Fotos: João Lima

Depois de 14 anos dedicados a uma livraria, Luísa Almeida decidiu, em 2007, voltar-se para a agricultura na Quinta do Arneiro, na família desde 1967 e a sua casa e dos seus quatro filhos desde 1987. Sem formação ou experiência na área, transformou gradualmente uma produção intensiva de Pera Rocha – uma referência para a época – numa Quinta em modo de produção biológica. Hoje, a Quinta do Arneiro é muito mais do que uma quinta: é uma marca que, tal como a empreendedora, se conseguiu impor e prosperar.

Teve uma livraria durante 14 anos e acabou na horticultura… Foi um percurso intencional ou acidental?

O meu percurso foi sempre acidental, desde a escolha do curso [Direito], passando pelos anos de livreira até chegar a agricultora.

É uma mulher empreendedora por natureza?

Mais do que empreendedora sou criativa. A minha cabeça não para de inventar, tenho ideias novas praticamente ao minuto. Não fui sempre assim, com a idade fui refinando este meu lado criativo. Sempre tive uma grande sensibilidade estética. Acho que foi por aí que começou este meu lado de empreendedora, pela necessidade de transformar o que via.

O que é a Quinta do Arneiro?

A Quinta do Arneiro é um espaço físico lindo, mas mais do que isso é uma marca que nasceu sem grandes expectativas, devagar, a tentar pisar terreno, com um grande respeito pela Natureza, nossa principal parceira, com um grande respeito pelos clientes e com muita vontade de fazer bem feito. E que tem vindo a crescer de forma realmente sustentável. A Quinta do Arneiro é um espaço de produção em modo biológico, são os cabazes que entregamos porta a porta, são os mercados que fazemos ao sábado, é um restaurante e uma mercearia na Quinta. É um portão aberto sete dias por semana para vos receber.

A produção biológica de início nada teve a ver com preocupações ambientais…

É verdade. Ou melhor, a sustentabilidade nessa altura não era assunto dentro do meu círculo de amigos ou profissional. A escolha pelo método de produção biológico teve na altura por base uma perspetiva económica. Consoante os anos foram passando a sustentabilidade foi tomando protagonismo, tanto na evolução da Quinta como na minha consciência. Trabalhar com a natureza dá-nos a verdadeira noção da necessidade de pensarmos, a cada dia que passa, de uma forma mais sustentável. Hoje, não conseguiria fazer de outra maneira.

Sofreu as dores de ser pioneira na agricultura biológica em Portugal?

Sim, acho que sim. Até porque fomos pioneiros não só no modo de produção como no modo de comercialização. Apesar de não termos sido dos que desbravaram caminho, quando chegámos ao mercado o número de consumidores era realmente baixo e estava delimitado a um grupo de pessoas todas com o mesmo propósito. Lembro-me do tom de gozo, dos comentários jocosos, tanto de amigos como de conhecidos, quando, entusiasmada, descrevia o que estávamos a começar. Já quanto ao modo de comercialização foi duro, tivemos que desenvolver um site de vendas que não é apenas um site de vendas, um sistema de recepção de encomendas e de faturação, tivemos que descobrir o melhor modo de gerir rotas. Tudo isto sem qualquer base por onde nos guiarmos, em modo de tentativa e erro.

Aprendeu sobre o negócio com a experiência?

Tive uma formação em Agricultura Biológica que valeu o que valeu. Mas aprendi principalmente perguntando a produtores já com grande experiência. Acredito que fiz perguntas que ‘não lembram ao diabo’. (risos) Claro que a experimentação também foi um método muito utilizado, e ainda é.

Sem experiência ou formação na área, foi difícil impor-se?

Nos primeiros tempos, sim. No meio da agricultura biológica ninguém dava nada por mim. Achavam que estava a criar um projeto para me entreter e que ia durar um ou dois anos. Por muito que tentasse explicar que não era o caso, que era deste projeto que ia tirar o rendimento para vivermos, eu e os meus quatros filhos, foi difícil fazê-los acreditar. Foi preciso verem para acreditar. Dá-me algum gozo pensar que com certeza ficaram admirados. 

O sonho máximo para a marca Quinta do Arneiro?

Gostava que continuasse a crescer de um modo sustentável. Mais do que crescer em quantidade fosse crescendo em qualidade. Que pudesse ser um exemplo de marca sustentável, ética e verdadeira.

A Quinta do Arneiro está presente aos sábados nos mercados do Príncipe Real e de Cascais, das 9 às 14h. Já a Mercearia da Quinta está aberta de quarta a domingo, das 10h às 18h, e o Restaurante, sextas, sábados, domingos e feriados entre as 12h30 e as 18h.

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