JP Simões. Foto: Sara Abrantes
‘Roma’ é o seu terceiro álbum de originais a solo – o oitavo da discografia, a contar com aqueles que fez com Belle Chase Hotel, Pop Dell’Arte, Quinteto Tati e em parceria com o músico e compositor Afonso Pais. E esta é uma viagem sonora eclética e alegre, onde podemos ouvi-lo cantar em português (de Portugal e do Brasil), em italiano, inglês e francês.
JP Simões é um dos músicos e letristas mais talentosos da música nacional, um dos que mais elogios arranca à crítica e até a outros talentos das letras, como o escritor Valter Hugo Mãe, que sobre ele e ‘Roma’ escreveu: “Este disco é terapia para o português cinzentismo, para a merklice aguda, para a gula capitalista, para o desperdício da paixão. Desmistificando decadências e confessando vícios e afectos, Roma é um certo folclore pejado de alegrias, contagiante, impossível de ser parado.”
Estivemos à conversa com o JP Simões.
– ‘Roma’ é um disco cosmopolita ou a reflexão sobre uma sociedade em curva descendente? Como o definiria?
Roma é um disco de festa em tempos difíceis, inspirado em muitos géneros e autores musicais que aqui são naturalmente homenageados e contextualizados no que poderei chamar a minha música, feita de tanta gente, de tantas paisagens e estados de espírito. Tentei responder com precisão, humor e carinho ao difícil estado de dúvida e de avareza em que estamos mergulhados.
– O que o inspirou para a escrita e composição?
Inspirou-me a vertiginosa possibilidade de estar vivo.
– O single chama-se “Gosto de me drogar”. A situação a que o país chegou já só se aguenta com sarcasmo e alienação?
Creio que às vezes é preciso gozar com o mamífero capitalista para ver se ele ainda sabe rir.
– Temas como ‘Carnaval radioativo’, ‘Valsa Rancho’ ou ‘Português Voador’ têm elementos musicais e poéticos (e sotaque) do Brasil. O que o inspira na cultura brasileira?
A mestria musical e poética do Brasil é imensa e está muito ligada à vida quotidiana: é vivida com empenho pelos brasileiros e tem um importante papel no desenvolvimento social e intelectual da comunidade onde é produzida, coisa que gostaria que acontecesse mais em Portugal. Depois a língua e a história que partilhamos faz-me sentir como se todo esse tesouro artístico também fosse meu: gostar de alguma coisa é a melhor e talvez a única forma de possuir.
– O que vamos poder ver nos espetáculos de apresentação deste disco?
Vai ser um concerto com uma banda maravilhosa e totalmente ilustrado pela mestria do pintor e artista plástico Luís Lázaro, cidadão que muito respeito e um dos meus amigos-mestres, dos que ensinam a viver com a sua natural generosidade. Espero que seja, no mínimo, um concerto empolgante.
– Quais são os ingredientes para a boa escrita de canções?
Paciência, generosidade, empenho e olho vivo.
– Aproveita paragens entre discos para fazer outras coisas, como escrever peças de teatro. Escreveu uma recentemente. Há mais na forja? Como é o JP Simões dramaturgo?
Para já a lojinha do teatro está fechada. O que eu faço em dramaturgia é essencialmente a criação de pretextos para pôr pessoas a trabalhar coletivamente, a conversar sobre as suas vidas e a cantar. Não sou propriamente um dramaturgo: antes um esforçado artesão de musicais inusitados.