
NIck Wall
Meryl Streep estudava arte dramática, na Universidade de Yale, quando ouviu pela primeira vez o som notável de Florence Foster Jenkins em plena torrente. Foi, diz ela, inesquecível e hilariante: “Cada estudante de teatro, e certamente todos os músicos, sabe quem ela é”, lembra. “É uma espécie de lenda. Lembro-me da primeira vez que ouvi Florence, estava na faculdade, numa produção da peça ‘Sonho de uma Noite de Verão’, acompanhada pela música de Purcell. Todos os alunos da Escola de Música de Yale estavam no fosso da orquestra, reunidos à volta de gravadores e a gritar de tanto rir e nós a pensar ‘o que é isso?’. E essa foi a minha primeira introdução a Florence, há tantos anos atrás.”
Avançando para os dias de hoje, Meryl Streep imediatamente disse que ‘sim’ quando recebeu um telefonema a perguntar-lhe se considerava interpretar Florence para o cineasta britânico Stephen Frears – realizador que ela muito admira – no seu pungente e engraçado biopic da socialite de Nova Iorque, que nunca desistiu de seu sonho de se tornar uma grande cantora – mesmo tendo uma voz terrível.
Nascida na Pensilvânia em 1886, Florence era um prodígio no piano quando criança, mas suas ambições musicais foram frustradas pela recusa dos seus pais, que eram ricos, em financiar os estudos no estrangeiro.
Porém, a sua paixão pela música nunca diminuiu e, depois de trabalhar como professora de piano, enriqueceu ao herdar uma fortuna considerável, obtendo assim os meios para saciar o seu amor pela ópera.
Ela conheceu St. Clair Bayfield (interpretado no filme por Hugh Grant), o filho ilegítimo de um conde Inglês e um ator fracassado, e juntos tornaram-se os principais intervenientes na cena cultural vibrante de Nova Iorque nos anos que antecederam – e durante – a Segunda Guerra Mundial.
Filantropa generosa, subscreveu organizações de artistas e de músicos ajudou indigentes e fundou sua própria sociedade, The Club Verdi. Com Bayfield como gerente, encenou e protagonizou ‘tableaux vivants’ para audiências privadas, maioritariamente constituídas por amigos que não iriam julgá-la muito duramente.
Bayfield protegia-a da dolorosa realidade da sua voz ser limitada, garantindo – às vezes com a ajuda de uma ‘doação’ – que os comentários eram extremamente gentis e não muito verdadeiros.
Mas a decisão de Florence de dar um concerto no famoso Carnegie Hall, em honra dos soldados americanos que lutavam na guerra, em outubro de 1944, significava, como mostra o filme, que Bayfield não podia protegê-la da reacção selvagem ao seu desempenho.
Florence era, diz Streep, uma personagem cativante, que enfrentou desafios consideráveis durante a sua vida. Nascida numa altura (1886!) em que eram escassas as mulheres instruídas, mesmo entre as mais privilegiadas, teve expectativas de uma carreira, e canalizou o seu entusiasmo em musicais amadores. Florence também tinha contraído sífilis do primeiro marido e a doença era um perigo grave para sua saúde. Mas Florence recusou-se a desistir de seus sonhos e aproveitou cada oportunidade de viver a vida que ela queria – e isso incluía cantar.
“Acho que Florence tinha uma série de desafios na sua vida e estava numa idade e numa posição ‘sem sentido’ no mundo. Ela era, de certa forma, um bobo, uma mulher mais velha, inútil, rica, doente; e cada dia levantava-se e decidia: ‘estou a olhar para este copo meio cheio e eu vou ser tão feliz quanto puder’. E adorava música, acreditava no poder transformador da música, (mesmo não sendo boa nisso) e foi isso que amei nela”, conta a atriz.
Interpretar uma cantora que não sabe realmente cantar é difícil e enfrentar algumas das árias mais trabalhosas da ópera foi particularmente penoso. Mas Meryl Streep tem uma voz linda, o que mostrou com a sua performance, aclamada no filme inspirado no musical com temas dos ABBA, ‘Mamma Mia!’
Para se preparar para interpretar Florence Foster Jenkins, trabalhou com o professor vocal Arthur Levy e ensaiou intensamente com Simon Helberg, um músico talentoso, que interpreta o pianista que muito sofre por Florence, Cosme McMoon.
“Sinto-me como se eu fosse um cantor B – B, B + – Eu pairo em redor disso e estou muito ciente das minhas limitações; e mesmo tendo sido uma boa cantora no início, depois de começar a estudar ópera em criança, desisti muito cedo e arruinei a minha voz a fumar, a beber e na libertinagem “, diz a rir. “(…) Agora, com Florença a coisa é que, apesar de ser tão má, não é previsível. E a chave, o que Simon e eu fomos capazes de encontrar juntos, era que ela sempre foi capaz de manter a esperança de que pudesse chegar com segurança até o fim de uma frase, e ela deu (à audiência) razão para esperar muito! “
A preparação era essencial e Meryl soube que estava a conseguir alguma coisa durante uma sessão com Levy, que lhe tinha sido recomendado pela seu co-protagonista no filme ‘Ricki and the Flash’.
“Estava a filmar um filme de Rock ‘n Roll e a cantar na extremidade inferior da minha voz (adota uma voz baixa)’ tipo de aqui debaixo’, mesmo antes deste, e a minha colega no filme foi a Audra McDonald, que é uma dos maiores cantoras da América e ela indicou-me o seu professor. E disse-lhe: ‘acha que ele alguma vez vai perdoá-la?”, confessa Meryl. E continua: “Mas ele é grande; Arthur Levy é um fantástico treinador (vocal), em Nova Iorque e por isso, duas vezes por semana, durante cerca de um mês, fui até ele e quebrei o seu espírito (a brincar, claro) Mas era uma risada …”
“Quando soube que tínhamos alcançado alguma coisa foi quando o pianista que nos acampanhava, que tocava assim (faz uma cara séria) – a despeito do seu ar sério, sorriu. E eu pensei que poderia ser o começo de algo muito divertido.”
Cantar ao vivo no set das filmagens teve seu preço. “Foi difícil. Perdi a minha voz após o primeiro dia e tomei um banho de zimbro e bebi chá durante toda a noite e voltámos e não fizemos tão bem na parte da manhã, mas levei as coisas com mais calma, e à tarde estava tudo bem”, conta.
“É uma música muito desafiadora. Florence era capaz de acertar em algumas notas muito difíceis, pode-se ouvir nas gravações, e depois, inexplicavelmente, tinha problemas nas partes fáceis. É imprevisível, e a antecipação selvagem é parte da diversão “, diz.
O resultado, na tela, é hilário. E houve momentos no set em que o elenco foi incapaz de parar os risos durante as filmagens de uma cena: “Eu não tenho um grande controle. Sou muito má em não rir “, diz a atriz. “Parte de estar presente como ator é estar vivo para algo que está a acontecer, e se a coisa que está a acontecer é engraçada, então você está numa linha perigosa. Sim, estamos a concentrar-nos no que fazemos, mas, ao mesmo tempo, estamos vivos para o facto de que isso é ridículo. E Simon [Helberg] faz-me rir. Olhava para ele e as suas reações foram inestimáveis”.
Porém, como conta, “Stephen [Frears] não achou graça da terceira vez que isso aconteceu. Ficou menos do que encantado com isso, mas eu também não me queria rir, porque só tinha uma quantidade finita de voz para o dia. Ninguém canta a ária ‘A Rainha da Noite’ mais do que duas vezes por semana na ópera – isso não acontece. Ninguém nunca faria isso com a sua voz. Eu cantei-a oito vezes num dia, e depois voltei no dia seguinte e cantei novamente, e mais duas outras canções, porque só tivemos no Carnegie Hall por dois ou três dias. “
Florence Foster Jenkins é também uma história de amor muito suave – embora um pouco convencional. Casados apenas numa cerimónia privada, em casa, Florença e Bayfield foram, de todas as formas, um casal dedicado por mais de 30 anos até à morte de Florence, apenas alguns meses após o famoso concerto no Carnegie Hall, com a idade de 76. Bayfield, como mostra o filme, tinha amante, Kathleen (Rebecca Ferguson).
“Eu acho que Florence contou com o amor de Bayfield e a forma terna como ele cuidava dela, e isso é algo que a fez florescer”, diz Streep. “Ela lutou com as sombras de conhecimento da sua outra vida, e talvez ela entendesse e não se importasse de olhar para ela, mas eu amo aquele relacionamento. Eu amo a frase no script em que ela diz, ‘Sabe, ele não era um ator muito bom. Ocasionalmente, tivemos de ocultar as críticas. “
Amplamente considerado como a melhor atriz de sua geração, Meryl Streep foi três vezes vencedora do Óscar de Melhor Atriz (‘Kramer v. Kramer’, ‘A Escolha de Sofia’ e ‘A Dama de Ferro’) e tem o recorde de dezanove nomeações para o Óscar.
Ao crescer em Nova Jersey, esteve no coro da escola secundária e em musicais, e formou-se no Vassar College, com especialização em Drama; o seu projeto de tese foi em guarda-roupa. Depois de um ano trabalhar em venda de acções, ganhou uma bolsa para a Yale School of Drama, graduando-se com honras em 1975.
Fez a sua estreia na Broadway em ‘Trelawney do Wells’ (1975), apresentada por Joseph Papp no Lincoln Center. A estreia na tela pequena foi com o telefilme ‘The Deadliest Season’ (1977) e sua estreia no cinema com ‘Julia’ (1977).
Ao longo dos últimos 40 anos, passou a forjar seu próprio caminho único, como atriz, assumindo uma panóplia de funções e estabelecendo-se como uma mestre inigualável de carácteres.
Alguns de seus filmes mais conhecidos incluem ‘A Mulher do Tenente Francês’, ‘O Caçador’, ‘Kramer vs. Kramer’, ‘A Escolha de Sofia’, África Minha’ e ‘As Pontes de Madison County. Os seus trabalhos mais recentes incluem ‘A Prairie Home Companion’, ‘O Diabo Veste Prada’, ‘Mamma Mia,’Julie e Julia’, entre outros.
O filme ‘Florence, Uma Diva Fora de Tom’, estreia dia 1 de Setembro nas salas portuguesas. O trailer fica aqui: