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Reuters

A top model angolana Maria Borges desfilou no Victoria’s Secret Fashion Show (VSFS) 2015 com asas tão coloridas que até faziam lembrar fogo-de-artifício. Nada mais apropriado para celebrar algo inédito: em 20 edições, a primeira mulher negra com um afro natural pisava a passerelle. O marco histórico chegou aos quatro cantos do mundo e a ‘Vogue’ norte-americana incluiu-o na sua seleção dos momentos de beleza mais importantes do ano. Mas, afinal, qual a importância de um gesto (aparentemente) tão simples como assumir a textura do próprio cabelo? No total, foram 44 as manequins que pisaram a passerelle do Lexington Avenue Armory, em Nova Iorque. Das nove mulheres negras presentes, Maria foi a única a escolher desfilar com afro em vez de usar extensões ou recorrer a desfrisantes (tratamentos químicos que alteram permanentemente a textura natural do cabelo). Depois de 20 anos a promover uma imagem relativamente homogénea daquilo que é uma mulher atraente, a famosa marca de lingerie abriu espaço para outros tipos de beleza.

“Sabia que era o ano certo”

A ideia surgiu após uma bem-sucedida Semana da Moda de Paris com o look arrojado, a pedido do ‘padrinho’ Ricardo Tisci. “Cortei o meu cabelo em fevereiro para o desfile da Givenchy”, explicou a modelo internacional, que nessa mesma altura decidiu tornar a terceira participação consecutiva no VSFS “significativa e impactante”.
No entanto, a jovem, de 23 anos, admite que temeu a reação dos representantes da marca. “Estava um pouco nervosa e com receio de que os clientes não me aceitassem da mesma maneira.” Ao contrário das expetativas, Maria Borges foi bastante aplaudida. “Fiquei surpreendida por esta mudança ter sido tão bem recebida.”
A modelo agenciada pela We Are Models sabia que era o ano certo para dar esse passo, por existir uma cada vez maior aceitação da beleza africana. “Mas não fiz tudo sozinha. Consegui-o graças à equipa da Victoria’s Secret, que fez com que o meu sonho se realizasse. Foi um momento único, mágico e inesquecível. Sem a aprovação deles nada disto teria acontecido.”

De ‘sou negra e tenho orgulho’ a ‘sou eu própria e tenho orgulho’

Maria Borges tornou-se assim a mais recente protagonista de um movimento do cabelo natural, que em 2000 começou nos Estados Unidos e se estendeu a outros países, como Brasil e Portugal. Neste caso, o termo ‘cabelo natural’ caracteriza aquele que não foi quimicamente alterado, ou seja, refere-se à textura e não à cor.
Cada vez mais, as mulheres negras estão a deixar de lado procedimentos para alisarem o cabelo e a assumirem os seus caracóis, ondulações e carapinhas. E não é a primeira vez que isto acontece. Nos anos 60, o movimento dos Direitos Civis, nos Estados Unidos, abriu caminho para outro: o Black Power. Começou a surgir uma identidade negra no país e os produtos e ferramentas de alisamento começaram a ser encarados como “opressivos, porque simbolizavam a vergonha associada ao cabelo negro no seu estado natural”, escreveu Ingrid Banks no livro “Hair Matters: Beauty, Power, and Black Women’s Consciousness”. A década de 70 marcou o pico do afro, que era uma expressão de orgulho, poder, revolução e diferenciação, assim como uma ‘ligação visual’ aos antepassados africanos e aos negros da diáspora.
Desta vez é diferente. Este novo movimento, embora possa ser encarado como um tributo ao antecessor, não tem a ver com questões raciais, sociais ou políticas. As opiniões sobre o seu significado são diversas, mas todas passam por um ponto comum: aceitação.

‘Manas’ em rede

“É o bater do tambor da história, o grito negro na passerelle. É como se Maria Borges tivesse entrado nua, sem máscaras, 100% negra, com cabelo natural e uma beleza só dela”, disse o cabeleireiro Thon Eduardo sobre a sua participação no Victoria’s Secret Fashion Show. “Acho que a marca quer desconstruir a ideia que temos de beleza e, de um modo concreto, da beleza africana e da aceitação do cabelo natural. Ao vermos a Maria Borges de afro é como se tivéssemos a aceitação do mundo perante o nosso tipo de beleza”, acrescenta Mónica Santos, cofundadora do grupo ‘Crespas e Cacheadas de Portugal’, que administra em conjunto com Thon e Sónia Gomes.
Na linha da frente deste movimento, impulsionado pela internet, estão várias bloggers, youtubers, fóruns e grupos como esta comunidade, criada há dois anos no Facebook em torno da valorização do cabelo naturalmente crespo. Os motivos para a grande adesão são tão variados quanto as histórias dos mais de 10 mil membros, mas, no fundo, representa um espaço de apoio, partilha e troca de experiências, conhecimento e informação entre as ‘manas’ (e alguns ‘manos’) – como se tratam – que a integram.
Para os administradores, esta nova vaga de ‘naturalistas’ surgiu na altura certa porque se encaixa na fase de promoção do amor-próprio levada a cabo por muitas empresas e pela indústria da moda. “A tendência agora é aceitar a mulher como ela é. Vemos muitos anúncios com mulheres gordinhas, com estrias, etc. A ideia de beleza está a mudar e já não corresponde a apenas um padrão”, lembra Mónica Santos.
Não só o movimento do cabelo natural está a redefinir os padrões de beleza como também a construir uma comunidade, criando laços através da partilha. Nas palavras da própria Maria Borges: “Tem feito com que muitas mulheres, principalmente de raça negra, se possam olhar ao espelho e sentir-se sensuais e poderosas sem terem que usar extensões. Sermos nós mesmos é sempre a opção mais acertada.”

Um movimento (também) comercial

O abandono dos desfrisantes chamou a atenção das empresas nos Estados Unidos, que têm vindo
a abraçar a causa. As negras daquele país têm agora disponíveis mais produtos e marcas do que nunca destinados a cuidar da sua textura natural e não a ‘solucioná-la’. Os encarregados do grupo ‘Crespas e Cacheadas de Portugal’ gostariam de ver o mesmo acontecer por cá, assim como uma maior abertura por parte da sociedade, que “pensa branco” em relação a cabelos étnicos, especialmente em ambientes profissionais.

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