
Foto: João Lima
É verdade que anda com o livro ‘Português para Totós’ no bolso?
(Risos) Sim, mas não me pergunte o que é que eu sei dizer em português, que é nada. O português é complicado, e só conseguiria aprendê-lo se vivesse cá durante algum tempo, o que não acontece. Além de ‘Achas que sabes dançar’ estou a fazer um talent show em Itália e passo a semana a correr entre Portugal, Madrid e Roma. E ainda preparo a nova ‘tour’, que começo dentro de poucas semanas.
Nasceu em Córdova. Que tipo de criança era?
Muito travesso, muito irrequieto. Brincava muito na rua com as outras crianças, jogava à bola e comecei a dançar muito cedo. Na minha família toda a gente dançava, com dois anos as crianças já estão a enrolar os dedos no ar. Depois o meu tio Cristobal levou-me a uma aula de ballet, e eu adorei desde a primeira classe. Tinha 12 anos e foi um mundo mágico que se abriu à minha frente.
Em Portugal ainda existe muito preconceito contra os rapazes que querem fazer ballet. Em Espanha também?
Hoje em dia já não, mas no tempo em que comecei, sim. Claro que senti isso. Todos os rapazes da minha turma faziam troça de mim por andar na dança. ‘Olha a menina’, e tal. A mim nunca me passou pela cabeça desistir, pelo contrário. Quanto mais eles me chateavam, mais eu persistia. O que é que fazia? Ia-me a eles (risos). Batia a todos.
Que significa a sua herança cigana?
A minha família era cigana e considero que sou um cigano nascido em Espanha. Para mim, ser cigano significa uma forma diferente de sentir, que ama a liberdade acima de tudo. O nosso sonho seria viver sem amarras. Hoje, sei que isso é utópico, mas como ideal, continua a fazer sentido para mim. Ainda hoje adoro viajar e conhecer o mundo.
E como é que vê o mundo?
Muito globalizado. Em todo o mundo as pessoas vestem-se da mesma maneira, pensam da mesma maneira, inclusive falam da mesma maneira. Dantes ias à Rússia e não havia a Madonna na Praça Vermelha, nem Adidas nem Nike. Os países perderam a sua personalidade. Claro que houve vantagens em termos de uma melhor comunicação e entendimento entre os povos, mas perdeu-se muito em identidade.
Foi por isso que decidiu expandir uma dança tão típica de Espanha?
Bem, não foi de facto uma escolha, o flamenco estava dentro de mim. Mas consegui misturar o flamenco com outras culturas musicais e outras formas de dançar, como o ballet clássico e a dança moderna. É um flamenco de fusão. Quer dizer, eu que tanto lamento a globalização, afinal também contribuí para isso (risos). Mas assim levei o flamenco a um público que o desconhecia.
Foi criticado?
Claro que fui muito criticado pelos puristas. Mas a diferença era que eu levava o flamenco ao mundo, e toda essa gente que há 30 anos me criticava hoje reconhece a minha importância. Hoje, o nome Joaquín Cortés é uma marca, reconhecida internacionalmente.
A paixão continua importante?
A paixão é tudo. Uma vida sem paixão é como uma vida sem amor, e as duas coisas têm de estar presentes num bailarino, porque senão és uma máquina sem sentimentos. Ao fim destes anos todos, o palco é a minha casa e deixo–me levar pela paixão.
Que qualidades tem de ter um bom bailarino?
Personalidade, talento e capacidade de trabalho. Um bailarino tem de lutar muito e ter muita disciplina. Não acho que um bailarino precise apenas de talento. Claro que tem de haver chama, sem isso nada acontece. Mas tem de haver igualmente muito trabalho, muita luta. Senão, és como um diamante em bruto. Mas hoje em dia até as pessoas têm falta de personalidade. Também nós estamos a ficar globalizados, iguais uns aos outros. Dantes havia mais carisma, mais diferença. Claro que há sempre exceções. E são esses que vão vingar. Por exemplo, Michael Jackson, o rei da pop. Tem muitos imitadores, mas único só havia ele.
Diz que cresceu rodeado de mulheres. Que mais o encanta numa mulher?
A complexidade. É muito difícil conhecer uma mulher, têm muito mais lados. Os homens são simples. E dou graças a Deus por ter crescido com tantas mulheres, que me deram essa sabedoria.
Gosta da fama de ‘latin lover’?
Tanto se me dá. Nunca penso nisso, foi um rótulo que me impuseram.
Que tipo de namorado é?
Um desastre (risos). Tenho dias bons e dias maus. O estado de enamoramento muda toda a tua vida, vês todas as coisas com mais felicidade. Mas também perdes um pouco a calma.
Trabalhou com Carlos Saura e Almodóvar. Como foi?
Totalmente diferente. Com Saura trabalhei num filme documental sobre flamenco, com Almodóvar fiz um pequeno personagem. Hombre, diverti-me mais com o Pedro, claro (risos). Almodóvar é muito controlador com os atores, mas eu era um bocado a carta fora do baralho e pude fazer o que quis. Ser ator é uma coisa que me diverte.
Que mais o diverte?
Sou um homem de gostos simples. Gosto de estar com amigos, de conversar, de ir ao cinema, adoro o mar e a praia.
E não o aborrece ser reconhecido em todo o lado?
Não me aborrece nada. Há pessoas que dizem ‘ah, o lado mau da fama é o reconhecimento e sair à rua e tal’, mas para mim não é o lado mau. Adoro tirar fotos com os fãs, falar com as pessoas. Isso já faz parte da minha vida, como tomar o pequeno almoço. Pelo contrário, todos os dias dou graças a Deus por esse reconhecimento.
Conhece alguma praia de Portugal?
Desgraçadamente ainda não. Portugal para mim é trabalho, tenho de vir de férias. Mas a mim o que me encanta nos países é a sua história, e Portugal tem História que nunca mais acaba. Adoro pensar nesta terra como a terra dos navegadores e das aventuras, adoro andar pelas ruas a olhar para as casas. Portugal tem isso em comum com Espanha.
E em que somos diferentes, espanhóis e portugueses?
Curiosamente, encontro mais semelhanças. Somos latinos, somos descendentes de grandes descobridores, temos uma grande ligação ao mar. Dizem que os espanhóis são mais apaixonados, mas conheço portugueses igualmente intensos. Temos ambos uma grande cozinha, embora, sim, a cozinha seja radicalmente diferente. Eu sou tremendamente guloso e sou um apaixonado por pastéis de Belém. Mas a vossa cozinha é muito mais voltada para o peixe, e eu sou carnívoro… (risos)
Alguma vez experimentou drogas?
Por que é que vocês têm todos a mania de que os artistas se drogam?
Bem, estou só a fazer o papel de advogada do diabo… (risos)
Não, nunca me droguei, a minha única droga é o café. Bebo litros de café por dia, bebo café antes, durante e depois dos ensaios. O meu sonho é conseguir injetar café na veia. E sabe por que é que nunca me droguei? Porque vi morrer muitos amigos nos anos 80, quando não se falava tanto nos perigos das drogas. Morreu-me muita gente nos braços, por isso tenho muito respeito – não medo – pelas drogas.
Dá-se com o universo das megaestrelas de Hollywood. São pessoas vaidosas?
São iguaizinhas a nós. E as maiores estrelas são as mais simples. Estive com gente superstar e tinham um feitio bastante fácil. Por exemplo, o Bono, dos U2. É um homem adorável. Ou Anthony Hopkins. Conheci-o há muitos anos, quando deram o Nobel da Paz a Ronald Reagan, e o apresentador da cerimónia era Hopkins. Eu ia dançar. Quando acabei de dançar, Hopkins veio ao meu camarim. É um homem grande. Pega-me nas mãos e diz: ‘Sou seu fã, há anos que sigo o seu trabalho’. E eu a tentar dizer-lhe que quem era admirador dele era eu. Foi muito bonito. De outra vez, quando estava a atuar em Nova Iorque, no fim do espetáculo disseram-me que uma pessoa queria falar comigo. Aparece-me o Paul Newman. Já era um homem idoso. De repente, põe-se de joelhos à minha frente e toca-me os pés. Eu, envergonhadíssimo, levantei-o imediatamente. Recordo muitas cenas lindas iguais a esta.
Quando é que está mais nervoso?
Estou sempre nervoso. Sempre. Os nervos fazem parte da vida de um artista. É algo que se torna a nossa segunda pele.
Tem algum ritual antes de entrar em cena?
Quando era novo, e a minha professora me dizia ‘Joaquín, mostra como se faz ao resto da classe’, eu ficava muito nervoso e costumava benzer-me e beijar o chão. Às vezes ainda o faço, mas hoje menos.
Alguma vez a sua vida pessoal interferiu com a sua atuação?
A vida pessoal transparece sempre no palco. O palco é uma radiografia da tua vida. Já tive de dançar em circunstâncias pessoalmente muito duras. Tento que não se note porque sou um profissional, mas sou humano e sofro. Quando a minha avó estava a morrer, eu estava a dançar na Hungria para cinco mil pessoas. Quando terminou o concerto, voei para Espanha mas já não cheguei a tempo. Foi muito, muito duro.
Como é um dia normal para si?
Um dia normal? Não, espere, deixe-me pensar. (risos) Tomar um pequeno almoço tranquilo, passear, comer, ir ao cinema. O problema é que quando tens um dia sem nada, o que de facto apetece é não fazer rigorosamente nada e ficar no sofá.
Qual é a sua missão na vida?
Continuo a ser o rapaz rebelde que tentou levar a minha cultura ao mundo. Acho que essa missão consegui cumprir bastante bem.
QUEM É JOAQUÍN CORTÉS?
Nasceu em Córdova há 46 anos e mudou-se com os avós para Madrid aos 12, idade em que começou a estudar dança. Com 15 anos foi aceite na Companhia Nacional de Ballet de Espanha. Aos 19 formou a sua própria companhia e lançou a primeira de muitas tours internacionais, criando aquilo a que chama ‘flamenco de fusão’. Entrou no filme ‘A flor do meu segredo’, de Almodóvar, e ‘Flamenco’, de Carlos Saura. Além do flamenco, ficaram famosas as suas relações com Naomi Campbell ou Mira Sorvino.