@ukraine.ua

Depois da aparente superação de uma crise pandémica, vivemos mais um momento histórico da Humanidade: a ofensiva militar russa na Ucrânia.

Penso que todos concordamos que o que está a acontecer é chocante, errado e uma clara violação dos Direitos Humanos. Porém, não consigo deixar de pensar que as reações em todo o mundo têm sido interessantes, para dizer o mínimo. Das manifestações em diferentes pontos do globo às sanções económicas e boicotes de grandes empresas — olá, Apple, Shell e BP — ao Kremlin, parece que, desta vez, o desrespeito ao outro e à vida humana que já vimos repetir-se em tantos outras crises humanitárias está a tocar-nos de uma forma diferente. 

Tudo isto fez-me pensar nos valores-notícia que aprendi na faculdade, ou seja, nos critérios de relevância e noticiabilidade que norteiam o trabalho das redações. Apesar de me ocorrerem vários que ajudam a justificar o interesse público despertado por esta guerra, destaco o fator proximidade, que dita que os eventos se tornam mais interessantes quanto mais próximos estiverem da comunidade que os lê, seja essa afinidade de base cultural, ideológica, geográfica, física, emocional, etc.

Esta teoria reflete-se na cobertura mediática do conflito a leste, sendo que diversos meios de comunicação têm sido duramente criticados por sugerirem que os cidadãos predominantemente brancos da Ucrânia merecem mais empatia do que as pessoas que vivem, por exemplo, em países do Médio Oriente ou do continente africano. Uma realidade que levou a Associação de Jornalistas Árabes e do Médio Oriente (AMEJA) a expor declarações  controversas que “atribuem mais importância a algumas vítimas de guerra do que a outras”.

“Condenamos e rejeitamos categoricamente as implicações orientalistas e racistas de que qualquer população ou país seja incivilizado ou tenha fatores económicos que o tornem digno de conflito”, lê-se num comunicado divulgado esta segunda-feira, 28 de fevereiro, no Instagram. “Este tipo de comentários reflete a mentalidade difundida no jornalismo ocidental de normalizar a tragédia em partes do mundo como, por exemplo, o Médio Oriente, África, Sul da Ásia e América Latina. Desumaniza e torna as suas experiências com a guerra algo normal e expectável”.

A AMEJA pede ainda a todas as organizações de notícias que estejam atentas ao duplo padrão implícito e explícito na forma como tratam este tema que marca a atualidade, numa tentativa de desmantelar uma linha de pensamento que normaliza a guerra em regiões fora da esfera euro-americana.

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“Um país civilizado, ao contrário do Iraque ou Afeganistão”

Em conversa com um jornalista da BBC, David Sakvarelidze, ex-procurador-geral-adjunto da Ucrânia, sublinhou que as cenas que se têm desenrolado no país eram muito emocionais, porque via “pessoas europeias de olhos azuis e cabelos loiros a serem assassinadas; crianças a serem assassinadas todos os dias pelos mísseis, helicópteros e rockets de Putin”.

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“Não é um lugar como o Iraque ou o Afeganistão”

Charlie D’Agata, correspondente da CBS News em Kiev, na Ucrânia, mencionou que a capital do país, “com todo o respeito, não é um lugar como o Iraque ou o Afeganistão, que assistem a fortes conflitos há décadas. Isto é uma cidade relativamente civilizada e europeia — também tenho de escolher estas palavras com cuidado —, onde não esperávamos que isso acontecesse”.

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“São pessoas prósperas de classe média”

Enquanto descrevia as imagens caóticas de cidadãos ucranianos a tentarem deixar o país, o pivô da Al Jazeera Peter Dobbie frisou que o “o que é comovente ao olharmos para eles é a forma como estão vestidos. São pessoas prósperas de classe média”. 

“Obviamente, não são refugiados a tentar escapar de áreas do Médio Oriente que ainda estão num grande estado de guerra; não são pessoas a tentar escapar de áreas no Norte de África. Parecem-se com qualquer família europeia que poderia ser nossa vizinha”.

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“Aconteceu-lhes o impensável”

Lucy Watson, correspondente do canal de televisão britânico ITV na Polónia, é outra profissional que está a ser alvo de duras críticas nas redes sociais por ter feito comentários insensíveis sobre as circunstâncias atuais do povo ucraniano. “Agora, aconteceu-lhes o impensável. E isto não é uma nação em desenvolvimento do terceiro mundo. Isto é a Europa!”

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“Como se estivéssemos no Iraque ou no Afeganistão”

Ulysse Gosset, jornalista e colunista internacional da estação francesa BFMTV, também causou revolta com a forma como expressou indignação. “Estamos no século 21, estamos numa cidade europeia e temos disparos de mísseis de cruzeiro como se estivéssemos no Iraque ou no Afeganistão. Dá para imaginar?”

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“A guerra já não é algo visitado em populações empobrecidas e remotas”

Num artigo de opinião para o The Daily Telegraph, o escritor e jornalista britânico Daniel Hannan escreveu que o facto de os ucranianos serem tão parecidos connosco é o que torna o conflito armado tão chocante.

“A Ucrânia é um país europeu. Os seus cidadãos veem Netflix e têm contas no Instagram, votam em eleições livres e leem jornais sem censura. A guerra já não é algo visitado em populações empobrecidas e remotas. Pode acontecer a qualquer pessoa”.

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