Somos…

… fanáticos por futebol

Português que é português tem lugar cativo na bancada do Estádio da Luz, não admite piadolas sobre o seu clube e tem na sala uma foto gigante emoldurada do plantel do Benfica de 1984/85. Homens, mulheres, crianças e cães dormem mal na véspera do Benfica-Olhanense, não dormem na véspera do Benfica-Sporting e não dormem durante uma semana antes do Benfica-Liverpool. Não sabem qual é o rio que atravessa Coimbra, mas recitam a equipa inteira que defrontou o Vorskla Poltava e o Bate Borisov. Se o Benfica ganha, invadem o Marquês. Aliás, invadem o Marquês mesmo antes do Benfica ganhar. Ninguém sabe como é que o Marquês (e principalmente o leão) ainda lá está. Há quem não seja do Benfica, sim. Mas não são tão típicos.

… maus em prioridades

Temos um jipe, mas falta-nos um dente, porque gastar dinheiro no dentista é que não, que são uns gatunos. Temos um smartphone, mas os nossos jantares consistem em pão com manteiga. Vamos de férias para Varadero, mas temos prestações da casa em atraso.

… conciliadores

Quando alguém teve um acidente e ficou tetraplégico numa cadeira de rodas, dizemos: ‘Podia ser pior: podia ter morrido’. Se a pessoa teve um acidente e morreu, dizemos: "Ai foi melhor assim, coitadinho, que é que ele cá ficava a fazer o resto da vida, tetraplégico e numa cadeira de rodas?’

… ‘negadores’

Já repararam que a primeira coisa que respondemos a tudo, o que quer que seja, é ‘não’? E respondemos ‘não’ mesmo que se esteja a concordar! Quando um português diz, por exemplo: "Sou do Benfica", o outro responde: "Não, mas eu também!" É verdade que pode ser apenas um tique, mas que mau astral isto de reagir aos outros logo com um ‘não’ bem esfregado no nariz…

… DISTRAÍDOS

… com as horas. Todas as manhãs, em todas as salas de aulas portuguesas, há um despertador que não tocou. De facto, para quê chegar a horas? Temos pavor de pensar que podemos fazer figuras tristes à espera de outra pessoa porque depois nos vão ver pendurados e vão pensar, ‘olha aquele coitado ficou pendurado’. Temos pavor de parecer demasiado oferecidos. Não sabemos esperar. Ficamos aflitos. Dá-nos para pensar na vida (também é muito português detestar pensar na vida). Dá-nos, como diziam as nossas avós, os frenicoques. Por isso, nunca chegamos a horas. A nada. Quando é mesmo preciso chegar a horas, tipo para apanhar um avião, estamos lá por muito favor meio minuto antes do check-in fechar, e depois fazemos questão de obrigar toda a gente que está dentro do avião a esperar por nós. Se alguém diz que gosta de chegar com calma, franzimos o sobrolho e perguntamos, genuinamente espantados, "mas porquê? Para ficar horas à seca no freeshop"? Os estrangeiros passam–se, principalmente os alemães, que têm reuniões de trabalho com portugueses e ficam 45 minutos à seca na sala de espera a decorar os veios falsos da planta carnívora de plástico que é o único ser na sala para além deles. Se os alemães cá ficam mais de 15 dias, começam também eles a chegar atrasados. Já sabem que não adianta protestar. Já sabem que a planta não tem muita conversa.

… aventureiros

Deve-nos ter ficado o bichinho (carpin-

teiro) dos Descobrimentos, que uma vez posto o pé numa caravela nunca mais fomos capazes de parar de viajar. Há um português em qualquer canto do globo, por mais recôndito, escondido ou perigoso que seja. Aliás, quanto mais perigoso, mais nos puxa o pezinho. O melhor que nos podem fazer nas férias é raptar-nos.

… sensíveis

O Bonga tinha razão: temos sempre uma lágrima no canto do olho. Há um (mau) poeta em cada português. Podemos ter muitos defeitos, mas temos um coraçãozinho de ouro, graças a Deus. Aliás, adoramos desgraças. Adoramos lamechices. Adoramos poemas de amor (que outros escreveram a outras, claro, nós nunca, que somos muito machos), e e-mails com anjinhos a mandar estrelinhas pelo ecrã abaixo, e cachorrinhos abandonados que precisam de um lar. Os textos no Facebook a dizer ‘querida mãezinha, fazes hoje 85 anos e sempre te sacrificaste por mim" têm 896 comentários. E respectivas lágrimas.

… invejosos

Não podemos ver ninguém de bem com a vida que tentamos logo puxá-lo cá para baixo. Se uma mulher tem sucesso, é porque subiu na horizontal. Se um homem ganha bem, é porque lambeu as botas ao chefe. Escusado será dizer que os políticos são todos uns corruptos, os advogados são uns gatunos, e os directores das empresas públicas deviam mas era trabalhar nas obras para ver o que a vida custa. Os futebolistas é que podem ganhar mais num segundo a dormir do que nós a vida inteira acordados porque são a nossa razão de viver e, além disso, são respeitados no estrangeiro.

… desenrascados

Não há computador que não volte a trabalhar com um pequeno murro/ficha da loja dos trezentos/bocadinho de pastilha elástica carinhosamente aplicado nas entranhas. O verdadeiro português é aquele que aos três anos já desfez quatro portáteis, cinco telemóveis e catorze rádios só para ver o que tinham dentro, mais uma Bimby só para chatear a mãe (tê-los desfeito não inclui voltar a montar tudo, o que também é bastante português: deixar tudo para a fêmea que está mais perto arrumar). Somos tão desenrascados que não nos damos ao trabalho de planear seja o que for. Para quê? Seja o que for, o português desenrasca.

… acanhados

O filósofo José Gil fez há uns anos esta afirmação a propósito dos portugueses: "Temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão dizer de nós. Partimos sempre do princípio de que o que vão dizer é negativo. Dificilmente alguém dirá ‘que bom o que tu fizeste, estou muito contente’. Não. Vão decerto criticar-nos. Isso cria logo um medo que nos paralisa. Faz com que tenhamos prudência. Bom senso. A sociedade portuguesa não tem canais de ar, respirações possíveis. É uma sociedade suavemente paranóica. As pessoas estão demasiado conscientes de si próprias, o que é um horror." É arrepiante, não é?

… tímidos

Nem sequer dizemos bom-dia aos outros no elevador. Não é malcriadice: é timidez. Enerva-nos ouvir a nossa própria voz. Fingimos que não está ali ninguém, que a outra pessoa é um holograma. Se por acaso (Deus nos livre!) o holograma fala connosco, como os santos com a Joana d’Arc, em vez de responder, como decerto faria a Joana d’Arc, olhamos para o chão ou mexericamos nas chaves. Se gostamos de alguém, fazemos todos os possíveis para que a amada não perceba. Principalmente os homens. Sabe-se lá. Ela pode ressonar. Ter borbulhas na nuca. Querer ver o ‘Perfeito Coração’ à hora a que o Benfica joga. Chateá-lo quando sai com os amigos. Chateá-lo para levar os copos sujos da sala para a cozinha. A mãezinha pode ter ciúmes. O cão pode embirrar com ela. A porteira pode vir queixar-se que ela fuma no patamar. Ela pode querer casar-se. Em Las Vegas numa limusina cor-de-rosa. Em Bali. Naquelas cerimónias típicas em que estão os dois embrulhados em panos cor-de-laranja com malmequeres no toutiço. E ele é alérgico a malmequeres. E daqui a seis meses pode estar farto dela. E ela vai fazer a cabeça dos amigos todos a dizer que a culpa foi dele.

É melhor não.

… patriotas

Ai de quem diga mal de nós. Quando a Maitê veio dizer que não tinha internet no hotel, caiu-lhe todo o Portugal em cima. E com razão. Afinal, as únicas pessoas que podem dizer mal de nós somos nós. Evidentemente.

… perigosos

Mais do que perigosos, somos um povo absolutamente mortal: deve morrer mais gente nas estradas portuguesas do que nas batalhas do Afonso Henriques. Não há ninguém que não chegue cada manhã ao trabalho sem ter assassinado alegremente o código da estrada. Apitamos a torto e a direito, ao da frente, ao do meio e ao de trás. Guiamos todos na faixa da esquerda, inclusive, camiões (a largar areia, grades de cerveja ou galinhas para cima do carro de trás), furgonetas e triciclos. A faixa da direita é para velhinhas, carrinhos de mão e, sei lá, cágados. Macho que é macho guia a pelo menos 260km/h. Porque ‘toda a gente sabe que o código está largamente ultrapassado’. Depois morremos que nem tordos e dizemos que havia óleo na estrada.

… solidários

Catástrofes é connosco. Podemos não funcionar lá muito bem no dia-a-dia, mas dêem-nos uma catastrofezita e não há como um português para pôr logo as coisas nos eixos. Nunca somos tão organizados como quando se trata de angariar fundos. Ninguém angaria fundos com tanta destreza como nós. Gostamos genuinamente de ajudar: um médico para a criança, uma flor para a mãe, um emprego para a tia? Também se arranja. Somos bons em crises. Somos maus no quotidiano. É a sina dos heróis.

… viciados

Em café (se não bebemos logo um de manhã começamos a enervar-nos e a ver extraterrestres nos cantos e a ouvir vozes no elevador). Em telemóveis (temos no mínimo dos mínimos quatro: um que não trabalha mas que guardámos porque não deitamos nada fora, um que nos ofereceu a Joaninha mas não sabemos trabalhar com ele e agora não dá jeito aprender, o do trabalho, e o propriamente dito nosso). Em cigarros (mas vamos deixá-los assim que o Zé Manel também deixar, e como o Zé Manel só vai deixar se tiver um AVC, só vamos deixar quando o Zé Manel tiver um AVC, caso ele sobreviva para ter oportunidade de deixá-los) e em comida (seja qual for, doces ou salgados, das pataniscas ao molotov, do bacalhau com natas aos pezinhos-de-coentrada, do cozido à serradura, hmmmmm!). Deixá-los? Talvez amanhã.

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