Mariana detestava que lhes batessem à porta logo pela manhã. O seu primeiro impulso era gritar "Elvira! Emília!", mas logo caía em si, a Emília ainda devia andar lá pelas franças e a Elvira nunca mais voltara do Canadá, onde fizera pela vida na apanha da minhoca, "a menina nem queira saber o dinheiro que isto dá", dissera-lhe na última carta que lhe escrevera.
Dantes, a casa estava sempre cheia de gente, o pai fazia os negócios no escritório, a mãe recebia as amigas no salão e quando Mariana fazia anos, os convidados transbordavam de todas as salas e havia no ar um aroma inconfundível de ‘Embrujo de Sevilla’, misturado com o cheiro a chocolate do bolo saído do forno.
Nessa altura, Mariana tinha muitos amigos e toda a gente dizia que havia de casar cedo. Os amigos também diziam que ela tinha cara de artista de cinema, "quando deixas cair o cabelo para a testa, és tal qual a Verónica Lake", e riam muito ao som de valsas e boleros.
Mas os anos foram passando, as pessoas desaparecendo do casarão e ela a descobrir, nos espelhos, uma nova ruga, mais um cabelo branco, um vinco que no dia anterior não existia.
Quando casou, ninguém entendeu a sua escolha. Os amigos desejaram-lhe felicidades, pediram-lhe que não se esquecesse deles, e que continuasse a deixar cair o cabelo para a testa, "ficas tal qual a Verónica Lake". A princípio ainda lhe telefonavam no dia dos anos, mas o marido dizia sempre que ela não estava, que não sabia quando voltaria, e que não era criado dela para lhe dar recados. Acabariam por desaparecer.
O marido gastou-lhe o dinheiro e as energias, e, quando morreu, deixou dívidas em lugar de saudades, e um mundo que se encarregara de lhe esvaziar.
Entre maus tratos e humilhações, as rugas foram tomando conta do seu rosto, os olhos perderam o brilho antigo, o cabelo tornou-se baço.
De novo o ruído irritante da campainha.
Vai muito devagar até à porta e, em bicos dos pés, espreita pelo ralo. A princípio, nem quer acreditar, esfrega os olhos, deve estar a precisar de óculos, não pode ser, é claro que não pode ser.
Quase a medo, abre a porta, a mão a tremer-lhe no trinco e ela a querer falar e a não conseguir dizer uma palavra. De repente tem outra vez vinte anos, e os amigos estão a chegar, e a mãe deve estar a perfumar-se com ‘Embrujo de Sevilla’, o bolo de chocolate está a sair do forno. Olha para o homem e espera que ele lhe diga, como sempre costumava dizer, "quando deixas cair o cabelo para a testa, és tal qual a Verónica Lake", não tarde vão começar a dançar valsas e boleros, e as pessoas vão dizer que ela há-de casar cedo.
– A D. Mariana está?
Ela ouve-o sem perceber, só pode estar a brincar, pois que outra pessoa poderia estar ali senão ela? Tenta rir, vai para lhe dizer, "não, quem está aqui é a Verónica Lake", e tem a certeza de que vão cair nos braços um do outro, mas ele insiste:
– A D. Mariana está?
E não é a brincar. Ela respira muito fundo, agarra-se bem à porta e tudo faz para que a voz não lhe trema quando, num quase murmúrio, responde:
– Não, a senhora não está.
Depois tudo se passou muito depressa, ele a deixar ficar qualquer recado que ela nem ouviu, a porta a fechar-se, o som do elevador ao longe – e ela, de quarto em quarto, metodicamente, a quebrar todos os espelhos.
Quando, tempos depois, leu no jornal a morte da Verónica Lake, espantou-se muito de saírem notícias tão atrasadas.