Foto João Lima

É verdade que eu já ia prevenida para gostar da conversa. Por um lado, tinha lido e ouvido coisas suficientes para isso (qualquer dia ainda hei de fazer T-shirts com frases dela como “A vantagem de sermos míopes é poder escolher quando queremos ver o mundo nítido” ou “Sabe tocar algum instrumento? Só o coração”). Por outro, levava na cabeça uma frase do Valter Hugo Mãe: “A Inês é a mais perigosa das mulheres. Fica-nos com o coração.” Claro que há sempre aquela situação em que uma pessoa vai cheia de ilusões entrevistar o seu ídolo, chega lá e o coração espatifa-se. Não foi o caso. A Inês é daquelas pessoas que de facto nos fica com o coração, porque nos dá o dela. E isso, numa altura em que toda a gente se esconde e tem medo de falar e de se expor, não é fácil.

Portanto, falámos de corações, de amores, de lutas, a propósito do seu último livro, ‘A máquina de escrever sentimentos’, uma espécie de diário sem cronologia, com partilhas em que muitas mulheres se vão rever. Ela própria se define como “Faço rádio, sou mãe, gosto de ouvir música, de vibrar em concertos, de cozinhar, e de estar com gente.” Mas é muito mais do que isso.

– Dê-me um princípio para esta conversa.Uma frase, um pensamento, uma imagem…

“No outro dia li esta frase ‘cheguei a esta idade e não tenho inimigos’. Isso deixou-me a pensar. Não sei se quero não ter inimigos. Claro que há muito mais pessoas de quem eu gosto, mas também há pessoas que não gostam de mim e de quem eu não gosto. Não me sentaria à mesa com o André Ventura, por exemplo, porque não posso pactuar com determinadas coisas. Se não tivermos inimigos, não temos balizas nenhumas. Os nossos inimigos também nos ajudam a saber quem somos.

– Vai refletindo à medida que as coisas acontecem?

Vou digerindo. É como voltarmos a determinados restaurantes. Houve uma altura em que fazia crítica gastronómica e perguntava-me sempre ‘voltaria a este restaurante?’ Para voltar, tem de haver alguma coisa marcante. Quando alguma coisa nos marca, um pensamento, uma pessoa, gosto de lá voltar e pensar nisso.

– A Inês é acima de tudo entrevistadora.Toda a gente é interessante?

Toda a gente é interessante, mas há muita gente que passa por baixo do radar. Não podemos entrevistar o mundo inteiro mas toda a gente tem as suas camadas, o seu mistério, a história que nunca contou. E muitas vezes nós, portugueses, também somos educados para não nos acharmos e não parecermos interessantes, sobretudo as mulheres. A minha filha já não vive isso, mas eu ainda vim de um tempo em que o silêncio era a linguagem. A não-resposta, a não-partilha, como proteção.

– Temos dificuldade em falar mas também temos dificuldade em ouvir, não temos?

Imensa. A maior parte das pessoas não tem interesse nenhum nos outros. Mas atualmente acho que estamos num circuito muito nefasto de achar que as pessoas ‘que interessam’ são as que têm fama, nome, dinheiro.

– Cresceu em Vila do Conde?

Sim. Nasci em Lisboa, os meus pais vieram para cá trabalhar nos anos 60 e depois voltaram para o Norte, de onde vieram, e fiquei lá dos 4 aos 22. Era muito bom viver lá mas eu não sabia. Cresci num meio onde hoje toda a gente adoraria viver. Cresci no meio de coelhos, cães, gatos, entre as plantações de milho, íamos apanhar grilos e passávamos meses na praia, uma vida que a minha filha já não teve. Aliás, reconstruí lá uma casa onde estou a cinco minutos da praia e apetece-me passar lá a vida toda.

– E no meio dos coelhos e dos campos de milho,como é que nasceu a paixão pela rádio?

(risos) É engraçado que hoje estava a falar com a minha filha e disse-lhe: ‘Já viste, vais fazer 16 anos e essa foi a idade em que eu fui trabalhar para a rádio.’ De repente isso foi uma iluminação, nunca tinha pensado nisso. Mas para mim ela é um bebé. Como hoje temos mais meios, infantilizámos os nossos filhos, protegêmo-los com privilégios e defesas. Para mim, era impossível ver a Maria Inês sair para trabalhar, quando eu nem hesitei. O meu irmão estava numa rádio-pirata e disse-me ‘acho que tens boa voz, porque não experimentas’? E eu fui imediatamente.

– Lembra-se da primeira vez que esteve no ar?

Perfeitamente. Gravava num gravador os noticiários da Antena 1, passava-os e lia-os ao microfone. E ia bastante lançada e confiante até me aparecer à frente a palavra ‘Massachusetts’… (risos) Naquele dia, pensei que nunca mais ia conseguir fazer rádio. Mas fez-me bem perceber que temos estes momentos em que percebemos que não somos invencíveis. Até hoje não consigo dizer, por exemplo, epidemiologista. (risos)

– Qual é a diferença entre entrevistar alguém na rádio ou na televisão? A rádio ainda continua mais misteriosa?

Isso está em vias de se perder, porque agora até se insiste cada vez mais em gravar as entrevistas de rádio… Eu detesto isso. A ideia da rádio é dar lugar à fantasia, construir o cenário que queremos, dar-nos a possibilidade de imaginar. Agora querem escancarar tudo… Para mim, a ideia de rádio é de casa, de aconchego, é liberdade, televisão é exposição e opressão. Eu estou ali para ouvir. Não tenho de estar preocupada com a imagem. Além disso tenho o direito de não me querer ver. Vou sempre pintada para a rádio, mas não é porque vou aparecer, é porque gosto, sempre fui assim, desde os 17 anos que uso batom vermelho. Até nos dias de luto. Gosto de pensar em mim como aquela mulher que conquistou o batom vermelho. Para mim, continua a significar que estamos na luta, aconteça o que acontecer. 

– Ainda faz sentido ser feminista?

Para mim, começou a fazer cada vez mais sentido. Há uns tempos eu dizia aquelas coisas disparatadas do tipo ‘sou feminina, não sou feminista’. Mas é possível ser as duas coisas, e ainda há tanto para fazer! Então se nós nem sequer somos capazes de falar de período, de menstruação, de menopausa, de maridos violentos, de colegas machistas, de patrões misóginos, como é que podemos não ser feministas?

– Qual dos seus entrevistados mais a surpreendeu?

Por exemplo, gostei muito de entrevistar a Maria Rueff. Estávamos na pandemia e a forma como ela se expôs em relação ao amor para mim foi arrepiante. E nem sequer estávamos frente a frente. Mas ainda há pouco tempo entrevistei o Daniel Sampaio e adorei ouvi-lo sobre aquilo que corrói e desgasta o amor, a importância de não trazermos para a vida do casal aquela conversa banal do dia a dia, com demasiados pormenores. Não devemos contar tudo à pessoa com quem estamos. 

– Não?

Claro que não. A rotina corrói, como o processo de erosão do mar. As pessoas vão-se habituando – uma palavra terrível – perdem o brilho, deixam de ver o outro, não há lugar para a surpresa. De facto há coisas que não devemos contar, porque antes de sermos um casal somos uma pessoa, e algumas coisas não se devem oferecer ao outro.

– Ama-se de maneira diferente aos 30 e aos 50?

Na verdade acho que depende mais da pessoa do que da idade. E eu fui sempre bastante intensa naquilo que gostei das pessoas. Mas é como o batom vermelho, ou se está na luta ou não se está. E eu sempre estive quando era amor. Não acredito nada em amores fáceis. Temos de lutar por eles. Há quem diga ‘ah, se era amor à partida, já estava tudo bastante simplificado’. Não. Temos de voltar para trás muitas vezes. E nós mudamos, não consoante a idade mas consoante a pessoa com quem estamos. Claro que o Tozé aos 72 anos já não quer sair para dançar toda a noite como eu fazia aos 30 com o pai da minha filha. Mas tem de haver espaço para tudo. Da mesma forma que já não me apeteceria ser mãe nesta idade, apesar de ter pena de não ter tido mais filhos. 

– Como é que conheceu o Tozé?

Em 2017, quando fomos ambos jurados do Festival da Canção (sim, aquele em que finalmente ganhámos). Apesar de eu ser da rádio e ele ser da indústria discográfica, eu nunca o tinha visto ao vivo. Fomos para o ensaio normal e ok, ele era o Tozé Brito, mas eu estava fascinada com a Gabriela Schaff, que era o meu ídolo (risos) e não lhe liguei nenhuma. Quando fui à primeira eliminatória, de noite, vesti um smoking e lembro-me que o Tozé olhou para mim com curiosidade. Foi a primeira faísca. Trocámos números de telefone com as pessoas do painel, mas só eu, o Tozé e o Ramón Galarza é que voltámos a ser chamados para júri do festival. Então passei a privar imenso com eles e passámos a ir jantar fora os três. E depois passámos a dois.

– O que é que dão um ao outro?

Acho que nos estimulamos mutuamente. O Tozé é muito bom conselheiro e eu tento sempre espicaçá-lo para a novidade. Por um lado ele dá-me uma certa calma e equilíbrio, porque eu sou de ficar rapidamente com suor no buço (risos) e ele ensinou-me a refrear esse meu lado epidérmico. O Tozé tem aquele sorriso até aos olhos e não responde imediatamente. Temos essa boa fórmula de conversarmos imenso ao jantar, e portanto há três gerações a coabitar nesta casa.

– Essa diferença de idades não vos assustou?

Deve ter assustado a cada um, mas lá está, se era amor, tínhamos de o viver.

– O amor passa por cima de tudo?

Somos nós a atuar por ele. O amor é uma palavra vazia sem pessoas que o habitem.

– ‘Máquina de escrever sentimentos’ acompanha os últimos dias que passou com a sua mãe e o crescimento da sua filha como ilustradora. Escrever ajudou-a a fazer o luto?

Como escrevo todas as semanas para o podcast ‘O coração ainda bate’, fui como que obrigada a fazer terapia através da escrita. Andava tudo à volta da minha mãe, das viagens que fazia, das recordações. É como se as palavras ganhassem forma e dessem forma à dor.  Escrever é como dar corpo ao monstro. Se tiver corpo, há maneira de o combater.

– O que mudou em si depois de a sua mãe morrer?

Passei a apreciar mais as coisas que ela amava, as plantas, as flores, os bichos. Passei o verão na casa dela sem querer mais nada a não ser estar ali, a apreciar as coisas simples, por mais cliché que isto seja. Viver na simplicidade e na beleza só está ao alcance de alguns porque só alguns é que a querem ver. Há imensa gente que passa por cima, não quer ver.

– E a sua filha, o que é que lhe ensinou?

Ela tem um enorme bom-senso, é muito cautelosa e pragmática na gestão dos sentimentos, e ao mesmo tempo mantém uma sensibilidade que não foi destruída por esse pragmatismo. Muitas vezes uma coisa destrói a outra. Eu sou menos pragmática e mais levada pelas emoções. 

– Diz a certa altura “o que perdemos como invencíveis ganhamos em vulnerabilidade”…

Sim. A minha força é a vulnerabilidade. Permite-me sentir sempre. O que é que ganhamos com isso? Verdade, por exemplo. É engraçado que eu não gosto de ouvir as conversas que tive porque elas condensam um momento de verdade, e voltar a ouvi-las é como retirar-lhes essa verdade. Mas a vulnerabilidade dá-nos essa possibilidade de ali estarmos inteiras, mesmo enquanto nos desmoronamos.

– Escreveu “A Amy Winehouse foi a primeira desconhecida que me partiu o coração”.Quem são as outras mulheres que admira?

Sou absolutamente fanática pela Amália, como se pode ver em todos os retratos que tenho dela, por tudo o que ela foi. E sou-o mesmo depois de ouvir imensas coisas negativas que têm sido ditas sobre ela. Com tudo isso que sei dela hoje, a Amália foi uma diva, e não posso deixar de a admirar com tudo o que isso implica de bom e de mau. Outra mulher que adoro é a Sade Adu. Simboliza para mim o que é ser elegante e discreta e saber retirar-se na altura certa sem que isso fosse um problema. Há poucas pessoas que conseguem fazer isso. Aliás, admiro imenso as mulheres da música porque eram guerreiras, e para singrarem (odeio esta palavra) num mundo machista e misógino muitas vezes tinham de se mostrar de determinada forma para se tornarem apelativas.

– Já ‘desamigou’ alguém por causa de uma piada sexista ou racista?

Claro que sim. No meu livro ‘Amores impossíveis’ tenho aquela piada do ‘Era homofóbico e desamigay’… (risos) Nós não podemos dar voz a estas pessoas. Mas acho que ainda vai demorar algum tempo até entrarmos outra vez na época das trevas.

– No livro diz, a certa altura, “Gosto de lutar pela igualdade de todos de maneira igual.”Isso continua importante para si?

Hoje mais do que nunca. É cada vez mais importante sobretudo ter uma voz, verbalizar o que pensamos. Fui sempre muito discreta, mas agora sinto a urgência de não o ser nas minhas posições. Outro dia, num daqueles inquéritos tipo ‘ping-pong’, perguntaram-me ‘direita ou esquerda’? E eu respondi ‘esquerda’ e dei-me conta de que provavelmente nunca o tinha dito, apesar de as minhas posições serem conhecidas. É importante dizê-lo. É importante não ter medo.

– Qual é a sua palavra preferida?

Liberdade.

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