Nutricionista, Mestre em Saúde Pública,  Ana Leonor Perdigão desenvolve há 20 anos a sua atividade profissional na Nestlé Portugal, responsável, entre outros, pelo projeto Crianças Mais Saudáveis, que tem como objetivo ajudar os mais novos a comer melhor. Com uma parceria com o Ministério da Educação, é nas escolas – junto das crianças e apostando na formação dos professores – que o projeto toma forma, visando a adoção de estilos de vida saudáveis que perdurem vida fora. Foi sobre esse programa, que assinala mais de duas décadas de vida, que conversámos com a responsável, que se mostra otimista quanto ao futuro, apesar do excesso de peso e da obesidade infantil serem problemas na ordem do dia, que urge inverter.

– Qual a génese do programa “Crianças Mais Saudáveis?” e como evoluiu ao longo de duas décadas.

O programa Nestlé por Crianças mais Saudáveis surgiu em 1999/2000 como projeto piloto, no âmbito do então designado “Projeto-escola”. Numa altura em que a alimentação era ainda uma área pouco trabalhada nos curricula escolares a Nestlé identificou a oportunidade de promover o maior conhecimento sobre a sua importância para uma vida mais saudável e apoiar a criação de hábitos de vida promotores de saúde a curto, médio e longo prazo.

Esta ideia encontrou eco junto da então Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular, agora Direção-Geral da Educação, do Ministério da Educação com quem estabelecemos parceria que dura até aos dias de hoje. Através dos materiais lúdico-pedagógicos do programa e da ação junto dos professores impactámos ao longo destes 20 anos, mais de 3 milhões de crianças dos 4 aos 12 anos e suas famílias.

 A forma como a realidade nacional evolui, os novos comportamentos alimentares e as preocupações de saúde pública, mas também a avaliação do impacto do programa foi orientado as prioridades dos conteúdos a trabalhar, de forma a mantermo-nos relevantes para professores, pais e famílias e por isso quer o modelo quer os conteúdos que hoje o programa apresenta são naturalmente diferentes dos de há 20 anos atrás embora, mantendo como prioritários a saúde e o bem-estar das crianças, através do reforço de bons hábitos de vida.    

Também no seu modelo de implementação a componente digital tem vindo a ser reforçada, o que nos permite ma maior amplitude de contactos e uma maior interação também as famílias.

– Pode-se afirmar que as crianças portuguesas comem mal? Quais os maiores “erros” ou lacunas alimentares que podem ser apontados?

Infelizmente os dados disponíveis em termos de estado nutricional deste grupo etário ainda nos preocupam pela elevada incidência de excesso de peso e obesidade, que reflete um desajuste entre a ingestão alimentar e o gasto energético.

Segundo o Inquérito Alimentar Nacional (2017) as crianças e os adolescentes portugueses apresentam um consumo de frutas e hortícolas e água inferior às recomendações e superior de doces, bolos e bolachas. No entanto as crianças são por outro lado o grupo que maior consumo de sopa apresenta.

De uma forma geral, podemos considerar que existe ainda muito trabalho a fazer a este nível e não podemos retirar desta equação a componente da atividade física que é fundamental e também nos dizem os dados que as nossas crianças são bastante sedentárias.

– Como é passada a mensagem às crianças? De que tipo de materiais se socorrem e quais os principais intervenientes no processo? Os professores? Uma equipa técnica que se desloca às escolas?

 O modelo de implementação do programa Nestlé por Crianças mais Saudáveis assenta na presença de equipas técnicas às escolas que dinamizam sessões temáticas ao logo do ano, diretamente com as crianças dos 4 aos 10 anos mas que envolvem também formação aos professores e disponibilização de materiais, quer para dar continuidade ao trabalho dos professores ao longo do ano, quer para criar interação com as famílias. Os materiais são essencialmente jogos e desafios para cumprir, quer individualmente quer em família.

Um dos exemplos é a criação da “lancheira saudável” a partir de um material base disponibilizado pelo programa que as crianças deverão preencher em família, com desenhos, recortes ou de qualquer outra forma que a sua imaginação dite, no sentido de identificar os alimentos que deverão estar presentes num lanche saudável. Claramente os professores são fundamentais porque são o elo de ligação com as crianças e as famílias e são quem poderá dar continuidade ao programa ao longo do ano. Por isso, além da presença física da nossa equipa nas escolas temos estabelecida uma comunicação regular de acompanhamento (via email e telefónica) que os incentiva a continuar e os apoia nesse percurso. 

– Não faz sentido falar em alimentação mais saudável se a oferta escolar não evoluir. Tem ocorrido essa mudança? Quais os principais aspetos da oferta em que se reflete?

O Ministério da Educação tem feito um enorme esforço de criar orientações para que a oferta alimentar nas escolas, quer ao nível dos refeitórios quer ao nível dos bares, seja nutricionalmente equilibrada e ajude a criar bons hábitos alimentares. A presença obrigatória de hortícolas nos almoços, quer na sopa quer como acompanhamento no prato, e de fruta nos almoços escolares são dois exemplos deste esforço de formar bons hábitos alimentares desde cedo.

No entanto, este tem que ser um trabalho de conjunto entre a escola e os restantes ambientes onde as crianças são expostas a alimentos, nomeadamente em casa e, portanto, a família deve estar alinhada com as mesmas orientações e acima de tudo dar o exemplo nas refeições que fazem em conjunto ou nas que envia para a escola, como por exemplo os lanches.

– Qual é o maior obstáculo a uma boa alimentação das crianças? A falta de informação? A falta de tempo? Os próprios hábitos alimentares da família? Um certo facilitismo?

Da experiência que temos penso que a falta de informação já não pode ser apontada como a principal causa. Todas as campanhas de informação dinamizadas pelas autoridades e por iniciativas como este programa têm dado visibilidade aos temas da alimentação e da sua importância para uma boa saúde.

As dinâmicas que a vida atual impõe às famílias não facilita de facto: é preciso tempo e persistência para educar o paladar das crianças (há sabores que precisam de se tornar familiares para os apreciarmos), é preciso planeamento para as compras e para a preparação das refeições que se fazem em casa e, claro, é fundamental o exemplo que os “crescidos” dão à mesa.

– Qual o impacto prático deste programa nas crianças e como o avaliam?

O programa é avaliado do ponto de vista qualitativo junto dos professores, no sentido de recolher a sua opinião sobre a abordagem e os materiais utilizados para a interação com as crianças. É igualmente avaliado do ponto de vista do impacto efetivo nos conhecimentos e comportamentos das crianças, comparando estes aspetos pré e pós implementação e também por comparação entre escolas que implementaram e outras que não fizeram. Os resultados são muito positivos e mostram que as crianças que são impactadas pelo programa não só aumentam os seus conhecimentos sobre alimentação saudável como melhoram os seus comportamentos. Passam a consumir por exemplo mais água, sopa, fruta e hortícolas do que anteriormente e também apresentam consumo significativamente superior destes alimentos relativamente às crianças não impactadas.

– É possível afirmar que estas mudanças, quando ocorrem, têm repercussões no agregado familiar da criança?

A componente do impacto na família não é avaliada até porque não temos contacto direto com as famílias. No entanto, sabemos como as crianças são influenciadores muito eficazes dos hábitos da família e uma vez que muitas das atividades são desenvolvidas em casa, em conjunto com os pais, acreditamos que as famílias também ficam mais sensibilizadas para o tema e acabam por absorver indiretamente essa aprendizagem.

Ao fazermos o balanço dos 20 anos de existência do programa não deixa de ser relevante pensar os que os primeiros participantes do programa já poderão neste momento ser pais ( uma vez que o programa piloto se iniciou em escolas do 2 ciclo) e que neste momento os seus hábitos alimentares e os dos seus filhos ainda refletem o que aprenderam nessa altura.

– Com o aumentar do sedentarismo, há um agravar deste problema nos últimos anos, que a pandemia veio agravar. Qual tem sido a resposta do programa a esta situação?

Efetivamente a pandemia, com todas as alterações no dia a dia das pessoas, acabou por ter impacto nos comportamentos alimentares por um lado, mas também no maior nível de sedentarismo. O programa teve não só que ajustar o seu modelo de implementação, uma vez que deixou de ser possível implementar as sessões presenciais com as crianças, nas escolas. Uma das alterações foi o maior recurso a meios digitais para manter o contacto com os professores e, através destes, com as crianças, mas também encontrar formas de interagir com as próprias famílias através por exemplo de presença em plataformas ou meios dirigidos aos pais. Também por esta razão, reforçámos a promoção da promoção da atividade física, mesmo que em casa, através da sugestão de jogos e atividades que promovessem momentos de “sair do sofá”.

– De forma breve, o que diria aos pais sobre os piores erros cometidos na alimentação dos filhos e como os corrigir.

Sabemos que todos os pais querem o bem-estar dos seus filhos acima de tudo e que cada vez mais se preocupam com a sua alimentação. Sabemos também que nem sempre é fácil gerir tantas tarefas e um dia a dia tão preenchido e ainda ter disponibilidade para o processo de “aprendizagem” que a alimentação requer. As refeições devem ser momentos de partilha e bem-estar em família mas muito facilmente se transformam em momentos de discussão ou de birras em que a alimentação acaba por se transforma muitas vezes em “moeda de troca”, castigo ou recompensa o que não é de todo o que se pretende.

De acordo com os dados que temos sobre a alimentação das crianças em Portugal os principais aspetos a melhorar são o reforço do consumo de produtos hortícolas, quer na sopa, quer como acompanhamento no prato e de fruta.  Também o consumo de peixe e de água são muitas vezes insuficientes. Por último, a ingestão demasiado frequente de produtos com elevados teores de açúcar, que deverão ser de consumo esporádico e não regular é outro dos aspetos que também deve ser melhorado.

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