
Este é definitivamente um dos livros do ano. O tema não nos é estranho: o impacto das novas tecnologias na geração dos nossos filhos. Mas a forma como isto é feito mostra-nos o que está de facto a acontecer. Quem tem coragem de fazer a viagem até ao fim?
Que a ansiedade nos aflige a (quase) todos, toda a gente sabe. É uma espécie de doença da moda. Dantes eramos stressados, agora somos ansiosos. Mas isto dizemos nós da boca pra fora, no café, com os amigos, ao médico. O que este livro nos traz é uma reflexão muito completa, muito inteligente (e muito assustadora, devo dizer) daquilo que andamos a fazer à próxima geração.
A transformação de uma infância saudável (digamos assim, já se sabe que se está sempre a generalizar) numa infância em que todos os pescoços estão curvados sobre o telemóvel trouxe mais do que uma geração um bocado alheada: trouxe problemas mentais graves, uma forma desumana e radicalmente nova de viver e muito sofrimento que poderia ter sido evitado.
Claro que nós adultos tinhamos a televisão. Mas as novas tecnologias são muito mais portáteis, personalizadas e motivadoras, com um potencial aditivo muitíssimo mais abrangente. As empresas tecnológicas, quando começaram a ter dados sobre o que os seus produtos estavam a fazer aos mais novos – adivinhem lá – ocultaram-nos e fizeram ainda mais campanhas de publicidade. Como explica o psicólogo social Jonathan Haidt,“Viciavam as crianças durante etapas de desenvolvimento especialmente vulneráveis enquanto os seus cérebros se reconfiguravam com rapidez para responderem aos estímulos externos.” Ele compara mesmo a indústria tecnológica à indústria tabaqueira.
Haidt chama a tudo isto ‘a onda gigante’. E o princípio do livro é absolutamente brutal. Basicamente, Haidt começa por perguntar: se lhe propusessem levar a sua criança numa nave espacial até Marte sem lhe assegurarem que daqui a uns anos ela estaria em condições de se adaptar de volta à vida na Terra, ou mesmo se quereria fazê-lo, deixava-a ir?
Este livro conta a história da geração Z, que entrou na puberdade por volta de 2010, precisamente na altura em que as redes sociais explodiram. Os adolescentes desataram a partilhar fotografias e vídeos com estranhos, e, como resume Haidt magistralmente, tornaram-se a primeira geração da História a atravessar a puberdade com um portal nos bolsos que os afastava das pessoas à sua volta e os atraía para um universo alternativo que era excitante, aditivo, instável e inadequado para crianças e adolescentes.
Resultado: a geração Z tornou-se cobaia de uma forma radicalmente nova de crescimento. Ou seja, como Haidt afirma: “É como se fossem a primeira geração a crescer em Marte.” E os pais foram arrastados nesta onda tecnológica sem saber se e quando e como preparar os filhos para tudo isto. Afinal, também para o pais tudo isti era novo.
E ainda vamos só no princípio do livro. O resto, à medida que Haidt explica estudos, enumera consequências, nota porque é que tudo isto é mais grave para as raparigas mas também está a destruir os rapazes, é ainda mais instrutivo e ainda mais assustador.
Portanto, se tiverem coragem, atirem-se a ele. É uma viagem instrutiva: vão aprender muita coisa e perceber que muitas das vossas intuições estavam certa. E não é um livro apenas para pais: muito do que aqui se escreve se tornou verdadeiro também na vida dos adultos, muito do que aqui se aprende pode ser-nos muito útil. Vocês querem ser a primeira geração de Marte? Eu não, obrigadinha.
A geração ansiosa – Jonathan Haidt, D. Quixote, E24,90