
É pioneira num mundo masculino: chegou ao todo-o-terreno pelo marido mas tornou-se vencedora por mérito próprio. Campeã feminina no campeonato português e também no espanhol– entre outros títulos – é ainda administradora de 8 empresas.
“O amor pelos carros começou com o amor pelo meu marido, o José Gameiro. Ele fazia todo-o-terreno e eu ficava ansiosa por me juntar à equipa. Fiz uma primeira experiência em 2009, que correu muito bem. Depois fui ao campeonato em 2010, onde era a única senhora. Entretanto chegou a crise e estivemos parados durante muito tempo. Mas em 2022 as empresas voltaram a patrocinar-nos e o meu marido fez-me uma surpresa: em 2021, ofereceu-me um carro. Eu costumava correr num carro quase normal mas um carro de corridas requer outra preparação. Numa corrida de outro tipo, o piloto e o copiloto estudam o percurso com antecedência. No todo-o-terreno é tudo uma surpresa. Tanto se anda sobre areia como se atravessa um rio ou um caminho de pedras, temos de calcular os pontos de travagem, as ultrapassagens, o público. Felizmente que em Portugal as organizações são exímias no controlo do público, mas se não se seguir estas indicações podem acontecer acidentes.
Já me aconteceu uma situação caricata. Estávamos em Espanha e tinha um copiloto espanhol. Ele gritava ‘Maria, vá por la valla!’. Eu assumi que devia ir para a vala, e levei o carro à velocidade máxima para uma vala, que estava muito perto de um espetador. Felizmente não aconteceu nada. Acabei por perceber que uma ‘valla’ é uma cerca. Nunca mais tive um copiloto que falasse uma língua diferente da minha.
Fui a única mulher a disputar o campeonato nacional de todo-o-terreno. É um feito? Não, é uma pena. Ainda há poucas mulheres no automobilismo. Começou por ser uma questão cultural, a maioria acha que o mundo dos carros é exclusivamente masculino. Depois, ainda é normal que se assuma que um homem conduz melhor que uma mulher. Nós, mulheres, conseguimos chegar lá, mas temos de provar a nossa competência em dobro ou triplo. A verdade é que se não fosse o meu marido a apostar em mim, teria sido bastante mais difícil entrar neste mundo, embora nos últimos anos já comece a ser moda ver mulheres no automobilismo.
O que é preciso para se ser uma boa condutora? Ser-se aventureira, corajosa, resiliente, com boa preparação física e psicológica, e com tempo… Eu sou administradora de 8 empresas, entre máquinas para obras públicas, o Centro Hiperbárico de Cascais, investimentos na área da restauração e um ateliê de arquitetura. No último campeonato tive de ter uma equipa que me apoia na administração para poder correr.
Para mim, a maior conquista da História feminina é o acesso à educação. Isto a nós parece-nos uma coisa básica, mas temos de nos lembrar de que há países onde isso não existe e onde muitas mulheres ainda não são donas do seu destino. O meu slogan é ‘Saber é poder’, porque sem educação uma mulher não é dona da sua vida. O acesso à educação dá-nos a possibilidade e a capacidade de lutar pelos nossos direitos, como foi o acesso ao voto, e de sermos mais resilientes na conquista de várias liberdades. Isso foram conquistas importantíssimas, mas na base esteve sempre a educação.
Dentro da educação, as mulheres devem seguir os seus gostos pessoais. A minha filosofia é de que as mulheres devem ter acesso às mesmas oportunidades que os homens, mas devem fazer aquilo de que gostam. Claro que eu sou diferente a conduzir, uma mulher tem handicaps físicos que os homens não têm, ainda assim corro contra eles, e acredito que as portuguesas vão começar a participar mais.”