o bebé, mas desenvolver a sua relação com ele”, afirma Ana Paula.
Aprenda com o bebé. Descubra o que é que o faz feliz, nervoso, interessado, calmo. E, às vezes, deixe-o sossegado com um brinquedo. Ele também precisa do seu espaço.

O que pode fazer com ele

Segundo Morris Green, é possível estimular um bebé pequenino com mobiles, objectos que se movam (aquário, bolas de sabão, uma roca), quadros ou posters com contrastes bem marcados (deixe as aguarelas para mais tarde), espelhos, caixas de música, rocas e CDs para bebé, livros com desenhos simples de pessoas, objectos ou animais, brinquedos com texturas diferentes que desenvolvem o tacto: um ursinho de peluche e cubos de madeira, uma almofada macia e uma manta áspera. Mas, acima de tudo, os bebés gostam de pessoas (encoraje as visitas de família e mostre fotografias ao seu filho) e do mundo: carros, pessoas, árvores, passarinhos. E adoram conversa: “Devemos falar com uma criança desde que ela nasce”, lembra a psicóloga Ana Paula Nunes. As crianças precisam de ter contacto com a linguagem do adulto porque nós não temos apenas uma linguagem verbal: também falamos com o nosso corpo, o tom de voz, a expressão facial, e a criança aprende a comunicar dessa forma.
“A linguagem a utilizar com crianças pequenas deve ser simples e convém lembrar que o mais importante é a entoação que se dá às palavras.” Claro que, se falar sem parar, vai haver uma altura em que o bebé faz o mesmo que as outras pessoas: desliga.


ENTRE 6 MESES E UM ANO
Estão cada vez mais activos, mudam todos os dias e precisam de espaço para explorar e para gatinhar. “Nesta fase, é fundamental a riqueza e a variabilidade do meio ambiente para que a criança possa manipular e agir”, lembra Ana Paula. Ou seja, para que ela perceba o melhor possível como é que funciona o mundo e como é que ela própria funciona na relação com ele.
Alguns bebés podem precisar de um empurrãozinho (metaforicamente falando, claro!) para se levantarem do chão. Há muitas maneiras de fazer isto: coloque os brinquedos preferidos dele fora do alcance e chame-o. Ou fique de gatas e brinquem à apanhada.
As crianças desta idade adoram espelhos: leve-o a fazer caretas ao espelho, apareça e desapareça, ponha e tire óculos ou chapéus, aponte e diga o nome das partes do corpo: olhos, nariz, testa, braços, etc. Gostam de objectos que façam ruído, que se possam atirar ao chão (convém que não se partam, claro). Aprendem a receber e a devolver uma bola (não é incomum que uma das primeiras palavras seja ‘golo’!) e já sabem que é possível esconder e procurar um objecto.

Os jogos clássicos do ‘cucu’ e do ‘onde está?’ fazem muito sucesso. O desporto preferido de várias ‘sereiazinhas’ é passar horas em frente de um alguidar com copos e tachinhos e patos de plástico. Mas NUNCA deixe um bebé sozinho em frente da água, mesmo que seja pouca. E cuidado na casa de banho: os bebés são fanáticos por torneiras, e aprendem depressa a abri-las (fechá-las já é outra conversa).

O que pode fazer com ele

Nesta idade, encoraje a fala. Tudo o que se vê tem um nome: use-o. É assim que ele vai aprender, e não se esqueça que um bebé percebe muito antes de saber falar: experimente fazer uma pergunta a que ele possa responder ‘sim’ e ‘não’ com a cabeça e já vai ver. Por isso, converse com ele. Tente percebê-lo: algumas primeiras tentativas são desastradas. Pergunte: ‘o que é tu queres? É a bola? O sapato?’

Não lhe responda em linguagem de bebé, mas na sua, e não corrija. Diga: ‘Toma o teu chapéu’ em vez de ‘Toma lá o péu’. Em vez de ‘não se diz áua, é água’ diga: ‘Queres água? A mãe dá’. Em vez de corrigir, o que inibe qualquer pessoa, repita o que ele disse da maneira correcta.

Mas não faça um grande drama se ele for mais lento: há várias maneiras de aprender e de mostrar o que se aprendeu. Há crianças que falam que se desunham, embora ninguém perceba nada do que lhes sai da boca, e outras que só começam a falar aos três anos, mas com frases completas e advérbios de modo, e isso não quer dizer que umas sejam mais inteligentes do que outras. E não se esqueça: faça-o rir.

Sabia que um dos sinais mais claros de que um bebé é esperto é o sentido de humor? Claro que nesta idade se riem de coisas básicas: às vezes basta uma careta. Também acham imensa graça a situações de surpresa ou espanto, quando alguém finge que se enganou e foi apanhado desprevenido, ou com situações que já sabem que estão ‘trocadas’: um livro na cabeça a fazer de chapéu, por exemplo.

ENTRE 1 E 2 ANOS
O mundo torna-se cada vez mais excitante: agora falam e andam cada dia melhor. O mais importante é ter espaço para andar, para correr, para aprender a subir escadas.
Faça bolas de sabão e encoraje-o a correr atrás delas. Leve o seu bebé a passear! Se o mundo dele se resumir à casa, ao carro e ao supermercado, que monotonia vai ser! Leve-o aos parques, aos museus, às lojas de brinquedos, aos restaurantes.
Divirta-se com ele caso seja Inverno ou Verão: saia de casa à chuva, para ele aprender o que é a chuva, e ao vento, para ele aprender o que é o vento.

O que pode fazer com ele:
Cante e bata palmas. O bebé também costuma gostar de tirar objectos de um sítio e voltar a pô-los lá dentro (enfim, quanto a esta última habilidade, é capaz de levar mais tempo a aprender).
Recorra a brinquedos que o encorajem a usar as mãos e a encaixar, como jogos e puzzles de peças grandes. Os livros são um clássico: ao contrário do que ainda se pensa, deve dar-se e ler-se livros às crianças muito antes de aprenderem a ler. Os livros abrem o mundo inteiro ao bebé: por eles, aprendem o que é uma quinta, um foguetão, uma fada, um camelo. E, à medida que crescem, vão ficando cada vez mais importantes as brincadeiras de faz-de-conta: os tachinhos, as bonecas, as caminhas, os carrinhos: quase tudo pode ser transformado num mundo imaginativo.
Ah, e não se preocupe se o seu bebé não tiver dotes sociais. Segundo o guia ‘What to Expect: The First Year’, nem sequer se deve tentar tornar mais sociáveis os bebés até aos três anos, simplesmente porque o seu desenvolvimento ainda não chegou a esse ponto. Por muito que pensemos o contrário, não nascemos a saber fazer conversa ou a sermos imensamente simpáticos para o colega do lado, e estar num infantário não vai mudar nada disso.
Não faz mal nenhum que os bebés tenham a companhia de outros, mas se o seu não lhes ligar muito, não se assuste e não tente forçá-lo: é normal. Já é muito bom que brinquem de forma ‘paralela’ (‘ao lado’ uns dos outros, embora não uns ‘com’ os outros).
Em resumo, não stresse o seu filho e brinque com ele pelo prazer de brincar, não pela obrigação de ensinar. E aprenda como ‘funciona’ o seu bebé à medida que ele aprende como funciona o mundo.
Como afirma Ana Paula Nunes, “a brincadeira é um indicador do desenvolvimento e um factor de desenvolvimento em si mesmo. A história de cada criança é como um reflexo no espelho da sua própria história: “diz-me como brincas, dir-te-ei quem és”.

CUIDADO COM OS EXAGEROS
Fuja à tentação de transformar a sua criança num geniozinho: para já, porque não há benefícios nos mais novos começarem muito cedo a desenvolver habilidades chega uma altura em que todos estabilizam. Depois, porque os bebés não são executivos em miniatura: como afirma o guia ‘What to Expect: The First Year’, os bebés precisam da sua ‘bebezice’.
Uma coisa é brincar com eles, dar-lhes mimo, responder aos seus interesses e ter ao seu dispor actividades variadas, outra é começar a mostrar-lhe cartões com letras quando deviam era estar no parque a correr atrás dos passarinhos.

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