Dor, perda de qualidade de vida, morte. É comum associarmos o cancro a estas palavras.  Mas fará sentido ou não estaremos a ser reféns de mitos e ideias pré-concebidas sobre uma doença que assusta – e muito?

“Cancro sem Temor” é um projeto inédito do IPO do Porto, dirigido a toda a população, mas principalmente a doentes com cancro, os seus familiares e amigos, para que se sintam mais apoiados e protegidos. O seu objetivo é exatamente realçar a importância de aprender a viver com o diagnóstico de cancro e desmistificar conceitos e ideias sobre esta vivência. Através de diferentes testemunhos e perspetivas,  com estes podcasts procura-se simplificar e retirar a carga negativa, o medo associado à doença, clarificando diferentes aspetos, para ajudar a lidar melhor com ela.  

Um testemunho faz a diferença

Daniela Filipa Rocha, de 35 anos, foi uma das doentes que deu o seu testemunho para este projeto. Aos 24 anos, Daniela foi diagnosticada com um Carcinoma da Mama. “Detetei um caroço na mama do lado direito em junho de 2010. Fiz uma ecografia mamária pedida pela médica de família, no entanto, o resultado não foi motivo de alerta. Após 8 meses voltei a repetir a ecografia e aí pediram para fazer também uma biópsia, uma vez que o caroço tinha crescido. Entretanto, no momento da biópsia pediram para fazer microbiópsia…aí percebi que alguma coisa não estaria bem…No dia 1 de junho, veio a confirmar-se o carcinoma da mama direita”.

Este foi um diagnóstico que a apanhou completamente de surpresa e vivido inicialmente com grande angústia: “Chorei muito… Estava sozinha na consulta pois sempre desvalorizei e acreditei, sempre, que não iria dar em nada. Receber uma notícia daquelas foi um murro no estômago, mas ao mesmo tempo sem noção do que teria que passar”. Na família e nos amigos encontrou o seu apoio: “A minha mãe foi o meu grande suporte, deixou de trabalhar para poder cuidar de mim, enquanto o meu pai ficou a 100% no negócio que tinham”, conta. “As amigas foram incansáveis, sempre presentes e tive em particular uma amiga, a Rosinha, que sempre me acompanhou em todas as consultas e tratamentos, juntamente com a minha mãe.”

 Seguiram-se uma mastectomia, 26 sessões de radioterapia, hormonoterapia e reconstrução mamária. Daniela vai recorda-se sempre da primeira vez que se viu ao espelho depois da cirurgia: “É uma mistura muito grande de sentimentos. Se por um lado já não tinha o ‘mal’ comigo, por outro, aquela pessoa não era, mas aí vinha o pensamento: focar no próximo passo e na radioterapia e depois reconstrução”.

Esse foco no caminho que estava para a frente – e não no que ficou para trás, foi decisivo no seu estado de espírito. “Obviamente que tinha dias tristes, sou muito chorona, mas chorar também ajudava a libertar. Consegui manter-me positiva porque nunca me senti sozinha neste processo, tive sempre os melhores comigo; pelo facto de considerar que era só e apenas uma fase na minha vida e porque nunca a palavra ‘morte’ foi tida em conta. Hoje, olho para trás e percebo que a minha ignorância e ingenuidade foi um fator importante para não me consumir demasiado. “

Um processo longo, mas que a fez despertar para a necessidade de desmistificar esta doença e os medos que lhe estão associados e assim participar num dos podcasts do projeto Cancro Sem Temor. “É necessário falar e explicar que doença é esta e dar a conhecer casos parecidos com o nosso. Quando estamos doentes, seja qual for a doença, gostamos sempre de conhecer casos semelhantes nos quais nós possamos partilhar um pouco a nossa dor, mas também perceber que há esperança. Quanto ao medo, na minha opinião é um sentimento que está sempre connosco, sempre, diria até no nosso dia a dia, mas é esse medo que nos dá também força para enfrentar o que está para vir, é o medo que nos mostra que conseguimos aquilo que achámos por vezes que jamais conseguiríamos. Tive muitas pessoas que me disseram que se fosse com eles não teriam a mesma força que eu tive e eu dizia que isso não é, de todo verdade, teriam tanta ou mais força que eu, mesmo que com medos, claro! Não tenho dúvidas disso.”

No final desta etapa, Daniela não tem dúvidas: “Eu renasci. Costumo dizer que o Cancro fez de mim uma melhor pessoa e só tenho de agradecer. Há momentos que esquecemos ou que não queremos recordar mas também faz-me bem parar e pensar pelo o que já passei, pelo o que superei e fazer um esforço para relativizar mais os pequenos obstáculos do dia a dia.“ Conselhos, deixa estes: “Cada pessoa é um Ser único, vive de uma forma muito particular o momento… o conselho que dou é para confiarem nos profissionais que estão connosco, não terem medo/receio de perguntar quando as dúvidas surgem (e são muitas) e acima de tudo, terem Fé e acreditarem que, seja de que forma ou de outra, vai passar! Viver um dia de cada vez e aproveitar ao máximo todos os dias.”

Uma médica que deseja acabar com os preconceitos

Na origem do projeto ‘Cancro sem Temor’ está a médica oncologista Susana Sousa do IPO do Porto que nos fala do que conduziu a esta ideia. “Tem por base a importância da literacia em Saúde, que deve ser fomentada e pensada em todas as vertentes. Daí que comunicar com clareza e com linguagem simples (o que não tira a que seja precisa e correta) que chegue a todos é, para mim fundamental. Foi esta dimensão, a informação, que quis trazer ao podcast, com a envolvência de profissionais e também, porque só assim faria sentido, os doentes e quem os acompanha na vivência desta doença, como a família e amigos.”

Quanto à receptividade quer dos doentes, como da sociedade em geral, sem esquecer a comunidade médica, revelou-se muito positiva. “Tem sido um projeto muito acarinhado por todos, sobretudo pelos doentes, o que se pode perceber no número de visualizações que cada episódio tem tido”, conta. “Nas consultas são muitos os doentes e acompanhantes que trazem o podcast à conversa e nos dizem (a mim e aos meus colegas) que têm assistido/ouvido com agrado, retirando de uma ou vários episódios coisas importantes para si próprios.”

E apesar de serem histórias marcadas pela dor, não foi dificíl encontrar quem quisesse partilhar a sua experiência com os outros. “Julgo que as pessoas, doentes e família/amigos, percebem que partilhar a sua experiência é um passo difícil para si, mas muito importante para que outros que estão a passar ou passaram pelo mesmo consigam viver melhor ao ouvir o seu testemunho.”

Questionada sobre se a vertente psicológica tem sido colocada em segundo plano quando surge um diagnóstico de cancro, a médica refere que é inerente ao próprio processo do doente. “Em muitos casos, acredito que sim, não por indicação dos médicos, obviamente, mas porque os doentes não conseguem pensar, e estando a falar do momento do diagnóstico, em outra coisa que não a doença oncológica em si e como se tratar. Penso que só mais tarde conseguem perceber que uma ajuda na vertente mais psicológica é importante para saber gerir tudo o que implica esta doença e que tê-la antes poderia ter sido um bom auxílio. E reforça uma ideia: “A forma como se encara a doença, os tratamentos, os efeitos laterais desses tratamentos e a capacidade de viver com um diagnóstico atual ou passado de cancro é fundamental para conseguir ultrapassar os piores momentos, adaptar o sofrimento, alcançar alguma tranquilidade e ânimo que podem fazer a diferença para melhor.”

Numa visão global do problema não são apenas as pessoas com cancro que precisam de apoio – os familiares e amigos também têm um papel fundamental, apesar dos meios serem “escassos”. “Nesta fase de pandemia foram ainda menores, e devemos ter como objetivo no futuro incrementá-los e fazer parte do que consideramos ser importante no tratamento “global” dos doentes em si. Até porque, na maioria das situações, ter um bom apoio é imprescindível para minimizar toda a vivência negativa desta doença.“

Para viver o cancro com menos temor, é urgente desmistificar algumas ideias. Susana Sousa dá-nos alguns exemplos. “Por exemplo, dietas demasiado restritivas não uma mais valia para os doentes, podendo até, em alguns casos, ser prejudiciais“. diz sobre o tema da alimentação Por outro lado, a questão do peso da genética no cancro. “É também fundamental fazer perceber que o cancro só é hereditário numa percentagem aproximada de 5 a 10% dos casos, pelo que o medo de vir a ter cancro porque um familiar teve não deve ser fomentado. Se a situação clínica puder ter por base hereditariedade, seguramente o médico do doente vai ter isso em conta e pesquisará as alterações genéticas que podem estar na génese dessa doença.” Outro mito envolve o desporto: “Quem tem cancro, mesmo em fase activa e durante os tratamentos, não está obrigado a deixar de fazer exercício físico”, lembra a especialista.

Por fim, impossível não falar de uma das ideias mais comuns num cenário de doença: “Acreditar que ter cancro é igual a morrer está hoje, e ainda bem, cada vez mais longe de ser verdade. O cancro pode trazer, a quem o vive na primeira pessoa, sofrimento físico e psicológico, mas até esses vão diminuindo com o passar do tempo, o terminar os tratamentos, o voltar à vida normal. A maioria dos cancros, sobretudo quando diagnosticados em estádios precoces, têm cura“.

Os podcasts contam com moderação da jornalista Lúcia Gonçalves, que conversa com quem tem vivido de perto com as doenças oncológicas, como profissionais de saúde de diferentes áreas e especialidades, doentes e familiares e amigos.

O podcast, que conta com o apoio da Novartis, está disponível no canal Youtube do IPO do Porto e nas plataformas de podcast (Spotify e Apple Podcasts).

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