Escritora e feminista, Maria Teresa Horta escreveu um dos livros mais importantes para a libertação das mulheres, trouxe o corpo feminino para a poesia e tomou as dores e as lutas das outras. Patrícia Reis traça-lhe o retrato e conta a sua história, num livro que se lê como um romance.

Comecemos mesmo pelo princípio: não fazia ideia de que a Maria Teresa Horta tinha tido uma infância tão traumatizante…

Para mim, a infância dela explica tudo: a necessidade de revolta, a carência, o conflito, a fragilidade, tudo. Ela nunca deixou de ser a Teresinha.

É acima de tudo uma mulher corajosa. Acha que nascemos corajosas ou que a vida nos faz corajosas?

As duas coisas. Eu durante muitos anos dividia o mundo entre as pessoas que teriam recebido Anne Frank em casa e as que não teriam. Com a idade percebemos que as coisas não são tão simples assim, porque há pessoas que não têm coragem física. Para mim a coragem passou a estar ligada à ética e à honestidade. A Teresa é corajosa porque não vergou, nem mesmo quando atacada fisicamente. A maior parte das pessoas não teria continuado a escrever depois de uma tareia.

A si o que é que a surpreendeu mais?

A vida da Teresa está toda na obra dela, e nós somos amigas há mais de 20 anos. Mas o episódio que mais me comoveu foi aquele em que ela engole uma carta que a mãe lhe escreveu, para a proteger. E acho que ela é feminista porque decidiu proteger e perdoar a mãe, e aceitar que ela tinha o direito de ser livre. Foi a mãe a fundadora do seu feminismo. ‘Não é por ela ser mulher que ela não pode’. Além disso elas eram muito parecidas, e muitas vezes a família vaticinava que ela ia ter um futuro igual ao da mãe. Ela tem dois grandes amores na vida: a mãe e o marido, Luís de Barros. E diz com imensa graça: eles eram parecidos.

Precisou de muito tempo para escrever isto?

Anos. Tenho centenas de horas gravadas. Para mim era muito evidente que o livro era sobre a Teresinha, e eu tinha de conseguir que ela me contasse mais sobre a sua infância. E ela fala muito facilmente sobre isso. O difícil é que eu não tenho praticamente ninguém para corroborar o que ela diz. Mas a infância conforme ela a fixou, na voz dela, é que me interessava. Se pode ser uma autoficção? Com certeza. Mas curiosamente, não acredito nisso. Uma dor tão profunda tem de ser verdadeira. Está muito longe de ser uma biografia científica mas dei tudo de mim, da forma mais eticamente correta. Estamos num processo de desumanização terrível e o mundo está numa fase muito estranha. Não podemos esquecer-nos de que somos seres humanos. Portanto, isto foi o melhor que consegui.

Apesar dos muitos prémios, o reconhecimento foi tardio…

Ela foi profundamente prejudicada por ser feminista e sempre ter defendido as mulheres. Agora são as miúdas que estão a recuperar a sua lua e que a admiram. Mas só o podem fazer porque a Teresa abriu caminho e fê-lo antes da revolução. E depois enquanto jornalista foi falando da precariedade da vida das mulheres, que ainda se mantém.

Quando a entrevistei, há dois anos, Maria Teresa Horta disse-me que o que mais lhe doía era ver como as ‘Novas Cartas Portuguesas’ continuava tao atual e como havia ainda imenso por fazer em direitos femininos. Concorda com isto?

Sem dúvida. Das 22 pessoas assassinadas em 2023, 19 eram mulheres. A grande preocupação da Teresa durante o confinamento era, o que é que vai acontecer às meninas e mulheres que estão 24 horas fechadas com os seus agressores. Ela nunca calou a ideia de que as mulheres deviam ter direitos iguais aos homens. Hoje ainda ganhamos menos 13% que os homens. Não dá jeito falar sobre isso, mas nós continuamos a trabalhar 46 dias à borla todos os anos, que são os dias que devíamos ser pagas para termos um salário equivalente ao masculino. E há muito mais. Há pouquíssimas mulheres em cargos de chefia, e quando vamos às etnias ainda menos. E ninguém fala sobre isto. Continuamos a repetir a mesma coisa, e tudo muda muito devagar. Temos agora 226 deputados na Assembleia, e 76 mulheres. Portanto, isto está muito longe de estar resolvido. E temos muitas mulheres machistas, que é uma herança cultural e educacional terrível. E a Maria Teresa Horta lutou toda a vida contra isto.

Mas a Patrícia tem uma série de livros publicados sem ser biografias…

Sim, biografias nunca mais (risos). Agora gostava muito de escrever outro romance. Enfim, quando estiver recomposta. Mas mais uma vez, também acho que as mulheres escritoras se deviam apoiar muito mais do que apoiam.

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