Foto: João Lemos

O corpo e a graciosidade não enganam: não é preciso perguntar-lhe a profissão, toda a gente adivinha o que faz na vida. É filha de bailarinos, afilhada de bailarinos, mas teve de provar que era tão boa como os outros. Nascida numa família onde se falavam três línguas (antes que perguntem, o O do Barbora não é uma gralha, é a versão checa do nome, aliás, a República Checa é o único país onde se escreve assim), correu mundo antes de se fixar em Portugal, há mais de 20 anos, dançou todos os bailados que há para dançar, e agora passa tudo o que sabe a outros bailarinos. 

Combinámos encontrar-nos no Teatro Camões, em Lisboa, onde a Companhia Nacional de Bailado se apresenta, e onde agora se prepara, entre outras coisas, a história de Coppélia, a boneca-bailarina. Durante uma hora, temos o teatro só para nós, o que é um luxo. Conversamos sobre a vida, os sonhos, família, lesões, vocações, tempo e idade. Assisto a um ensaio do pas-de-deux, com os fantásticos Filipa de Castro e Lourenço Ferreira. Fala-se inglês, francês e português, ri-se muito, trabalha-se muito. Afinal, para que serve todo este esforço? Fomos saber. 

Onde nasceu?

Nasci na Suíça. O meu pai era checo, a minha mãe era francesa, ambos bailarinos, e conheceram-se na Companhia Nacional de Praga. Em 1969, os soviéticos entraram em Praga e muitos checos emigraram para a Suíça. Em 71, os meus pais conseguiram uma vaga em Basileia e foi aí que eu nasci. Ficaram lá cinco anos, havia uma comunidade de artistas checos muito unidos, e depois mudaram-se para Berna, onde criaram uma companhia de checos que era como uma família. Tenho uma irmã seis anos mais nova, que nasceu quando fomos para França.

Que foram fazer a França?

Abriram uma escola de ballet, que esteve ativa durante 30 anos. Os meus pais eram bailarinos, a minha madrinha era bailarina, e a minha irmã teria sido bailarina mas os meus pais não deixaram. Eu sempre fiz aulas com eles e decidi ser bailarina por volta dos 10 anos. E decidi por amor ao palco. Nós fazíamos muitos espetáculos, o meu pai coreografava muito para mim e eu habituei-me ao palco desde pequena. Depois aprendi a amar a prática, o treino, a disciplina, mas aquilo que eu adorava era aquela sensação de, durante umas horas, ser outra pessoa.

Lembra-se da primeira vez que dançou em público?

Sim, tinha 6 anos, fazia de anjo. (risos) Tocava um solo de flauta e dançava ao mesmo tempo, foi muito difícil. Mas também a mim os meus pais tentaram demover-me.

Mas porquê?

Eles achavam que se tinha de nascer com talento, talento físico. A minha mãe sempre disse que nunca tinha visto uma criança com tantos bloqueios físicos como eu. E dizia: “Não tens talento físico para isto e vais sofrer porque não vais encontrar trabalho.” E o meu pai adiantava: “Vamos dar algum tempo à Barbora para vermos se ela quer continuar ou não. Mas vai ter de se esforçar mais do que os outros para vencer as suas limitações.” Pensei que se era preciso trabalhar para ser tão boa como os outros, então vou trabalhar. E aos 12 anos fui para uma escola de ballet em Paris.

Foi para lá viver sozinha, com 12 anos?

Sim. Enfim, não estava abandonada, vivi com algumas famílias que me acolhiam, mas separada da minha família. É engraçado que não tinha saudades de casa. Aquela era a vida que eu queria. Tinha aulas de ballet de manhã e de tarde aulas normais. E foi assim até integrar a Escola Superior Nacional de Música e Dança de Paris, aos 14 anos. Saí aos 17, e nessa altura tinha já três contratos para várias companhias. Mas eu ainda não me sentia pronta, e como tinha família nos Estados Unidos fui para S. Francisco aperfeiçoar-me com uma professora russa.

Já não me lembro quem dizia que a bailarina perfeita tem os braços dos russos e as pernas dos franceses…

isso é verdade?

Mais ou menos, sim. Os russos são mais acrobáticos, mais intensos, têm aquela tradição do ballet imperial. Os franceses gostam de ser mais subtis, têm muita técnica mas fingem que não se passa nada, que é tudo fácil, que não se estão a esforçar. (risos) Mas hoje em dia está tudo muito equilibrado.

Foto: João Lemos

E depois como é que veio para a Portugal?

Antes disso ainda estive 12 anos em Antuérpia, numa companhia quase toda constituída por jovens, de vários países. Viajávamos pelo mundo todo, fazíamos imensos espetáculos por ano, foi muito enriquecedor. Foi lá que conheci o meu marido, que é belga. E aos 30 anos pensei, agora gostava mesmo de assentar um bocadinho. Então o diretor da Companhia Nacional de Bailado de Portugal procurava uma Bailarina Principal. Vim a Portugal fazer a audição com o meu marido e disse: “Só fico se ficarmos os dois.” E assim foi.

Que língua se fala em sua casa?

Na minha família, o meu pai falava checo, a minha mãe francês e na escola falava suíço-alemão. Agora, o meu filho fala português com os amigos, francês comigo, flamengo com o pai, e inglês na escola, que é bilingue. Às vezes, numa frase há palavras das quatro línguas…

Foi difícil aprender português?

Mais o sotaque, porque em termos de gramática e estrutura é muito parecido com o francês. A pronúncia é que foi mais complicado. O meu marido, como é menos tímido do que eu e mete conversa com toda a gente, falava mal mas falava, e apanhou muito mais depressa. Eu tive de esperar até que a língua chegasse ao meu ouvido. E foi só com a peça ‘A Perna Esquerda de Tchaikovski’, em que tive de trabalhar o texto e a pronúncia, que consegui aperfeiçoar-me.

“A dança é uma linguagem universal, todos a compreendem, não é como uma língua estrangeira que temos de aprender.”

O que é bom e mau em Portugal?

Gosto muito de toda a tradição familiar portuguesa. Os portugueses são muito apegados à família e isso vê-se no dia a dia. Quando aparece uma criança, toda a gente a acarinha. E gosto do lado pacífico dos portugueses. Depois de algum tempo aqui, pensei ‘é aqui que quero educar o meu filho’. Lisboa é uma cidade onde há tudo, e onde ao mesmo tempo as pessoas ainda são carinhosas. A paz é o mais importante. Sem paz não há arte, sem paz não se vive, não se educa uma criança. Um lado mau? Talvez a falta de educação para a arte. O ballet precisa de bailarinos mas também precisa de público. E muitas vezes as pessoas pensam que o ballet é para uma elite, e não é! Têm medo de chegar a um espetáculo e não o perceber. A dança é uma linguagem universal, todos a compreendem, não é como uma língua estrangeira que temos de aprender. E todas as leituras são válidas, não há uma forma certa ou errada de ver ballet. Inclusive, não gostar também é válido. Mas não é uma linguagem incompreensível, fechada, só para alguns.

O que mais gostou de dançar?

Gosto muito de todos os bailados com história, para poder viver a vida de outra pessoa. Sempre quis dançar ‘Romeu e Julieta’, do John Cranko, e adorei dançá-lo e viver toda essa história em palco.

Em pequena, que bailarina era o seu ídolo?

Era a Noëlla Pontois, porque na altura era a bailarina estrela da Ópera de Paris, e depois foi toda a geração de ouro, que o Rudolf Nureyev criou, como a Isabelle Guérin, a Elizabeth Morin, a Sylvie Guillem, cresci com eles, todos eles foram importantes para mim. Nós, as pequeninas, fazíamos barra de chão ao lado dessas bailarinas fantásticas. Ver o seu rigor e disciplina era uma aprendizagem incrível.

Foto: Bruno Simão/Arquivo CNB

O que é preciso para se ser uma boa bailarina?

Desde que me disseram que o ballet não era para mim que eu passei a acreditar que, se eu consegui, qualquer pessoa consegue. Claro que é preciso vocação, paixão e determinação. E acima de tudo trabalho. Trabalho, trabalho, trabalho. Qualquer pessoa consegue, desde que comece cedo. Antes dos 10, 12. Claro que hoje em dia já não se molda os corpos à bruta, como dantes. Já não se põe uma pessoa de pernas abertas sobre duas cadeiras, como se fazia.

Fizeram isso consigo?

Comigo não, porque felizmente os meus pais já tinham outra cabeça. A minha mãe, para resolver os meus problemas de flexibilidade, fazia ioga comigo, por exemplo. Mas havia muitos tipos de tortura que estragaram para sempre o corpo de muitos miúdos.

Não é preciso muito sacrifício para se ser bailarina?

Quando se ama o ballet, isso não é visto como sacrifício. Um sacrifício é quando uma pessoa é obrigada a isso, quando não se tem alternativa. Mas isso foi uma escolha nossa. Ninguém nos obrigou. Claro que é duro, mas eu acharia muito mais duro levantar-me de manhã para fazer uma coisa de que não gostasse.

Para quem não sabe, o que é que faz uma Mestra de Bailado?

Leciona as aulas diárias da companhia, damos assistência aos coreógrafos e a quem vem montar as peças, ou fazemo-lo nós, como é agora o caso da ‘Coppélia’, e ensaiamos os bailarinos. E fazemos todo o planeamento diário de uma companhia. Eu adoro passar tudo o que aprendi aos outros bailarinos.

Que diria a uma jovem bailarina que estivesse a começar?

Nunca se esquecer daquilo que a levou a dançar.

Há dias em que isso se esquece?

Não se esquece, mas é fácil perder o ânimo. Há lesões, não somos sempre escolhidos para um papel, é um mundo cada vez mais competitivo, e psicologicamente é muito complicado. Todos os dias estamos em competição connosco próprios. E isso dura a carreira toda: estamos constantemente a ser julgados, avaliados e reavaliados. E muitas vezes, ser escolhido nem tem a ver com sermos bons ou menos bons, porque uma escolha é subjetiva. Um coreógrafo pode dizer “não é que sejas mau bailarino, mas não és exatamente o que eu procuro”. E aceitar isto é violento.

As lesões também vos deitam abaixo…

Muito. Eu tive muitas, mas mesmo muitas lesões. Desde que os meus pais me disseram que tinha de trabalhar mais do que os outros, puxei a corda vezes demais. Nos últimos anos tenho aprendido a fazer um pouco menos, para não entrar em burnout. Cada pessoa tem de saber qual é o seu limite para não correr o risco de o ultrapassar.

O corpo muda com a idade…

Claro que sim. Isso também é difícil de aceitar. Temos de pensar que envelhecer faz parte da vida mas quanto mais depressa o aceitarmos, melhor. Estamos aqui, estamos bem, porque não o aceitarmos felizes?

Quando é que deixou de dançar em espetáculos?

Há uns seis anos. Se me custou? Imenso. Tenho amigos que fizeram essa mudança em paz, mas a mim ainda me custa. Sinto a falta do palco e de toda a rotina de um bailarino. Eu adorava coser as minhas pontas, adorava a aula diária, adorava aperfeiçoar-me todos os dias. É um trabalho muito bonito ajudar os outros e ver os bailarinos crescer, mas não é a mesma coisa. Aliás, acho que continua a fazer muita falta o seguimento do período pós-carreira de um bailarino. Há muitos bailarinos que, quando deixam de dançar, entram em depressão. Por exemplo, a dança é muito táctil: tocamos muito uns nos outros. Há muita emoção. Há o reconhecimento do público, os aplausos, a atenção. De repente, deixamos de nos tocar, deixamos de exprimir emoções, deixamos de ter feedback. O mundo apaga-se. E isto tem um enorme impacto psicológico no resto da nossa vida, para que muitas vezes não estamos preparados.

Ainda por cima, um bailarino tem uma carreira curta. Começam crianças, crescem no ballet, e essa quebra
dá-se quando vocês são muito novos ainda…

Sim. Até à minha geração, isto não era discutido. Só havia a dança, e quando a dança acabava, era dramático. Inclusive houve muitos bailarinos com problemas económicos, porque não sabiam fazer outra coisa. Agora, as novas gerações já pensam nisso, já planeiam o futuro, já fazem estudos paralelos. Isso é muito saudável. E pouco a pouco há mais acompanhamento psicológico. Também por isso é que um bailarino tem de ter força mental enorme, para aguentar uma vida muito instável.

Falaram-lhe nisso?

Tive uma professora que me dizia: “Vocês vão ter de aguentar, não desistam, continuem a trabalhar sejam ou não sejam escolhidos. Podem ter um pé a sangrar, mas continuam com a aula até ao fim.”

Já lhe aconteceu isso?

Claro que sim. Mas na vida temos de aprender a ser capazes de aguentar. Às vezes, penso naqueles migrantes que têm de caminhar dias e dias para fugir à guerra ou para mudar de vida, e penso que essas é que são as vidas duras. A minha foi uma escolha. A deles, não.

Qual foi a sua pior lesão?

Uma tripla cirurgia a um pé, numa altura em que estava prestes a ser promovida. Estava em Antuérpia, tinha 19 anos, e demorei cinco anos até recuperar a minha técnica. Recomecei do zero, mas o meu pé direito nunca mais teve a força inicial, e durante esses cinco anos sofri muito. Mas lá está, é preciso força para não desistir.

Também parou quando engravidou?

Parei porque me correu mal, mas hoje em dia há muitas bailarinas que dançam até ao fim do tempo. Só não se pode saltar até ao terceiro mês, enquanto o bebé não está bem encaixado. Mas também isto foi um choque para mim, porque achei que ia dançar até aos nove meses.

O seu filho é bailarino?

Não, tem 15 anos e interessa-se mais por inteligência artificial… Foi muitas vezes ao teatro, viu muito ballet, mas não é nada daquilo que ele quer para a vida dele.

Em Portugal ainda continua a haver muito preconceito em relação aos rapazes no ballet, não há?

Infelizmente, sim. Ainda há pouco tempo, um rapaz numa escola desatou a chorar porque gostava de fazer ballet e o pai disse-lhe “isto não é para ti, nem pensar”. Não se pode cortar as asas a uma criança, deve-se apoiá-la em tudo. E depois, se não consegue, não consegue, mas pelo menos tentou. Porque se não fica um grande vazio naquela vida, uma cicatriz que nunca fecha. Ainda por cima, o ballet é mesmo uma vocação, e quando isso é negado, é uma violência muito grande que nunca é superada. Percebo os pais que têm medo por ser uma vida precária, mas a pergunta é: somos mais felizes todos os dias a fazer qualquer coisa precária mas que adoramos, ou num emprego seguro para que não nascemos e que nos torna infelizes dia após dia?

Os pais pensam que em Portugal não é possível ser-se bailarino e sobreviver…

Sim, e eu percebo isso. Ainda por cima, os pais portugueses são muitíssimo agarrados aos filhos. Mas temos de pensar primeiro nos filhos e só depois em nós. Seria desejável haver em Portugal mais companhias para absorver estes jovens, mas para isso era preciso que o Governo percebesse melhor qual é o papel da arte.

E qual é o papel da arte?

Ajudar-nos a viver. A arte é essencial à nossa alma, ao nosso bem-estar. Através do sonho, ajuda-nos a aguentar o dia a dia. E a arte também questiona. Faz-nos pensar, faz-nos sentir, faz-nos sentir que pertencemos. Quando temos uma sala inteira a vibrar em conjunto, cada uma daquelas pessoas vai chegar a casa diferente. Há uma partilha, sentimo-nos parte de uma comunidade. E agora estamos a criar conversas pré-espetáculo onde as pessoas podem saber mais sobre aquele espetáculo.

O que é que as pessoas perguntam?

Perguntam tudo. E deixam-nos a pensar. Explicamos por que o espetáculo está feito assim, como é montado, o trabalho que dá. Dantes, havia muito aquela ideia de que ninguém tinha de saber como aquilo era feito, a magia acontecia. Mas é importante saber como tudo aquilo nasce. Uma amiga minha perguntava-me: “Mas tu não tens medo de estragar o sonho?” Ora é exatamente o contrário. Aquela magia torna-se ainda mais preciosa quando sabemos como é feita. Eu explico que as pontas são difíceis, que aprender a coreografia é muito complexo, e nada disso tira a magia, só aproxima a pessoa da peça. A magia está lá sempre. Já não há aquela ideia do artista separado do público.

Como é a sua rotina diária?

Acordo às 6 da manhã e vou passear a cadela, o que me dá um bocadinho de tempo para respirar. Depois preparo o pequeno almoço para o meu filho e o meu marido, e por volta das 8.30h já estou no teatro. Preparo as coreografias ou faço algum planeamento, e quando dou aula aqueço previamente. A seguir à aula há ensaios até à hora de almoço, que nem sempre conseguimos tirar.

Uma bailarina come?

Claro que come. Claro que hoje há muito mais acompanhamento por parte de nutricionistas porque é importante saber o que comer e quando. A alimentação é estudada, tal como o é para qualquer outro atleta de alta performance. Um bailarino é ao mesmo tempo um artista e um atleta. Aliás, um bailarino é o desportista mais completo, porque trabalha o corpo todo. Na minha geração havia muita anorexia e bulimia, as bailarinas tinham de ser esqueléticas, mas hoje já não vejo nenhuma miúda a sobreviver de maçãs e cigarros. Felizmente.

Bem, a rotina…

Temos ensaios até às 5 da tarde, depois há sempre algum tipo de trabalho administrativo, e depois  fora daqui ainda sou instrutora de gyrotonic, um sistema de exercícios que ajuda o corpo a ter mais mobilidade e que conheci aqui em Portugal quando era bailarina. Gosto de o fazer porque é uma oportunidade de estar com pessoas que não são do ballet.

O que faz quando não está no teatro?

Estou com o meu filho. Ao fim de semana, gosto muito de passear na natureza, de jogar às cartas, de ler. Ler é um dos meus grandes prazeres, principalmente livros de História sobre a época medieval e o Renascimento. Quando me reformar, gostaria muito de estudar História e voltar a tocar piano.

A arte continua fundamental num mundo que investe cada vez mais em armamento?

Claro que sim. É pela arte que conseguimos escapar às dificuldades que nos rodeiam. Se não tivermos um bocadinho de magia, não sobrevivemos. É isso que os governos não percebem. A vida é cada vez mais dura, económica e psicologicamente vivemos num mundo cada vez mais agressivo, e precisamos da arte para conseguirmos vibrar juntos, para não desesperarmos, para termos mais força para enfrentar o dia a dia.

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