166671111.jpg

Getty Images/iStockphoto

Perante um ato de violência há sempre quem lembre a história pessoal do agressor, que provavelmente foi agredido na infância e agora perpetua esse comportamento. No futuro, talvez sejamos obrigados a juntar outra justificação: a dieta. ‘Tinha falta de vitaminas por isso matou o vizinho’ será, obviamente, um extremo, mas a verdade é que pelos vistos a ligação entre comportamento e dieta existe.

Já sabíamos que a alimentação é um dos principais elementos a influenciar a saúde – ‘somos o que comemos’ é um cliché conhecido –, o que talvez não soubéssemos é que pudesse influenciar de forma tão direta o estado de espírito. Não devia ser uma surpresa tão grande, se pensarmos que não questionamos o efeito excitante da cafeína nem o efeito relaxante do álcool…

Alguns estudos têm vindo a verificar a associação entre a violência e deficiências nutricionais. Em causa estão, sobretudo, os aditivos alimentares, a desregulação dos níveis de açúcar no sangue – chamada hipoglicemia reativa –, e deficiências em vitaminas e minerais, como o zinco e os ácidos gordos essenciais ómega 3.

O que comemos afeta corpo e mente

O britânico Bernard Gesch foi pioneiro com um estudo, em 2002, sobre o efeito de suplementos de vitaminas e ácidos gordos essenciais em presos no Reino Unido. Os resultados foram sugestivos: houve, em média, menos 35 por cento de incidentes disciplinares com os presos que tomaram os suplementos.

O investigador finlandês Matti Virkkunen também fez vários estudos nutricionais em populações prisionais ao longo dos anos. Um dos critérios que pesquisava sempre era a glicemia, isto é, os níveis de açúcar no sangue. Invariavelmente, todos os presos avaliados tinham hipoglicemia reativa e produção anormal de insulina, uma condição associada à ingestão de alimentos com índice glicémico alto, os chamados açúcares rápidos. A nutricionista Daniela Seabra não se surpreende com a associação: “O que comemos afeta não só o corpo como a mente. O nosso cérebro funciona à custa de nutrientes. Quando falamos de neurotransmissores ou de emoções, na base estão sempre nutrientes fornecidos pela alimentação. Se, por alguma razão, temos deficiências nutricionais, podemos não produzir neurotransmissores em quantidade suficiente ou estes podem não funcionar da mesma forma. Há um estudo muito interessante em que se retirou da alimentação o triptofano, um aminoácido essencial na produção de serotonina, e ao fim de 10 ou 15 horas apenas essas pessoas começaram a ter sintomas depressivos.” Se está a interrogar-se, o triptofano está presente no queijo, amêndoas, nozes, laranjas, bananas, feijão, ervilhas…

Mais recentemente começaram a surgir ligações entre deficiências nutricionais crónicas e doenças cognitivas, como o alzheimer, a depressão, a esquizofrenia e o autismo. “Uma deficiência em iodo nas primeiras fases de vida está associada ao atraso mental, por exemplo. Deficiências mais ligeiras podem não provocar doenças mas ser responsáveis por uma diminuição na capacidade de resolver problemas, irritabilidade, ansiedade, agressividade, tudo sintomas que na maioria das vezes não associamos a falhas nutricionais”, explica.

Em busca de ómega 3  e de comida normal

Os micronutrientes são essenciais para as funções neurológicas. Os ácidos gordos essenciais, em especial, têm um papel estrutural no cérebro. Um deles, o DHA, está especialmente concentrado no córtex pré-frontal, uma parte do cérebro que regula as interações sociais, como a capacidade de articular pensamentos em conflito e visualizar as consequências de uma ação. O rácio dos diferentes ácidos gordos nas membranas celulares do cérebro é determinado pelo rácio na dieta. Há muitos indicadores de que uma alimentação rica em ácidos ómega 3 é essencial ao bom desempenho cerebral. O problema é que a dieta atual é demasiado rica em ómega 6 e deficiente em ómega 3. Michael Pollan descreve o fenómeno no livro ‘O Dilema do Omnívoro’  (Bertrand Editora), explicando que a maioria dos alimentos processados que comemos, desde bolachas a comidas prontas, passando pelo ketchup, tostas, bolos e massa folhada, contêm margarinas e óleo de palma, de girassol e de milho, muito ricos em ómega 6. Além de ter efeitos inflamatórios, o desequilíbrio resultante do excesso de ómega 6 e deficiência em ómega 3 na alimentação atual tem sido associado a comportamentos suicidas, agressivos e antissociais, tanto em populações criminais como na sociedade em geral, a crer em vários estudos. Pelo contrário, uma alimentação com altos índices de ómega 3, presente no atum, sardinhas, salmão, tem sido associada a baixas taxas de depressão. Também há indicadores de que a suplementação com ómega 3 pode beneficiar a doença bipolar, a esquizofrenia, a demência e a dislexia.

“Não há uma maneira certa de comer para toda a gente porque todos somos diferentes e temos suscetibilidades diferentes. Mas podemos começar por comer comida verdadeira em vez de alimentos processados, cheios de aditivos”, sugere Daniela Seabra.  Alguns aditivos induzem uma híper- estimulação neuronal. É o caso dos intensificadores de sabor, presentes em quase todos os produtos processados e, pelos vistos, capazes de tornar os miúdos hiperativos e provocar nervosismo em pessoas suscetíveis. Se vir no rótulo ‘glutamato monossódico’ ou ‘621’ está perante intensificadores de sabor. “Os fosfatos, presentes em cereais de pequeno-almoço, também estão associados à hiperatividade cerebral. Os miúdos sentem-se bem depois de comer, mas uma hora depois podem estar irritáveis, nervosos, não conseguem estar quietos. São malcomportados? Não. Estão sob o efeito de determinados compostos!” A simples falta de magnésio pode causar irritação, tensão, nervosismo e uma vontade repentina de fazer tempestades em copos de água. Para o evitar, é melhor certificar-se que inclui espinafres, feijões, sementes de abóbora, cevada, linguado e amêndoas tostadas na alimentação diária.

Reações pouco doces

Um dos fatores que os estudos com presos apontam como causa para comportamento antissocial é a desregulação dos níveis de açúcar no sangue ou hipoglicemia reativa. Foram feitos vários estudos que sugeriam uma ligação entre o consumo de açúcares rápidos e a hiperatividade nas crianças, mas a questão é polémica e em 1995 uma análise abrangente de todos os estudos feitos concluiu que o açúcar na dieta não influenciava o comportamento. Daniela Seabra lembra que aqui, como noutros casos, é preciso ter em conta a suscetibilidade pessoal ao açúcar. “Nem todas as pessoas serão tão reativas aos picos de insulina seguidos de quebra dos níveis de açúcar no sangue, mas nalguns casos eles podem causar muita irritabilidade. Há algumas pessoas em que percebemos que à medida que a hora de almoço se aproxima vão ficando mais irritáveis e às vezes a causa é simplesmente a quebra dos níveis de açúcar no sangue. Outro problema dos alimentos processados e com índice glicémico alto é que, ao exigirem uma grande produção de insulina, também desnutrem o organismo em crómio e zinco. E a deficiência em crómio, por sua vez, faz com que haja curvas de glicemia muito elevadas. Continuando a comer desta forma vamos induzindo a desnutrição.”

Qualquer destes elementos, por si só, tem uma influência pequena no organismo, mas se juntarmos um pouco de deficiência em magnésio e de hipoglicemia com os aditivos, ao pequeno almoço, almoço e lanche todos os dias, o problema torna-se maior. A boa notícia é que a solução também parece ser bastante simples: “Há estudos que mostram que miúdos que melhoram a alimentação melhoram as notas num trimestre. Pequenas mudanças têm grande influência, sobretudo quanto a micronutrientes. Ou de antinutrientes, como os aditivos. O melhor conselho que posso dar é não comer nada que a nossa avó não conhecesse quando era pequena. Não se alimentar de sandes, bolos, cafés e refrigerantes. Comer sopa, legumes, hortaliças, nozes…” De fora ficam também todos os alimentos light, as pastilhas e todos os alimentos processados que conseguir evitar. Nas palavras de Michael Pollan: comer comida, não demasiada, sobretudo plantas, parece ser um bom ponto de partida.

Macrobiótica na prisão

Entre 1980 e 1984 Francisco Varatojo, presidente do Instituto Macrobiótico, deu aulas no Estabelecimento Prisional do Linhó e ajudou a implementar a prática macrobiótica – uma filosofia alimentar com origem no Japão do século XIX – em cerca de 30 prisioneiros. “Aconteceu a pedido de um prisioneiro e graças à autorização do diretor da prisão rapidamente havia um grupo grande de interessados.

De início cozinhavam nas celas, depois foi-lhes facultada uma cozinha. Faziam uma dieta macrobiótica, muito diferente da comida da prisão. Não se fizeram quaisquer estudos, mas tenho a perceção de que os resultados foram notáveis. Muitos destes presos saíram antes do tempo por bom comportamento e alguns estão hoje ativos na sociedade a dar aulas nesta área, em Portugal e noutros países”, conta Varatojo. Para a macrobiótica há uma ligação direta e inequívoca entre aquilo que comemos e o nosso comportamento. “De forma geral, produtos animais, açúcar e produtos químicos tendem a criar comportamentos mais agressivos. Uma dieta baseada em cereais e vegetais cria uma atitude mais calma e compreensiva.

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

Moda:

Moda: "Look" festivaleiro

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Técnico e Vinci Energies Portugal apresentam novo Formula Student para 2025/2026

Técnico e Vinci Energies Portugal apresentam novo Formula Student para 2025/2026

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

O que os cientistas descobriram ao

O que os cientistas descobriram ao "ressuscitar" o vírus da gripe espanhola

Salgueiro Maia, o herói a contragosto

Salgueiro Maia, o herói a contragosto

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Não perca na CARAS: tudo sobre o casamento de Catarina, filha de António Costa, com João Rodrigues

Não perca na CARAS: tudo sobre o casamento de Catarina, filha de António Costa, com João Rodrigues

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Lady Kitty Spencer regressa a Roma para o desfile de alta-costura de Dolce & Gabbana

Lady Kitty Spencer regressa a Roma para o desfile de alta-costura de Dolce & Gabbana

Maria João Ruela reúne família na apresentação do seu primeiro livro

Maria João Ruela reúne família na apresentação do seu primeiro livro

Façam o favor de deixar de existir

Façam o favor de deixar de existir

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Todos os finais de 'Rainha das Flores'

Todos os finais de 'Rainha das Flores'

Banda Desenhada: O grande encontro na Amadora

Banda Desenhada: O grande encontro na Amadora

O

O "look" de Letizia no reencontro com a filha em Marín

Tudo isto é cinema

Tudo isto é cinema

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Parabéns, bicharada!

Parabéns, bicharada!

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Jéssica Nogueira arrasa nas redes sociais com vídeo ousado

Jéssica Nogueira arrasa nas redes sociais com vídeo ousado

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

Deus, intuição e Rock and Roll

Deus, intuição e Rock and Roll

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Pedro Benevides e equipa do ‘Jornal Nacional’ pregam partida a Andreia Vale e esta é a prova

Pedro Benevides e equipa do ‘Jornal Nacional’ pregam partida a Andreia Vale e esta é a prova

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

O grande negócio dos centros de dados

O grande negócio dos centros de dados

2 de novembro é que é Dia de Finados - mas porque há tanta confusão com esta data?

2 de novembro é que é Dia de Finados - mas porque há tanta confusão com esta data?

Recorde as melhores imagens da XXIX Gala dos Globos de Ouro

Recorde as melhores imagens da XXIX Gala dos Globos de Ouro

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1753

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1753

“Uma mãe-chimpanzé educa os filhos tal como uma mãe humana devia educar os seus”. Os ensinamentos de Jane Goodall numa entrevista a VISÃO

“Uma mãe-chimpanzé educa os filhos tal como uma mãe humana devia educar os seus”. Os ensinamentos de Jane Goodall numa entrevista a VISÃO

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1754

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1754

25 calendários do Advento para contar (melhor) os dias até ao Natal

25 calendários do Advento para contar (melhor) os dias até ao Natal

Investigadores conseguem novas

Investigadores conseguem novas "receitas" para reprogramar células que podem ajudar a combater o cancro

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário