Apresento-vos uma das minhas pessoas preferidas: conheci-o por ser colaborador da ‘Visão Júnior’ e o seu entusiasmo pelos miúdos em geral e pelos livros em particular é irresistível. Um passado triste como aluno levou-o a querer ser o melhor professor que conseguia. E no caso dele, é dizer muito.

Quando é que soube que queria ser professor?

Soube que queria ser professor no 12º ano. Tive de fazer uma apresentação na aula de psicologia e o professor disse-me que eu devia considerar ir para o ensino. Era um homem execrável (risos) mas aquele conselho ficou-me na cabeça. Sempre tive vontade de estar ligado à escrita e tinha pensado em seguir jornalismo, mas quando tive de tomar uma decisão a sério, decidi ser professor do 1º ciclo.

O que há de tão especial em ser professor?

É uma tarefa verdadeiramente decisiva porque vais marcar muita gente ao longo dos anos, e por isso há muitíssimo a aprender. Eu gostava de ler mas não lia muito, e a partir do momento em que comecei a dar aulas percebi que uma literacia bem construída era fundamental. Por isso tirei uma pós-graduação em Livro Infantil na Universidade Católica, também escrevi um livro para os mais pequenos, ‘A pior amiga’, e percebi como isso era difícil. Então formei-me em jornalismo, porque precisava de aprender outros tipos de escrita, e comecei a colaborar com a ‘Visão Júnior’.

Mas porquê dar aulas ao Primeiro Ciclo?

Escolhi desde o princípio dar aulas ao Primeiro Ciclo porque não queria dar só uma disciplina, queria ser um professor abrangente, que ensina a ler mas também faz colagens e desenhos e artes manuais, e só no primeiro ciclo é que se pode ensinar ‘tudo’. Acho que o Primeiro Ciclo tem de ser uma experiência extraordinária, porque estamos a apresentar a escola àquelas pessoas. E eu tive um Primeiro Ciclo muito mau.

Como assim?

O meu professor tinha uma régua de madeira em cima da mesa, e apanhávamos todos muito. Muito mesmo. Às pessoas acham que as reguadas acabaram no 25 de Abril mas não é verdade. Eu entrei na escola em 1986, e sofri um regime verdadeiramente militar às mãos de um homem cruel. E simplesmente decorávamos coisas, sem as compreendermos.

Quis corrigir o passado sendo professor?

Se calhar não tão literalmente, mas de alguma forma o meu passado fez-me perceber que tipo de professor não queria ter. Atualmente os meus alunos têm entre 8 e 9 anos, estão no 3º ano. Dou aulas em Alvalade há muitos anos, e já tenho alunos que estão no 10º ano. É muito engraçado e muito gratificante perceber que deixaste uma marca.

O que aprendeu com os seus alunos?

Acima de tudo, a empatia. Eu não me preocupava muito com os outros antes de ser professor. Quando ensinas tens de te pôr no lugar do outro, e os meus alunos ensinaram-me de facto a olhar para os outros. A mudança de chip é constante e acontece mil vezes por dia. Aabaste de explicar uma coisa irracional como frações equivalentes. Olhas para a cara de um miúdo e percebes imediatamente que ele não apanhou nada. O que é que se passa?” “Desculpa Fernando, isto não faz muito sentido…” E lá vou buscar o exemplo da pizza para desmontar tudo.

Tratam-no pelo nome próprio?

Sim, tratam-me pelo nome próprio, mas é engraçado que são os primeiros a fazê-lo. Não faço ideia porquê e não tem nada a ver com disciplina ou respeito, são muito educados e equilibrados. Saiu-lhes (risos).

Nota diferenças entre os miúdos de agora e de há 20 anos?

Noto. Sinto-os com menos foco. Hoje em dia, mantê-los com atenção é muito mais difícil. Há 20 anos, aguentavam-se muito bem numa sala de aulas. Hoje, por exemplo, quando eu faço uma avaliação leitora – quando ponho todos a ler em voz alta, um por um, uma coisa que demora hora e meia – chegas ao aluno 24 e os outros há muito tempo que já ali não estão, de cabeça. Há muitos estímulos, telemóveis, vídeos de 10 segundos, e todos eles estão habituados ao imediatismo de tudo, onde as suas necessidades têm de ser satisfeitas já. Por exemplo, a dinâmica normal de uma aula é eles porem a mão no ar quando querem falar. Dantes, qualquer um sabia esperar a sua vez. Hoje eles atropelam-se para falar. Portanto, até esta gestão do tempo tem de ser aprendida.

Ler e conversar está-se a perder?

Está. Sem dúvida. Mas por acaso tive sorte com a minha turma. Tenho 3 ou 4 rapazes que adoram ler, leem tudo o que apanham. Um deles, no primeiro dia em que os levei à biblioteca da escola, perguntou: ‘Tenho de ler tudo o que está aqui?’ ‘Claro que não’, disse eu. E ele: ‘Mas posso?’ (risos) ‘Quando souberes ler, podes ler tudo o que quiseres’. ‘Então quero’. E posso dizer leem muitíssimo, devoram tudo quanto apanham. Mas sei que muitos, quando vão para casa, põem o livro a um canto.

Qual é o segredo para pôr os miúdos a ler?

Há dois: entusiasmo e acesso fácil. Há muitos pais que continuam a achar que o telemóvel é um substituto deles próprios. Sei que a vida não é fácil para ser pai ou mãe, mas ninguém é obrigado a ter filhos. Podem ter gatos. Ou cactos (risos). Tem de haver mínimos olímpicos.

O que gostaria de ensinar aos pais?

Falem com os miúdos, conversem com eles, levem-nos a brincar ao ar livre, porque os miúdos não se sabem mexer, chegam ao 1º ano muito presos, passam a vida da casa para o carro. Sempre que caem choram, porque não estão habituados. Ora eles precisam de cair. E leiam tudo. Por exemplo, os meus alunos adoram folhetos de supermercado, porque fiz uma atividade de educação financeira e fizemos descobertas fenomenais: como se vende um produto? Porque é que uns vêm maiores que outros? Quais deles são de primeira necessidade? São incrivelmente educativos (risos).

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