
Este é um livro que passou largamente despercebido na altura em que foi publicado, quase exatamente há um ano. Mea culpa, que também adiei a sua leitura. Mas se calhar os livros também têm um tempo certo para serem lidos. E este é o tempo certo para ler este livro.
Esta é também uma boa altura para ficar a conhecer Paulo M. Morais, de que muitos já terão lido por exemplo ‘Uma Parte Errada de Mim’ (Casa das Letras), onde conta a sua experiência como sobrevivente de um linfoma. Quem já o leu sabe como é excelente em abordar aquilo que são considerados muitas vezes temas-tabu.
Finalista do Prémio Leya, ‘A boneca despida’ é a história de Julieta, que viveu cem anos. Mas mais do que a história dos cem anos de Julieta, esta é a história de cem anos de Portugal. Percebe-se que o autor quis fazer uma espécie de retrato do que foi a história das mulheres entre 1915 e 2016. O livro é muito bem documentado (os capítulos começam todos com excertos de algum documento da época) e todas as mulheres – e homens – nele vão encontrar alguma história ou situação que tenha acontecido na sua própria família. E vale acima de tudo por este lado feminista e sociológico em que podemos de facto dizer qualquer coisa como #jesuisjulieta. Ou je ou alguém da nossa família, de certeza que ou fomos ou conhecemos muitas Julietas.
Esta Julieta nasceu na ilha do Faial numa família conservadora, sem mãe e longe do pai, com uma avó que ninguém desejaria ao seu pior inimigo. Passou por Macau, voltou a Lisboa. Não pôde estudar. Passou da sujeição à avó para a sujeição ao marido, um primo com quem casou sem paixão e que havia de se lhe revelar homossexual num mundo onde isso era crime. Teve filhos com nomes de flores numa vida sem outras alegrias, acabou sozinha e roubada num lar. A boneca do título é uma boneca real mas funcina também como uma espécie de metáfora da condição feminina a quem durante tanto tempo roubaram quase tudo.
E o livro constrói-se como uma espécie de sociologia da vida privada no tempo da ditadura. Agora que festejamos os 50 anos do 25 de Abril mas onde, ironicamente, voltámos a discutir a condição e a situação da mulher, este é um livro que devia ser obrigatoriamente lido por toda a gente, para percebermos – quem ainda não o tenha feito – se é mesmo para uma coisa parecida com isto que queremos voltar. Julieta tem isso para nos ensinar. Queiramos nós aprender com ela, e com todas as Julietas deste mundo.
‘A boneca despida‘ – Paulo M. Morais, Ed. Casa das Letras, E18,90