
Bem-estar é uma coisa boa e devemos preocuparmo-nos com ele. Sem dúvida. O Global Wellness Institute (GWI) define-o como “perseguição activa de actividades, escolhas e estilos de vida que levam a um estado de saúde holístico”. Mas é um conceito tão genérico e com fronteiras tão mal definidas que permite a qualquer um içar bandeiras num território a saque. Todos podemos ser embaixadores do bem-estar, ninguém nos pede credenciais.
Estamos na era do coach, que veio do desporto para nos treinar em todas as áreas da nossa vida, incluindo a saúde. O que, à partida, não tem nada de errado, se soubermos distinguir os bons dos maus conselhos e se daqueles soubermos tirar o melhor partido sem colocarmos a vida em risco. “Alguns conselhos, como recomendar ervas e extratos, como óleo de orégãos, folha de verbasco, alho e sabugueiro [para tratar o Covid-19], podem ser inofensivos, desde que as pessoas não os usem como alternativa à lavagem das mãos, por exemplo”, lê-se num artigo do Business Insider, em que se discutia as recomendações dos naturopatas para enfrentar a epidemia. “Os especialistas estão preocupados com alguns destes micro-influencers que estejam a dizer aos seus seguidores para tomarem megadoses de vitamina A, C e D como forma de se prevenirem do Covid-19.”
Somos cada vez mais informados. E se, como se diz, informação é poder, na saúde os princípios de autonomia e utente informado são extremamente importantes. “A confiança cega está a ser substituída por confiança informada”, escreve, sobre a relação entre paciente e profissional de saúde, Rita Espanha, professora auxiliar do ISCTE, no artigo ‘Informação sobre saúde: as fontes de informação e a construção da autonomia’, publicado na revista ‘Factores de Risco’, da Sociedade Portuguesa de Cardiologia.
Desinformação também é poder
Mas se a informação nos dá poder – para tomar melhores decisões, para exigir mais de nós e dos outros, o que fará a desinformação? Não nos dará ela o poder inverso, o de tomar decisões erradas? Numa altura em que se fala tanto de fake news, nunca foi tão importante saber filtrar os palpites que todos os dias nos chegam, sobretudo da Internet. A Medicina não foge à tendência generalizada de descrença nas instituições e nem sempre consegue concorrer com os argumentos milagrosos que tantas vezes nos chegam de sites, influencers e afins em contextos muito mais sedutores e coloridos, entre bagas e outros alimentos com superpoderes.
Um exemplo é Goop, uma plataforma de bem-estar criada por Gwyneth Paltrow, com conselhos de alegados especialistas nas mais variadas áreas da medicina alternativa e uma loja a condizer, num negócio multimilionário – segundo o GWI, a economia do bem-estar valia, em 2018, mais de 4 mil biliões de dólares. Uma economia que abrange as mais variadas indústrias, desde nutrição, fitness, beleza e anti-aging ao imobiliário e turismo.
A Netflix lançou o polémico documentário The Goop Lab, onde se testam algumas terapias alternativas, em experiências supostamente creditadas pela ciência. “Estes sites oferecem aquela ligação emocional que os médicos tantas vezes dispensam. E acho que essa é uma das grande falhas da Medicina. Quando somos formados, ensinam-nos a não falarmos de nós próprios aos pacientes, a mantermos a compostura. Mas parte do meu sucesso advém do facto de as pessoas quererem que o seu médico seja humano”, disse a ginecologista Jennifer Gunter, colunista do New York Times e autora do livro ‘The Vagina Bible’, que tem como missão empoderar as mulheres com factos médicos, desafiando gurus do bem-estar, como os que dão conselhos no Goop. Gunter, que deixou a obstetrícia depois de ela própria se desiludir com a Medicina – um dos filhos morreu à nascença e outros dois nasceram com graves problemas de saúde. Mas nunca lhe virou costas: “As cirurgias a que os meus filhos foram submetidos quando eram bebés ensinaram-me que há algumas coisas para as quais a medicina ainda não tem resposta. Não há milagres, há apenas ciência por descobrir.”
A medicina convencional não é, pois, alheia à evangelização do bem-estar. “A ascensão da indústria do bem-estar é uma resposta clara a um sistema de saúde que tantas vezes desumaniza e desvaloriza as mulheres. Cansadas de serem desvalorizadas, de não serem ouvidas, de serem abandonadas à dor ou esquecidas, cansadas de estarem cansadas, as mulheres do mundo ocidental criaram o seu próprio sistema de saúde alternativo”, diz a jornalista Eleanor Morgan, no livro ‘Hormonal: A Conversation About Women’s Bodies, Mental Health and Why We Need to Be Heard’, não deixando por isso de expor as falácias da indústria do bem-estar.
O amor pode matar
A informação também nos dá a sensação de controle sobre as nossas vidas, algo por que ansiamos nesta época de incerteza. Mas, hoje, o lema do ‘querer é poder’ é levado ao ponto de servir mais para nos derrubar do que para nos incentivar. “A nossa preocupação é que o bem-estar se tornou uma ideologia. As pessoas que não cuidam do seu corpo são conotadas como preguiçosas, fracas ou sem força de vontade. São encaradas como desviantes, obscenas, a gozar ilegalmente e descaradamente de tudo a que todas as pessoas sensatas resistem”, afirmam Carl Cederström e André Spicer, autores do livro ‘The Wellness Syndrome’, defendendo que o movimento do bem-estar se aproxima do movimento do pensamento positivo, segundo o qual podemos ser quem quisermos e se não conseguirmos a culpa é nossa. A propósito, Gunter conta como durante uma conferência Goop uma mulher afirmou ter conseguido curar o seu cancro com amor, omitindo que se tinha submetido à quimioterapia, e que tinha sido o medo a estar na origem da doença. “É tão insultuoso para alguém que já esteve doente, que de alguma forma foi ela que o provocou, não é?”, revolta-se Gunter, dizendo que as pessoas que confiam só no amor ou noutras terapias alternativas adiam os tratamentos e por isso morrem mais cedo.
É conhecida a história da australiana Belle Gibson, influencer e guru do bem-estar desmascarada em 2015, que ficou conhecida ao afirmar que tinha curado um cancro em fase terminal rejeitando a medicina convencional e abraçando um estilo de vida e alimentação saudáveis. A história trouxe-lhe fama nas redes sociais, uma app e um livro de receitas, mas o império desmoronou quando foi forçada a admitir a mentira.
A questão é: quantas Belles andarão por aí a recrutar seguidores, e será que estamos aptas a identificá-las?