
Falámos com a fundadora do Lisboa Dance Festival, Karla Campos, por ocasião da conferência de imprensa de apresentação da 2ª edição do Lisboa Dance Festival.
1. Qual é a importãncia da música eletrónica nos dias de hoje?
A música eletrónica sempre foi importante. Digo isto porque gosto de música eletrónica há mais de 30 anos. Assisto, nos últimos anos, a um crescimento muito grande na atenção que se está a dar aos artistas de música eletrónica, aos artistas de hip hop, e aos próprios músicos que estão a se cruzar nestes dois estilos. Foi por isso mesmo que senti a necessidade de apresentar um festival deste género em 2016. Este festival esteve em pensamento dois anos antes, pelo que posso dizer que, em 2014 e em 2015, estive em preparação e em pesquisa e, finalmente, lancei-o em 2016. Funcionou e pronto, é por isso que tenho que continuar.
2. Qual é a influência deste género musical no público português?
É bastante. Neste momento, diria que nós temos muitas editoras de música eletrónica e que, no ano passado, na primeira edição do festival, estiveram presentes quase perto de 20 editoras. Portanto, consegue-se ver a importância que a música eletrónica já tem em Portugal. Não é de agora, é algo que, nos últimos 10 anos, tem vindo a surgir e a crescer, se bem que nos estes cincos anos foram mais fortes neste aspecto. Temos uns Buraka Som Sistema que acabaram por nos dar muita dessa visibilidade nacional e internacional. Não só pela eletrónica, mas com outro estilo de música que veio da evolução da eletrónica, o afro eletrónico, que surge graças às origens dos membros do grupo, que assim criaram um estilo de música que não existia e que agora é nosso, é português. Acho que essa bandeira que eles ergueram contagia tudo e todos, e lá fora as coisas também estão acontecer desta maneira, porque hoje em dia é um mundo super global, a uma distância muito curta, de apenas um click da internet. Por isso as coisas estão a crescer a uma velocidade inacreditável e muitos dos artistas que vêm este ano ao Lisboa Dance Festival são a prova disso mesmo, de que acabaram de nascer e estão a ficar extramamente reconhecidos por revistas, por sites, por editoras, e a apresentarem-se em festivais muito importantes, que lançam tendências e nomes. Estou sempre atenta a estes movimentos e a estas coisas novas. Adoro Portugal, embora tenha nascido no Brasil. Aposto muito na música portuguesa, tenho mais outros festivais, mas ainda não tinha feito nada pela música eletrónica, que ainda por cima é o estilo de música que mais gosto e faltava um festival destes nesta altura do ano.
3. O que significa ver os nossos músicos a representar o nosso país lá fora e cá dentro?
Para mim é muito importante. Viajo muito para conhecer artistas e festivais para aprender, para ver também essas novas tendências e artistas que hoje em dia é possível conhecer através do youtube e de várias plataformas de streaming, mas nada se compara a assistir pessoalmente e ver qual é a sensação que aquele artista projeta numa audiência, observar aquilo que as pessoas estão a sentir! A música portuguesa tem esse lado também, e temos que aproveitar e colocá-la nos cartazes dos festivais que fazemos. A prova disso é o cartaz que tenho aqui, em que quase 80% são artistas portugueses, como no ano passado também foram. A música portuguesa está num momento muito bom, com produções extraordinárias, e nós temos que aproveitar isso e dar-lhe voz, conseguir por o público a conviver e tirá-lo dos computadores, de casa, dos telemóveis e fazê-lo divertir-se num festival. Um festival é um espaço onde as pessoas conseguem abstrair do stresse e estão a conviver, a conversar com pessoas na vida real, não é?
4. Basicamente é ‘agarrar’ uma forma de arte, fazer magia com ela e fazer ainda uma outra arte, não é?
Isso mesmo, exatamente! As pessoas estão a perder isso, sabes? Estão a perder esse lado da convivência… Há uma série de problemas que cada vez mais chegam perto de nós, e a internet aproxima tudo. E acho que o momento de um concerto ou de um festival e aquilo que a música nos proporciona é inacreditável! É uma droga extraordinária, não é? Porque nos une, nos põe bem dispostos, convivemos com os amigos, deixamos de parte questões menos boas e estamos ali aquele bocadinho num relax. É quase como uma meditação, porque nos abstraímos de tudo e conseguimos estar focados a ouvir aqueles artistas, estamos a gostar de estar com os nossos amigos e isso é muito importante para mim. Aliás, a minha empresa tem um lema que é “Create new emotions”, e acredito que, quando vamos para espaços onde há música, surgem novas emoções dentro de nós, porque estamos a ouvir o artista, a música dele, soa-me de uma maneira, soa-me de outra maneira, convivi com aquele amigo, conheci uma pessoa nova, estou no bar na fila e vejo uma pessoa e convivo com ela. Isto tudo são sensações novas, por isso o nosso lema é “Create New Emotions”.
5. Em relação à música eletrónica, consegue dizer-nos quais são as inspirações deste género musical, uma vez que está a crescer cada vez mais?
As inspirações neste momento vão muito à raíz da música eletrónica, que é o fim dos anos 80 e início dos anos 90. As bandas de música eletrónica estão a ir buscar muito os sons das bandas de New Wave e a colocá-las nas suas composições de música eletrónica. Esta coisa do ir lá atrás é normal, porque são as raízes da música eletrónica. Como sou dessa altura do New Wave, Kraftwerk, Duran Duran, consigo identificar esses sons nestas novas composições e na nova música eletrónica que se constrói hoje em dia. Isto é extramamente santo, muito David Bowie, muito do que na altura já era arrojado, tão arrojado que que a nova geração o reconhece e vai buscar outra vez e acrescenta assim coisas novas, e novos sons do Hip Hop – que é mais recente – e essa mistura toda acaba por resultar nestes novos sons da música eletrónica.