Forretas, invejosas, controladoras, e por aí fora… Todas nós o somos, de uma maneira ou de outra. Não é agradável pensar que temos defeitos, mas para todos há uma explicação. A psicóloga clínica Clara Soares guiou-nos numa numa viagem ao nosso lado sombrio, e percebemos afinal o que faz de nós…

Forretas

Verdade: “Ser forreta é não dar ao acaso oportunidade para colaborar connosco”, afirma Clara Soares. A frase é tão fantástica que fico um bocado hipnotizada enquanto ela explica o resto:

“O hábito de poupar desalmadamente para o caso de um dia faltar, tem raízes em experiências de escassez. Mas esta falta pode ser de dinheiro ou de afectos. Aliás, a questão do dinheiro é quase sempre um pretexto que tem por trás outro tipo de carências. Por exemplo, a pessoa que esbanja dinheiro é uma pessoa que de alguma maneira também desqualifica o outro nos afectos, ou se desrespeita a si.” Os Tio Patinhas da vida são aqueles que passam o tempo a dizer coisas como: não empresto coisas, a minha vida não é um luxo, quem não tem dinheiro não tem vícios.

Consequência: Um hábito que a certa altura fez sentido pode converter-se num modo de viver muito limitativo. Fecham as portas ao mundo, e acabam por privar-se de momentos e oportunidades preciosas por desconfiança e medo da rejeição.

Fumadoras

Verdade: “Para alguns, o cigarro actua como uma espécie de gabardina, para outros como uma protecção solar”. Outra frase bombástica. Gabardina? Protector? Clara explica: “O fumo põe à distância quem interfere no nosso espaço vital, funciona como cortina de protecção, envolve-nos numa substância brumosa que nos separa do outro.”

Ao contrário do que se pensa, fumar não é um acto de socialização, como o álcool, que afasta as inibições. “Se reparar, uma pessoa que está a ter uma discussão consigo ou que está no início de uma relação muitas vezes atira o fumo para a cara do outro para se proteger.

É óbvio que isto é completamente inconsciente, esta criação de uma cortina de protecção.” Para outros, o cigarro tem uma função de chupeta ou consolador, calando-nos a angústia. E como todas as fumadoras sabem, a nicotina é mais difícil de largar quando há boas razões para manter essa âncora. “Quando precisamos de qualquer coisa para tocar, para sugar, para agarrar, é muito difícil de largar esse ‘companheiro’”.

E as pessoas que dizem ‘fumo porque não quero ceder à pressão de quem me quer obrigar a deixar de fumar’? “Isso são racionalizações que as pessoas usam para vícios que não conseguem ocultar. A primeira coisa que se dá a uma pessoa que quer deixar de fumar é explicar-lhe que as consequências físicas e químicas do fumo. Mas claro que a maioria das pessoas não é racional. O fumo é um apoio, um consolo, tal como os analgésicos e os paliativos, que também são extraordinariamente difíceis de largar.”

Consequência: Envelhecimento precoce, doenças várias, exclusão de locais onde o vício não é tolerado.

Viciadas em compras

Verdade: O vício das compras é um tapa-buracos emocional através do acumular de sensações. Enquanto os cigarros são um paliativo, aqui há uma espécie de gula, de bulimia, de açambarcamento. “Há aqui uma violência autoinflingida, como quando se come sem parar”, explica a psicóloga. É uma forma de agir para não pensar: as pessoas sentem-se tão desconfortáveis que, enquanto compram, não pensam.

“Há uma ligação clinicamente discutível, mas que pode ser feita: há quem se automutile, para que a dor física lhe faça esquecer a dor emocional”, explica a psicóloga. “Aqui, é o mesmo processo: há mulheres que constantemente mutilem o seu salário para se sentirem menos ansiosas”. Ai mutilar o meu salário parece-me bastante sinistro: de repente penso nos três pares de botas que comprei de uma assentada em pleno Verão, porque estavam em saldos, e sinto-me culpada.

Mas vem lá pior: “Há aqui um lado sádico. Há uma raiva e agressividade latente que se manifesta, nas mulheres, pelas compras, e nos homens pelo jogo. Isto corresponde às duas armas típicas: a sedução nas mulheres, a violência nos homens, são as duas armas de controlo e poder.” A agressividade latente que está aqui, a raiva e a intolerância à frustração, pedem uma resposta drástica e excessiva, ao ponto de ser totalmente descontrolada e não elaborada mentalmente.

Consequência: O descontrolo e a indigestão emocional. Não tem a ver com protecção, mas com compensação pura, como quem se enche de doces só para não sentir a dor.

Hipocondríacas

Verdade: “Temos medo de assumir a vontade pessoal, que no fundo é uma forma de autonegação. Quanto mais preocupada estiver com as doenças que pode ter, e são cada vez mais as disponíveis no mercado, mais legítimo se torna ficar trancada e segura em casa” Hummm. Não sei, dito assim, a mim soa-me bem…

De repente, apeteceu-me imenso ficar trancada e segura em casa. Mas temo que não seja boa ideia. “Pessoas com a crença de que a vida é difícil temem ficar pelo caminho se derem livre curso aos seus instintos, cuja intensidade temem”, nota Clara. “Só estão bem quando tudo lhes corre mal.” É verdade. Conheço umas quantas assim.

“O Woody Allen tem aquela personagem do realizador que começa a ver-se desfocado: uma hipocondríaca sente-se assim, quase desfocada, com uma incapacidade para assumir os riscos daquilo que sente. Tem medo de não ser capaz, de se desintegrar.” E de onde é que vem esse medo? Ao que parece, são pessoas que na infância foram superprotegidas, ou que tiveram alguma doença e criaram medo de viver, de ser quem são, de lidar com as emoções negativas. Têm uma enorme ansiedade contida. “Imagine que põe o carro em marcha e não larga o travão: o carro afoga-se nele próprio, porque a sua força motriz contida o leva ao afogamento” Ahhhhh! Tenho um carro hipocondríaco! Depois percebo que não é nada disso: é uma metáfora, estúpida.

Consequência: “Nunca chegam a fazer o set-up completo do seu programa de vida, bloqueiam logo no começo, e tornam-se autênticas bombas relógio. São as Rapunzéis que nunca chegam a sair da torre.”

Obcecadas pelas redes sociais

Verdade: Ai meu Deus. O Facebook. Temo que isto caia para o meu lado! Bem, pelo menos inda não sou ‘addicted’ à farmville e não ando a mandar coelhos e vacas a ninguém. Mas ao que parece, estar no Facebook até pode ser benéfico, se não se transformar numa obsessão.

Para que isto aconteça, explica a psicóloga, é preciso haver três factores de risco: factor nº1, a sede de aceitação social, factor nº2, ligações pouco sólidas no mundo real, e factor nº3, propensão à alienação.

Ai meu Deus. Eu de facto sou um bocado alienada. Já me estou a enervar.“A pessoa que não está satisfeita com o seu quotidiano e não faz nada para mudar, é mais propensa à alienação do que as outras, e se na sua vida pessoal nunca foi de enfrentar os problemas, pior ainda”, esmiúça Clara.

“Passar horas distraída com jogos virtuais, num permanente corrupio de actividade como se não houvesse amanhã, corresponde à obsessão da partilha, de estar sempre ligada, sempre a ser vista, com medo de ser abandonada.” A necessidade de competir também tem aqui um terreno fértil: eu tenho mais amiguinhos do que tu, eu mando mais novidades, eu sou mais desejável.

“Se não estiver ali, a receber o espelho dos outros, eu não existo”, explica a psicóloga. “Aquilo é a minha montra mas a certa altura também se transforma no meu gueto, no meio que me controla e onde eu fico enquanto o mundo corre lá fora.” Os miúdos estão ligados às redes sem que isto seja uma novidade, e já lidam com elas de maneira normal. Para as outras pessoas, isto pode ser mais uma ilusão do que uma verdadeira comunicação entre duas pessoas.

Consequência: “Acabar perdida e sem saber que direcção tomar. Isto é mais expressivo em relação aos sites de encontros e datings, em que a procura serve para afastar medos e encontrar alguém com quem sossegar a dor.”

Controladoras

Verdade: “Requer qualidade de análise e espírito estratégico: são as más das telenovelas”. Bem, pelo menos isto eu sei que não sou.

Uuuf! Vamos lá então ao enredo: como sabe quem costuma ver telenovelas, há dois tipos de más: a sedutora e a mártir. “O importante é fazer-se imprescindível. Isto é uma táctica de jogo agressiva: normalmente têm personalidades obsessivo-compulsivas, são perfeccionistas ou inseguras. Muitas vezes, a relação entre a controladora e a ‘vítima’ é apimentada com drama e alimenta o ego enquanto o outro estiver dependente, porque as controladoras só conseguem ter vítimas em processo de co-dependência.”

Consequência: Quando o outro parte, a pessoa não se consegue suster, e afunda como o Titanic.”

Invejosas

Verdade: Lembro-me de uma definição genial da Margarida Rebelo Pinto que era qualquer coisa como isto: “Em Portugal, quando se vê alguém a andar de porsche, as pessoas não querem também andar de porsche, querem que o outro ande de autocarro.”

Clara lembra a importância de uma palavra diabólica: a comparação, mãe de todas as frustrações e sentimentos de inferioridade. “A comparação fomenta a inveja. No nosso mundo só é valorizado quem fica em primeiro, quem é visto, nem que se tenha de passar por cima ou ao lado dos outros.”

Como dizia a Margarida, o invejoso tenta ignorar e desqualificar o outro. São os típicos caras-de-pau, sempre zangados e maldispostos com o mundo. Esta inveja é dirigida ao que o outro possui: podem ser bens, o carro, a casa, ou qualidades físicas ou psicológicas. “Mas tudo o que conquista é amaldiçoado à nascença, porque nada é suficiente”.

A inveja envenena quem a possui: “É um verdadeiro atentado às capacidades criativas, porque enquanto se está nisto, é-se incapaz de criar.” Mas há uma explicação, que pode ser mais prosaica: “Muitas vezes, o invejoso foi um de muitos irmãos que se sentiu rejeitado quando comparado com os outros. A pessoa acaba por criar uma revolta surda porque deseja ser como toda a gente só para ser aceite, e como nunca tem a validação dos pais ou dos irmãos mais velhos, acaba por internalizar conceitos dos outros: ‘tu nunca hás-de ser alguém, olha para o teu irmão!’ E isto alimenta um ódio surdo e uma revolta contra os outros.”

Consequência: Quanto mais desqualificar o outro na tentativa de aplacar essa frustração, mais se afunda no seu próprio descrédito.

Cinco mulheres

Goodshoot

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