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Enquanto o mundo se mobiliza para ajudar o povo ucraniano, aparentemente, a Ucrânia e os países vizinhos não têm demonstrado a mesma empatia pelos estudantes e emigrantes africanos que tentam fugir à guerra. 

Nos últimos dias, o hashtag #AfricansinUkraine tem lançado luz sobre a discriminação que os negros estarão a enfrentar nas fronteiras com a Polónia e a Roménia, entre outras. Uma situação semelhante à que aconteceu na China, durante a primeira vaga da pandemia, quando muitos africanos alegavam enfrentar hostilidade e racismo por parte dos chineses, motivados pelo medo irracional de os estrangeiros oriundos de África serem os ‘verdadeiros’ portadores de COVID-19.

Voltando ao leste europeu, tudo indica para que haja uma crise humanitária dentro de uma crise humanitária. Isto porque inúmeros africanos residentes na Ucrânia estarão a ser impedidos de fazer a travessia para nações vizinhas da União Europeia, passando dias amontoados ao frio, sem comida ou abrigo, detidos por guardas fronteiriços que os empurram para o fim de longas filas e até os espancam, dando prioridade aos cidadãos nacionais.

“Se a tua pele for escura, estás em desvantagem”

Uma dessas histórias é a de Jessica. Depois de caminhar durante 12 horas e passar uma noite num abrigo, a estudante nigeriana tentou apanhar um autocarro que seguiria diretamente para a fronteira com a Polónia. Tentou, porque o acesso ao meio de transporte foi-lhe negado. 

“Quando chegou a altura de entrarmos no autocarro, os ucranianos disseram: ‘Só ucranianos'”, partilha com a BBC News Africa. “Até menti e disse que estava grávida, mas eles não quiseram saber. Implorei. O guarda olhou-me nos olhos e disse, na língua dele: ‘Apenas ucranianos e só isso’. Que os negros deviam andar a pé”.

A jovem teve de andar por mais oito horas. “O problema não é na fronteira polaca, é na fronteira ucraniana, porque temos de receber o carimbo no documento de saída para chegarmos ao lado polonês e os ucranianos só estão a dar prioridade aos seus cidadãos. Eles não querem saber; empurram-nos, batem-nos. Se conseguires passar, passaste, se não conseguires, paciência”. 

Depois desse episódio, Jessica voltou para casa e pensou numa nova estratégia: ir de comboio até à Hungria.“Não foi fácil, tivemos de pagar. O que podem fazer as pessoas que não têm dinheiro? Eu não pude ajudar ninguém porque estava a lutar pela minha vida. Foi uma experiência traumática e não sei o que será de mim daqui para a frente”.

Agora na cidade húngara de Debrecen, a estudante planeia tentar arranjar um bilhete para regressar à Nigéria o mais rápido possível. “Não é seguro. Se a tua pele for escura, estás em desvantagem”.

A história repete-se 

De acordo com a Deutsche Welle, os três maiores grupos de estudantes estrangeiros na Ucrânia são compostos por marroquinos (8.000), nigerianos (4.000) e egípcios (3.500). Além dos africanos, também os árabes e indianos alegam estar a ser discriminados no êxodo do país. Kim Crowder, especialista em diversidade e inclusão, diz à MSNBC News que as notícias se enquadram num padrão.

“Não é surpreendente, em particular se olharmos para o contexto histórico. Já aconteceu às minorias étnicas antes, inclusive na crise migratória europeia de 2015, quando africanos e sírios buscavam asilo da guerra, pobreza e genocídio na Somália e na Síria. Existe sempre um medo associado a rostos negros e pardos, e isso dá-nos uma noção de como podem ser as experiências deles nessas fronteiras”.

Entretanto, as nações africanas do Conselho de Segurança da ONU já reagiram às múltiplas acusações de segregação.

“Condenamos veementemente este racismo e acreditamos que é prejudicial ao espírito de solidariedade que é tão necessário, atualmente. Os maus-tratos a africanos nas fronteiras da Europa têm de parar imediatamente, quer seja em relação aos africanos que fogem da Ucrânia ou em relação àqueles que atravessam o Mediterrâneo”, afirmou o embaixador queniano na ONU, Martin Kimani, esta segunda-feira.

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