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Getty Images/iStockphoto

SÍLVIA NUNES, 33 anos
Executive manager da Page Personnel, empresa de recrutamento

 “Durante a licença de parto, sentia falta do trabalho”

Estava na sala de recobro há quatro horas, depois de ter dado à luz o primeiro e único filho, quando o telemóvel tocou com o pedido urgente de um cliente espanhol. Nos cinco meses de baixa de parto nunca passou pela cabeça de Sílvia deixar o trabalho de lado, pelo menos completamente. “Neste setor, temos uma função de muito contacto humano. Numa função de back office, há sempre alguém que a substitua durante a sua ausência. Mas se o cliente está habituado a promover o contacto direto connosco e a ser atendido a sábados e domingos, seja a que hora for, nunca conseguimos desligar-nos. Com a responsabilidade que tenho, não seria capaz. Não posso passá-la a quem não é pago para isso. No primeiro mês estive afastada do escritório, mas, em casa, acabava por ser o elo entre os clientes e a equipa. Na verdade, não estive afastada do trabalho um único dia, mas isso não me foi imposto pela empresa. Hoje, as ferramentas de comunicação e teletrabalho de que dispomos permitem-no. Também só consegui fazê-lo porque me sentia ótima depois de ter o meu filho. Mas sentia falta do trabalho e de falar com as pessoas.”

“Ser mãe até me beneficiou na carreira”

No fim da licença, Sílvia era uma das colaboradoras que mais faturara à empresa. Em casa, continuava a assegurar, sozinha, todos os cuidados ao filho, como a amamentação de três em três horas. “Sou muito racional na organização do tempo, distraio-me pouco face ao que tenho para fazer. Tive a sorte do meu filho dormir mesmo no período entre a amamentação. Não quis a ajuda da minha mãe, sogra. Queria aquele espaço para mim e para o meu filho.” Sílvia salienta que, para além dos pais se adaptarem à nova rotina com o bebé, a criança também se deve adaptar à dos pais. “O meu filho viaja comigo desde as três semanas de vida. Nunca tive uma ama, tenho a ajuda de uma empregada para a casa. Nunca fui uma mãe ansiosa e acho que isso facilita.”

Quando regressou ao trabalho sentiu necessidade de se reajustar. “Os meus pais ficam com ele durante o dia, o que é uma tranquilidade fantástica. Não deixei de ser mulher, profissional, ir ao ginásio, ter vida social: reorganizei-me. De 15 em 15 dias, há um sábado em que o meu filho dorme nos avós para eu e o meu marido podermos ir ao cinema ou jantar com os amigos. Se o resto não funcionar na nossa vida, a nossa relação com os nossos filhos também não vai ser a melhor. Hoje, assim que saio do escritório e estou com ele, esqueço as preocupações totalmente do trabalho.”

A maternidade, longe de ter prejudicado a sua carreira, até ajudou. “Já assisti a casos de mulheres cujas carreiras foram travadas, pelo menos temporariamente, pelo facto de serem mães. A mim, um mês depois de ter regressado foi-me proposto gerir um projeto maior do que tinha até à data. Não acredito que seja preciso fazer muitas horas extraordinárias para se progredir na carreira. Tem é de se ser muito racional na organização do tempo. Muitas vezes, dizem-me que a minha forma de estar no trabalho é mais parecida com a de um homem. Não tenho é perfil para a mentalidade de trabalho das nove às cinco.”

OLGA SALGADO, 43 anos
Coordenadora de marketing numa operadora de telecomunicações

“Amanhã vai ser mais calmo…”

Numa sociedade em que toda a gente espera que seja a mulher a equilibrar filhos, profissão e lida da casa, já há casos em que é o homem a assumir esse papel. O braço direito de Olga, casada, mãe de um rapaz de oito anos e de uma rapariga de 11, é o marido. “Enquanto casal, temos um papel diferente do habitual. Gosto muito do meu trabalho e os projetos em que tenho estado envolvida são muito estimulantes. A cultura da minha empresa exige muita disponibilidade em horas de trabalho e há muita exigência na entrega de resultados. Saio do escritório por volta das oito ou oito e meia, chego a casa, janto com a família, estou um bocado com os miúdos. Depois, ainda estou entre duas e quatro horas a trabalhar até ir dormir. Quando digo ao meu marido, que amanhã vai ser mais calmo, ele brinca e diz ‘não, não vai…’”

Há três anos, a família mudou-se de Lisboa para o Porto. “Foi uma decisão tomada com base no meu trabalho. Vinha cá duas ou três vezes por semana e senti que a família se estava a ressentir. A gestão do dia–a-dia e da casa recaía sobre o meu marido, que já tinha pouco tempo, e eu também tinha muitas saudades.”

“Pai, o que é o jantar?”

Em Lisboa, o marido trabalhava numa imobiliária e durante o dia, os avós ficavam com as crianças. No Porto, com um amigo, começou a trabalhar a partir de casa e coordena tudo com a gestão doméstica e um maior acompanhamento dos filhos. Olga não lhe poupa elogios. “É extremamente organizado. Levanta-se muito cedo, vai fazer surf, volta a casa, trabalha, vai buscar a minha filha, ajuda as crianças nos trabalhos de casa, depois trabalha mais. Também é um excelente cozinheiro, é ele que gere a casa, os horários, fala com a empregada. De vez em quando fazemos um balanço, quero saber se ele está feliz. Ele responde que gosta do que faz. É o grande pilar da família, sobretudo com os avós longe. Acredito que pai e mãe devem estar igualmente presentes na educação dos filhos. Não quero demitir-me das minhas tarefas, por isso, comecei a assegurar algumas, como ir buscá-los à natação.”

A alteração dos papéis de pai e mãe trouxe também mudanças no quotidiano. “Confesso que a princípio me fez muita confusão ouvir os meus filhos perguntar: ‘Pai, o que é o jantar?’. Sou aquela que dá autorizações e mimo e, a meio da noite ou se estiverem doentes, é a mim que continuam a chamar. Mas está fora de questão perguntarem-me o que é o jantar. A longo prazo, o meu marido vai ter um retorno muito grande do investimento que está a fazer na família e talvez eu vá sentir mais isso, no futuro. Neste momento, não é possível, mas gostava de poder pensar em trabalhar menos horas, futuramente.”

RITA COELHO PINTO, 36 anos
Deixou de trabalhar há sete para se dedicar ao filho

“Achei que voltaria ao trabalho rapidamente”

Do lado oposto a estas histórias está Rita. “Não desisti da profissão para ser mãe mas achei que, temporariamente, devia dar primazia à família. Pensava que depois do meu filho fazer seis meses voltaria ao mercado de trabalho rapidamente. Tinha muitos contactos e nessa altura não havia a falta de emprego. Comecei a trabalhar logo que acabei a universidade. A minha progressão na carreira foi muito rápida. Fui lançar e liderar um departamento que não existia na empresa, de relações públicas, organização de eventos e assessoria de imprensa. Gostava imenso do meu trabalho, ganhava bem, viajava cada vez mais porque era preciso representar a empresa em eventos e cocktails.”

Ao fim de dois anos de profissão, engravidou. “Enjoei até ao último dia de gravidez. Na empresa, não foram muito recetivos. Era uma peça fundamental e se falhasse as coisas desmoronavam-se um pouco. Achei que deveria sair e dar oportunidade a outra pessoa de fazer o meu trabalho.” Mas os seis meses do plano inicial acabaram por arrastar-se por anos. “O meu filho foi sempre uma criança  muito pouco calma, chorava muito. Não percebia por que é que os filhos das minhas amigas não tinham os mesmos problemas, por que é que elas conseguiam trabalhar e eu não.”

Aos dois anos e meio, na primeira consulta de avaliação de desenvolvimento, veio a suspeita de que a criança tinha hiperatividade com défice de atenção, confirmada aos quatro anos. “O diagnóstico foi revelador de tudo o que me queixei durante anos sem perceber porquê. Não é só a criança ser irrequieta, tem uma grande dificuldade de autorregulação e autocontrolo, a todos os níveis. Nem consegui uma empregada que quisesse ficar com ele em casa enquanto eu ia trabalhar. Vivia numa grande ansiedade.”

“Não podia deixar o meu filho afundar-se”

Aos quatro anos, o filho entrou para o colégio mas as dificuldades de adaptação iniciais não deram tréguas à jovem mãe. “Era chamada lá constantemente, o meu filho vinha para casa a chorar porque não tinha amigos. Senti que era a única pessoa que o podia ajudar. Não podia deixar o meu filho afundar-se.”

Só a partir dos seis anos é que estas crianças podem começar a ser medicadas. As melhoras foram radicais e rápidas e só então Rita sentiu que podia voltar ao trabalho. “Hoje, acho que fui ingénua e até um pouco arrogante ao achar que arranjaria logo outro emprego. A verdade é que não consigo. Já mandei muitos currículos e cartas. Só tive resposta de uma agência de recrutamento, que me disse que já estava afastada do mercado de trabalho há demasiado tempo. Estou convencida que se não criar o meu próprio trabalho ninguém mo vai dar, aos 36 anos. Uma vez que deixei de trabalhar, a minha disponibilidade financeira também diminuiu bastante. Mimos, como ir ao cabeleireiro, às compras ou almoçar com as amigas tiveram que ser muito mais limitados. Não daria a nenhuma futura mãe o conselho de deixar de trabalhar, pelo menos nos primeiros tempos. Uma mulher que possa passar algumas horas por dia a fazer algo que a realiza é uma mãe melhor e mais descontraída. Trabalhar pode ser uma forma de descansar, relativizar os problemas e, às vezes, a encontrar soluções a que não chegaríamos de outra forma. Mas também não faz sentido para mim ir trabalhar para entregar 80% do meu rendimento a alguém que trate dos meus filhos. Já tive oportunidade de voltar a fazê-lo nessas condições, mas não pago a ninguém para me substituir como mãe.”

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