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Sílvia Reis, especialista em coloração e a alma do canal Elle Bangs.

Adam Oestergaard

Saltar de vídeo em vídeo do YouTube, às vezes traz boas surpresas. E foi numa dessas sessões de puro ócio exploratório que conheci o canal Elle Bangs, cheio de informação que precisava urgentemente de pôr em prática: como fazer em casa (e bem) a coloração do cabelo, madeixas e nuances, consertar desastres de cor, e até looks de maquilhagem supernaturais. Mas o sotaque norte-americano da autora não deixava adivinhar logo que, afinal, se tratava de uma colorista e cabeleireira profissional nascida na ilha de São Jorge.
Sílvia Reis, 30 anos, a alma do Elle Bangs, já vive nos Estados Unidos há 26, mas é sempre como portuguesa que se apresenta. Em 2011, começou a gravar os primeiros vídeos e depois de ano e meio de interregno voltou à carga, com filmes mais profissionais cheios de dicas de beleza. A popularidade tem vindo a crescer: o canal de YouTube onde publica, semanalmente, vídeos em inglês tem mais de 200 mil subscritores – só em semana e meia ganhou mais de 4 mil. No Instagram já são 25.500 seguidores. “A maior parte das mulheres sabe fazer a sua maquilhagem, mas sinto que com o cabelo não há muita informação e há assuntos que as assustam um bocado, sobretudo relacionados com a cor”, diz-nos ao telefone, de São Francisco, onde vive e trabalha. “Quer tenham ou não dinheiro para vir ao meu espaço, quero ajudar as pessoas a ter um bom cabelo. Houve uma altura da minha vida em que não podia pagar a um bom profissional de cabeleireiro e em que quis saber como fazer tudo isto. Vejo algumas mulheres entrarem-me no salão depois de um dia mau ou de um divórcio, e saírem daqui com um cabelo bonito. E isso transforma-as: não é só o humor que melhora; elas próprias parecem novas mulheres. Sei que parece materialista e fútil, mas é a verdade.”


Há um tom de louro para cada mulher
O seu parceiro nestas aventuras da Internet é o marido, o dinamarquês Adam Oestergaard, que conheceu na Califórnia e com quem casou há três anos. “A princípio era só um hobby, em que ambos púnhamos em prática o que sabíamos fazer melhor. Mas acima de uns quantos subscritores do canal podemos ter um gestor que se encarrega de gerir receitas, contratos, propostas para vídeos patrocinados. O facto de ele trabalhar nesta área [multimédia], como diretor de arte e produtor, significa que pode fazer isto facilmente comigo. Trabalhar com o marido ou a mulher não é fácil, definitivamente, mas é muito bom e conecta-nos de uma forma que nunca julgaríamos possível, neste negócio que criamos juntos.”
Sílvia é trabalhadora independente e tem o seu espaço de trabalho num local que divide com 28 outros cabeleireiros em regime de co-work. São dias longos, de 10 ou 12 horas de trabalho, e muitas vezes sem pausas. A sua especialidade é a coloração para louro. “Acho que assim que dominamos essa técnica conseguimos fazer qualquer outra cor. E a razão para ser tão difícil é por depender muito de como se começa. Posso usar o mesmo descolorante em ti e noutra pessoa e os resultados finais vão ser completamente diferentes. Todas as clientes são um desafio, todos os dias são uma nova experiên-
cia e isso entusiasma-me muito. Por aqui, muitas raparigas querem ser louras e, normalmente, quando vêm ter comigo é a primeira vez que perguntam coisas, como qual é o melhor tom para elas.” Algumas confessam-lhe que se calhar nem ficam bem com aquela cor de cabelo, mas querem, ainda assim. “Discordo. Acho que qualquer pessoa pode ser loura, não interessa o tom de pele ser mais claro ou mais escuro.”

O sucesso incomoda muita gente
Mas não estará ela a dar de bandeja os segredos todos da profissão? Se ensina as pessoas a fazer em casa, o que ela faz profissionalmente, como é que ganha dinheiro? “Essa é a reação que tenho por parte de alguns colegas: ‘Estás a revelar os nossos segredos, não deves ter paixão nenhuma por esta indústria’. É exatamente o contrário – se há coisa pela qual sou realmente apaixonada é por cabelos! Alguns acham que sou completamente doida, outros acusam-me de ser a responsável por o negócio deles ir mal – e nessa altura digo-lhes ‘Bem… a minha agenda está ocupada nos próximos meses’. Honestamente, acho que se formos bons no que fazemos ninguém nos substitui e que não se devem sentir ameaçados por um vídeo meu. Tento simplificar os procedimentos mais complicados, para que possam ser seguidos em casa. Se as pessoas pouparem dinheiro com isso e vierem fazer cor comigo duas ou três vezes por ano, é muito bom. Até porque os vídeos nunca substituem completamente um bom profissional. Mas é importante partilhar informação, explicar os termos usados em cabeleireiro, porque, muitas vezes, quando chegam ao salão as pessoas não sabem explicar bem o que querem. E o que é engraçado é que isso acabou por me trazer mais clientes do que esperava.”
A maioria dos clientes – cerca de 60% – são pessoas que a conheceram pelos vídeos do YouTube. Por mês, 300 a 400 pessoas pedem-lhe para marcar hora e umas 200 chegam-lhe efetivamente à cadeira do salão. Vêm de outras cidades, estados e até de outros países. “Tenho duas clientes que vêm da Austrália duas vezes por ano, em média. Também vem gente do Canadá e do Brasil, talvez por saberem que sou portuguesa. Gosto muito desta ligação com a clientela que fala português em todo o mundo.” Nos Estados Unidos, tem clientes que viajam desde a Florida, Nova Iorque e Los Angeles. “Tenho muita sorte e fico mesmo feliz com isso. O facto de alguém na Austrália conhecer o meu trabalho, reservar um voo para São Francisco para fazer cor comigo, sentar-se na minha cadeira e perguntar como está o Adam… Sinto até que me conhecem a um nível mais pessoal – o que pode ser um bocadinho estranho, confesso. Nem sei se estava preparada para isto, a princípio.”

Uma portuguesa em São Francisco
Aos 5 anos, Sílvia disse aos pais que ia ser cabeleireira. “Eles disseram-me ‘OK, ainda és muito nova e com certeza vais mudar de ideias’. Mas eu respondi que isso não ia acontecer – poderia começar naquele momento, só precisava que eles me comprassem uma cadeira”, conta, divertida. Ainda teve que esperar uns anos, mas assim que pôde fez o curso profissional na Redken Academy. “Poupei dinheiro para isso porque era a minha escola de sonho, especializada em cor, e por lá pude aprender tudo de uma forma muito prática – nem todas as escolas são assim, especialmente para cabelo.”
Filha de uma açoriana de São Jorge e de um natural de Ourém, Sílvia estava prestes a fazer quatro anos quando o pai recebeu uma proposta de trabalho na Califórnia. “Nessa altura vivíamos em Ourém e metemo-nos nesta aventura. Foi difícil; tive que aprender outra língua e lembro-me de ter saudades dos meus avós, tios e primos. Mas claro que depois fizemos amigos cá. Do ponto de vista dos meus pais, a vida de um imigrante não é mesmo nada fácil. Sentimos que não pertencemos realmente a lado nenhum, durante algum tempo. Quando íamos a Portugal, diziam que éramos ‘a família da América’; aqui, somos ‘a família de portugueses’. Mas depois de uns anos começamos a sentir que aqui é realmente a nossa casa. Sou muito ligada às minhas raízes portuguesas; ia aí de férias com os meus pais, sempre que podíamos. Infelizmente, há quase 10 anos que não vou a Portugal, mas estou a planear uma visita no próximo verão.” Continua a falar português com os pais, mas confessa que gostaria de melhorar os conhecimentos da língua. “A minha mãe corrige-me, o que é ótimo. Mas se falasse com outra pessoa já me sentiria mais envergonhada.”
Como qualquer bom profissional, ela move-se por objetivos. “Quando começámos no YouTube, o meu marido perguntou-me que metas queria atingir com o canal e eu disse-lhe que queria causar algum impacto e ajudar as pessoas. Quando começámos a fazer isto mais a sério e a ter mais seguidores, ele voltou a fazer-me a pergunta e eu respondi que queria ser reconhecida pela melhor marca de coloração e que adoraria ser entrevistada por um meio de comunicação português. Este ano, a Redken convidou-me para a sua sede em Nova Iorque, onde pude participar em decisões sobre as novas cores para 2016. E ontem, quando ouvi a vossa chamada no gravador, fiquei em êxtase. Fiz 30 anos em janeiro de 2015 e posso dizer que grande parte das minhas metas foram conseguidas. Se calhar está na hora de estabelecer umas novas…”

Quer mudar a cor do cabelo?
Sílvia diz-lhe o que deve ter em conta.
• Se quer escurecer a cor do cabelo, não há muita dificuldade nem grande ciência. “Mas se quiser um tom mais claro conte que o cabelo ficará mais seco depois da descoloração. Por isso, o melhor é ter paciência até atingir o resultado pretendido. Algumas clientes estão à espera de que tudo aconteça apenas numa sessão e podem ser necessárias duas ou três. É preciso que o cabelo tenha tempo para recuperar desse processo e descansar, por isso deve aguardar entre quatro e seis semanas, entre sessões.”

• Há que ter em conta o tom de pele. “Se tem um tom de pele mais frio, vai ficar melhor um louro mais cinza. Quem tem um tom de pele mais dourado, como as mulheres latinas ou hispânicas – que muitas vezes pensam que não vão ficar bem louras –, vai ficar melhor com louros mais dourados. E vai precisar de mais contraste, por isso nada de tons uniformes. Talvez a raiz possa ser mais suave, um pouco mais escura, e adicionar algumas nuances de um dourado mais escuro – dá-lhe um contraste lindo e supernatural.”

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