Qual é o assunto que mais ansiedade nos causa? O dinheiro (ou a falta dele). A autora do livro ‘Tenha mais dinheiro na carteira’ , que quotidianamente usa das redes sociais para nos ensinar a gerir melhor as nossas finanças, explica-nos como lidar melhor com os nossos gastos.

Quem são os nossos primeiros influenciadores quando o assunto é dinheiro?

Os nossos pais infuenciam a forma como lidamos com o dinheiro, mesmo que nunca falem connoco sobre isso. Sempre vi a minha mãe ser muito responsável, havia muito aquela ideia do ‘se não podes não compras’, ‘primeiro pagamos as contas e só depois é que vamos jantar fora’, coisas básicas.

Muita gente diz: ‘Ganho tão pouco, como é que vou conseguir poupar alguma coisa’?’ O que é que responde a isso?

Muita gente me diz isso, sim. E nós vivemos efetivamente num país de salários baixos e com um custo de vida cada vez mais elevado, mas será que já parou 10 ou 15 minutos no início do mês para saber exatamente quanto é que gasta e em quê? São 15 minutos chatos mas preciosos e que poupam muitas contas de cabeça. Isto parece óbvio mas a maioria das pessoas não faz isto, e vive automaticamente sem perceber se o seu estilo de vida pode ser suportado pelo seu salário. Muitas vezes não conseguimos poupar nada mas há gastos desnecessários ou que conseguimos substituir por outros.

Dê-me um único conselho financeiro…

O meu principal conselho é este: ponham logo a vossa poupança de parte no início do mês. Se eu me disciplinar para poupar nem que seja 20 euros no princípio de cada vez, será mais fácil não o gastar.

E se tiver o dinheiro todo à justa para os gastos?

Então há duas coisas que pode fazer: ou arranja forma de gastar menos ou arranja rendimentos extra. Mas há despesas que dá para renegociar, como o crédito à habitação, tentar renegociar a eletricidade ou o gás, levar almoço de casa, e acima de tudo disciplinar os gastos no supermercado, que é o maior sorvedouro das nossas economias. Como fazer compras: levar sempre uma lista para não comprarmos coisas que já temos em casa, por exemplo, e fazer semanalmente uma ementa de refeições.

Um dos problemas é que as pessoas não gostam de ter a sensação de que não podem fazer isto ou aquilo…

Verdade. Mas a organização é a melhor amiga da poupança. Sei que custa ao domingo quando estamos cansadas ir para a cozinha e adiantar refeiçoes, mas ajuda muito durante a semana. Pense que se conseguir criar um estilo de vida mais económico, por um lado temos mais paz de espírito, por outro podemos até fazer outras coisas de que gostamos. Ajuda muito ter um objetivo, saber para que é que estamos a poupar.

Quanto é que devemos poupar?

Eu aconselho a poupar pelo menos 10% do rendimento e a criar um fundo de emergência. Na altura do Covid foi um drama porque muita gente não tinha este fundo, mas um imprevisto é exatamente isso, uma coisa com a qual não se conta mas para que temos de estar preparados, u carro avariado, uma multa, um exame mais caro. Se conseguirem poupar mais, podem acrescentar algum tipo de investimento, como um PPR (Plano de Poupança Reforma) ou um ETF (um fundo de investimento negociado na Bolsa), fazer um fundo para a educação dos nossos filhos ou para gastos com as crianças, que são sempre muitos.

E o que devemos a todo o custo evitar?

Evitem ao máximo os cartões de crédito, que são a epidemia do século XXI e a dívida mais cara que existe e a que se descontrola mais rapidamente. Mesmo quando é sem juros, estou a projetar no meu próximo orçamento uma prestação que não sei se vou conseguir pagar. E muita gente usa o cartão de crédito para compras não essenciais. É preciso uma grande disciplina para não ceder a estes estímulos.

Qual é a sua máxima?

Aquilo que nós temos não nos define, é aquilo que fazemos com o que temos. E acima de tudo, temos de pensar no futuro que estamos a criar. Quanto mais coisas quiser fazer no imediato, menos tranquilidade vou ter no futuro. O ideal seria vivermos sem ansiedade financeira, sem aquele sufoco de vivermos para o princípio do mês, sem ir para a cama à noite angustiados.

Como é que começou a interessar-se pela área das poupanças?

Quando tive de as fazer… (risos) Comecei a interessar-me por isto quando mudei a forma como geria o meu dinheiro. Queria ser independente e não estava a conseguir. Comecei a ler muito, a fazer o meu orçamento, a perceber que algumas coisas funcionavam comigo, fui partilhando e ao partilhar também recebia sugestões de volta, por isso foi um crescimento mútuo.

Mas o dinheiro na sociedade portuguesa ainda é um tabu muito grande, não é?

Muito mesmo. Mas há coisas que parecem muito difíceis e na verdade são básicas. Ainda há muito estigma social quando nós deveríamos falar abertamente sobre dinheiro e não ter vergonha de dizer aos amigos ‘olha este mês não consigo ir jantar fora porque não tenho dinheiro’. Temos de parar de alinhar nos programas que nos desestabilizam financeiramente com medo daquilo que os outros vão pensar de nós.

O que aprendeu pessoalmente com a sua jornada financeira?

Percebi o que era realmente importante para mim. Por exemplo, eu poupo, mas prefiro gastar numa viagem com a minha família ou apostar na minha formação. Mas claro que cada pessoa definirá as suas prioridades. Importante é não viver preocupada com contas.

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