Este é um dos livros mais famosos da ‘nobelizada’ Doris Lessing. E é, como se costuma dizer, um livro que pode ser lido a vários níveis, começando logo, por quem não quiser ter muito trabalho, pelo mais básico. Ok, então a história: um casal com uma vida idílica, vários filhos, uma casa de sonho e a vida com que todos os casais sonharam, engravida pela quinta vez. Mas este já não será a criança perfeita, saudável e ‘normal’ que foram as outras.

Ben é agressivo, esfomeado, brutal e, como se diz animalesco. Há muito pouco de humano nesta criança, e dia a dia o quinto filho começa a destruir a vida idílica dos pais.

Hoje fala-se muito sobre temas tabu, quer seja violência doméstica, cancro, infelicidade, solidão, saúde mental, expectativas. Fala-se muito, quer dizer, apesar de tudo fala-se mais do que se falava na altura em que este livro foi publicado pela primeira vez, em 1988.

A presença deste filho tão brutal pode ser lida de várias maneiras: como é que reagimos quando alguma coisa vem destruir os nossos sonhos e a vida tal como a conheciamos? O que fazemos quando nasce um filho ‘diferente’, que não nos devolve o amor que temos por ele e não corresponde aos sonhos que tinhamos – ou quando acontece uma doença, uma tragédia, uma morte, um luto, alguma coisa para a qual a vida não nos preparou? Que fazemos quando tudo aquilo que nos sustentava cai por terra?
Este não é, como alguns o descreveram, um livro de terror, pelo menos no sentido clássico do termo. Mas é um dos livros mais duros de toda a história da literatura, principalmente porque Doris Lessing aborda um dos temas mais ‘sagrados’: o amor maternal, até que ponto as mulheres se devem sacrificar por ele, e até que ponto os filhos lhes retribuem. Se quisermos ler o livro à luz do tema da saúde mental, que é hoje tão discutida mas que permanece um dos últimos tabus, é interessante verificar até que ponto o livro continua a desconcertar-nos. É imposísvel não pensar “e nós, que faríamos nesta situação? Que faríamos com um filho incapaz de amar, incapaz de nos reconhecer como mãe’? É uma pergunta insuportável para qualquer pessoa, seja ou não seja mãe, tenha ou não tenha filhos, tenha ou não tenha alguma vez passado por uma situação em que teve de responder a perguntas igualmente dolorosas.

Qualquer que seja a metáfora que melhor acompanha este livro para cada leitor, a inquietação está lá. Como lidamos com a destruição da nossa vida? Como a reconstruímos, e como, e o que teremos de dar em troca, e o que restará de nós no fim de tudo?

Muito interessante, mesmo que a custo de algumas noites sem dormir. Talvez seja por isso que tantos lhe chamaram um livro de terror.

O quinto filho‘ – Doris Lessing, Ed. Bertrand, E14,94

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