Crianças temem as alterações climáticas
Crianças temem as alterações climáticas
Foto: Pexels/ Ron Lach


Desenvolvido no âmbito do programa educativo ‘O MARE vai à Escola’, um estudo recente do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente revelou que existem diferenças significativas entre o que as crianças sabem sobre as alterações climáticas e o que realmente querem saber. O mesmo estudo mostrou que os mais novos têm consciência da gravidade destas alterações e lança o alerta de que essa mesma consciência pode interferir na sua saúde mental.

De acordo com os investigadores envolvidos no estudo, a ansiedade relativamente a temas como as alterações climáticas surge como consequência, não só da informação recebida por estas crianças na escola, como também do contacto com os media e das conversas com familiares e amigos.

“As crianças são o futuro, mas também o presente. É necessário apoiá-las, disponibilizar informação adaptada às suas capacidades cognitivas e fornecer conhecimento, tendo sempre a preocupação de não exacerbar as suas dúvidas e ansiedades. A isso chamamos esperança construtiva, um conceito que está relacionado com o envolvimento ambiental positivo e que parece desempenhar um importante papel motivacional entre os mais novos”, começa por explicar Zara Teixeira, autora principal do estudo, e investigadora do MARE do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra.

Foto: ARR_Ben Von Wong – PlasticBeach



Segundo a informação recolhida pelos investigadores do MARE, as crianças acreditam ter consciência da gravidade de problemas como as alterações climáticas e demonstram interesse no seu impacto, o que levanta questões sobre o rumo das iniciativas de educação e comunicação nesta área – se não forem ensinadas de forma correta, as alterações climáticas podem revelar-se uma ameaça psicológica pela ansiedade que causam e pelo declínio do bem-estar mental nos jovens.

“Vemos a educação climática, e a promoção de esperança construtiva, como fundamentais, não só na promoção do envolvimento pró-ambiental, mas também na neutralização das emoções negativas”, continua Zara Teixeira, para quem a educação climática “deve incluir uma forte dimensão de esperança e recorrer à implementação de estratégias que permitam aos alunos mudar de perspetiva e confiar em atores sociais, aumentando a consciência, o sentimento de partilha de responsabilidade e a crença de que estas alterações podem ser mitigadas através da transformação de comportamentos”.

O que “sabem” vs. o que querem saber

O estudo concluiu, ainda, que em iniciativas futuras se devem espelhar as experiências e a realidade das crianças, mas também alargar os campos do conhecimento. Isto porque, apesar de declararem conhecer o conceito de alterações climáticas, as crianças não se mostraram capazes de especificar tópicos que gostassem de aprender sobre esta temática. Se, por um lado, as crianças foram bastante específicas nos temas sobre os quais acreditam ter algum conhecimento (a maioria relacionados com as consequências, as causas e o conceito de alterações climáticas), por outro lado, declararam que gostariam de saber mais sobre como, o quê, quando e porquê ocorrem estas mudanças.

Convidados a detalhar os tópicos sobre os quais gostariam de adquirir conhecimento, as crianças apontaram temas que já haviam revelado conhecer (poluição, relação com os seres vivos, alterações no gelo marinho), o que pode ser um indicativo de que o seu conhecimento sobre as alterações climáticas não é suficiente para solicitar aprendizagem sobre questões específicas para além daquelas sobre as quais já parecem ter alguma informação

O estudo concluiu, assim, que embora os conhecimentos e interesses prévios devam ser tidos em conta na conceção de iniciativas de comunicação científica em contextos educativos (como forma de motivar para o tema), as soluções a levar para as salas de aula devem basear-se em iniciativas que alarguem campos de conhecimento e introduzam abordagens inovadoras que permitam compreender a complexidade do tema.

O que sabem, afinal, as crianças sobre alterações climáticas?

Os alunos estudados mostraram-se conscientes do fenómeno das alterações climáticas e reconheceram as suas causas antropogénicas, bem como as suas consequências, quer para o homem, quer para o ambiente. No entanto, tiveram dificuldade em identificar estratégias para as combater, mas mostraram particular interesse em aprender mais sobre elas.
Da mesma forma, os alunos demonstraram um grande interesse em compreender quão grave podem vir a ser as alterações climáticas e em aprender sobre como, onde, quando e porque ocorrem (contexto).
Temas como as alterações do gelo marinho, a poluição e os efeitos nos seres vivos estão entre os mais populares, os mesmos sobre os quais as crianças gostariam de adquirir conhecimento.

O que é ‘O MARE vai à Escola’?

O MARE-Centro de Ciências do Mar e do Ambiente tem, desde 2015, um programa educativo direcionado aos ciclos da escolaridade obrigatória. Composto por atividades internas, incluídas nas aulas, e externas, desenvolvidas fora da escola através de atividades educativas informais, ‘O MARE vai à Escola’ foi um dos primeiros programas do género em Portugal. Totalmente desenvolvido e liderado por investigadores, entre 2015 e 2019 chegou a mais de 40 mil alunos de 358 escolas, abrangendo temas como a sobrepesca, o lixo marinho, a biotecnologia, a biodiversidade marinha e as alterações climáticas. Foi essa a comunidade analisada no presente estudo.

Sobre o MARE

O MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente – é um centro de investigação científica, desenvolvimento tecnológico e inovação com competências para o estudo de todos os ecossistemas aquáticos, na vertente continental e no mar. Promove o uso sustentável de recursos e a literacia do oceano disseminando o conhecimento científico e apoiando políticas de desenvolvimento sustentável. Criado em 2015, integra 7 Unidades Regionais de Investigação associadas às seguintes instituições: Universidade de Coimbra (MARE-UCoimbra), Politécnico de Leiria (MARE-Politécnico de Leiria), Universidade de Lisboa (MARE-ULisboa), Universidade Nova de Lisboa (MARE-NOVA), ISPA – Instituto Universitário (MARE-ISPA), Universidade de Évora (MARE-UÉvora) e ARDITI (MARE-Madeira).

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a ACTIVA nem espelham o seu posicionamento editorial.

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