Às vezes, faz-nos falta voltar aos clássicos. A velocidade também apanhou o mercado dos livros, e as novidades que ficam um mês em banca e depois desaparecem não devem fazer-nos esquecer, justamente, as palavras dos mortos.

Isto dito assim parece uma inscrição de pirâmide egípcia, mas em Portugal (não sei se noutros países também acontece isto, se calhar sim) assim que uma pessoa desaparece, nunca mais se lê o que escreveu, a não ser que seja recuperado pelo cânone escolar, tipo Saramago. E às vezes também, quanto mais lida foi uma pessoa, mais depressa é esquecida.

Portanto, hoje apeteceu-me ler ‘um clássico’ (para não repetir aqui muitas vezes a palavra morto) que, curiosamente, nunca tinha lido. Publicado em 1964, pouco antes de Sartre receber o Nobel, e bem republicado há pouco tempo pela Livros do Brasil, é uma boa leitura quer para quem já leu Sartre quer para quem nunca leu, porque é uma carta fora do baralho daquilo que costumava fazer.

Para começar, é uma autobiografia, principalmente uma memória da infância.

Adoro memórias de infância. Geralmente, são sempre interessantes, primeiro porque nos ideintificamos muito mais com as crianças que os grandes homens e mulheres foram antes de serem grandes homens e mulheres, e depois porque nos permite perceber melhor aquilo em que se tornaram. E também porque, quando falamos da nossa infância, nunca falamos só da nossa infância falamos de família, de acontecimentos que nos marcaram, de memórias fortes que nunca se esqueceram.

Os escritores que falaram da sua infância geralmente fizeram-no muito bem. Por acaso agora só me lembro da Selma Lagerloff e do Gorki (ambos livros bastante negros) mas há muitos mais.

A de Sartre agarra-nos desde o princípio como um romance. Nascido de duas famílias dramaticamente complicadas – “Se fosse vivo, o meu pai ter-se-ia deitado em cima de mim com todo o seu peso para me esmagar. Por sorte morreu cedo” – filho de um pai morto e de uma mãe muito nova que ninguém respeita, encontrou refúgio no formidável avô prussiano e no seu escritório cheio de livros. “Comecei a minha vida como provavelmente a irei terminar no meio dos livros.”

Os livros acolheram um rapazinho sossegado e inteligente. E notou logo uma diferença entre o ‘santuário’ de ‘monumentos maciços e antigos’ do avô e as revistas da avó “Eu não gostava dessas brochuras demasiado distintas. Eram intrusas e o meu avô não escondia que eram objeto de um culto menor, esclusivamente feminino.”

Do fascínio pelos livros passa ao fascínio pela escrita, que o tornou desde cedo uma atração familiar: afirma que a mãe convidava as visitas para entrarem na sala e surpreenderem o jovem escritor à sua escrivaninha. Descobriu rapidamente o poder do criador: “Era inofensivo, tornei-me maldoso. Que me impedia de furar os olhos à Daisy? Morto de medo, respondia a mim próprio nada. Escrevia com o coração a bater: ‘Daisy passou a mão pelos olhos ficara cega.”

A partir de então, não há volta a dar. Podia ficar aqui o dia todo a espetar-vos citações, mas este é um livro que vale a pena ser descoberto por todos os escritores, aspirantes a escritores, leitores, ou quem goste de uma ‘auto-história’ original.

As palavras‘ – Jean-Paul Sartre, Livros do Brasil, E16,95

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