Não deixe que o seu filho seja violento na escola

‘Ser professor, hoje, é ser herói ou louco.’ Quem o diz, para ilustrar a crise de autoridade que esta classe enfrenta, é Eulália Barros, especialista em insucesso escolar, dificuldades de aprendizagem e problemas comportamentais em crianças e adolescentes, co-autora com Daniel Sampaio de livros sobre o tema da Psicologia e Pedagogia infanto-juvenil. Os exemplos estão à vista: alunos que batem em professores e lhes vandalizam os pertences, pais que vêm à escola para acertos de contas que acabam ao murro.

Muitos direitos, poucos deveres


Eulália Barros não embarca na explicação simplista de que a violência nas escolas é um fenómeno típico de jovens desfavorecidos de bairros problemáticos. ‘Dentro da escola, não há nem mais nem menos violência do que fora, porque a escola é um reflexo do meio que a envolve.’ Os pais estão a delegar na escola um papel que só a eles compete. ‘A educação e os valores não se ensinam, transmitem-se no convívio familiar. A crise a que se chegou também é consequência da dissolução dos laços familiares, da crise da família e dos adultos, que não se assumem como adultos, mas antes como jovens pouco responsáveis, tal como os filhos. A criança só se estrutura como pessoa de qualidade se tiver adultos sólidos à sua volta, que lhe dêem muita segurança, rotinas que lhe introduzam valores, cumprimento de regras, cultura familiar. Mas os meninos saem de manhã para a creche, de onde a mãe só os vai buscar às sete da noite, e já sem disponibilidade interior de escuta.’

Não é só a violência contra professores que aumentou: a agressão de filhos contra pais também, e não podemos desligar estes dois fenómenos. ‘Na Psicologia dos anos 70 nasceu a noção da ‘criança-anjo’, em que se não pode tocar. Isso trouxe a ideia de que dar uma palmada a tempo e horas ou chamar-lhes a atenção as atitudes que lhes criam resiliência, ou seja, capacidade de resistir a algo já não se tomam. Todos temos, hoje, uma imensa consciência dos direitos que nos assistem. Mas quem é que tem dos deveres?’, observa Eulália Barros. ‘Como temos dificuldade em alimentar as emoções das crianças com valores, educação, afecto, bondade, alimentamos-lhes as sensações com coisas que lhes compramos e que, meia hora depois, perderam interesse. Como somos todos dependentes, queremos sempre mais. É preciso repensar uma nova estrutura moral. Dela vem o equilíbrio e a confiança entre gerações.’



‘Para que serve o que me ensinam?’

Mas o sistema educacional também está em crise. ‘Apesar de tudo, a escola ainda é relativamente estável e sólida. Os miúdos sabem que aqueles adultos vão lá estar, todos os dias, e são a única coisa estável na vida de muitos deles.’ Mas os conteúdos que a escola tem para oferecer não chegam para as suas expectativas. ‘As crianças percebem que a escola não tem diversidade de ofertas de preparação académica e profissional. Um aluno é obrigado a ir à escola, anda lá 12 anos e não tem profissão, não adquiriu um saber fazer. Hoje, basta a televisão para um adolescente perceber que as ofertas lá fora são muito mais interessantes. Agredimos o que é importante para nós e os miúdos sabem que a escola é muito importante na vida deles.’

Não admira, portanto, que alguns se rebelem contra uma escola que, na maior parte dos casos, só os prepara para cursos universitários de carácter formal e abstracto. ‘Para que é que isto serve, afinal?’, parece ser a pergunta cada vez mais comum na boca de muitos jovens. A escola está desajustada: o modelo que hoje temos ainda é decalcado do liceu da época de Napoleão, alerta Eulália Barros.
Eulália Barros aponta ainda o dedo à Comunicação Social por amplificar o fenómeno da violência aos olhos dos jovens e adultos que assistem a noticiários onde pais e alunos dão sovas a professores.’Claro que há violência e problemas novos, mas há também coisas extraordinárias de que nunca se fala.’



Professores sem autoridade

‘Antigamente, o professor era uma figura de autoridade, que punha e dispunha, física e emocionalmente, dos alunos’, lembra a psicóloga. Hoje, a situação é a inversa. A ideia pedagógica da criança intocável e soberana cresceu à medida que a autoridade do professor enfraquecia. ‘As mesmas ideologias que influenciaram as mães com os traumatismos das crianças também influenciaram os políticos. Os castigos passaram a ser muito traumatizantes.’ Os professores que têm a sorte de conseguir colocação são lançados às feras pouco depois de abandonarem a faculdade, sem noção de como gerir 20 ou 30 egos juvenis numa sala de aula. ‘Não são competentes em vários planos porque a sua formação inicial é um caos e só os prepara para o tal modelo de liceu desajustado.’

O estatuto do aluno, que a política educacional promoveu nos últimos anos, também criou uma máquina demasiado burocratizada e lenta a resolver casos de violência. ‘A escola tem regulamentos disciplinares com os quais nem um adulto inteligente e com boa memória consegue amanhar-se! Além disso, parece-me que se meteram demasiadamente os pais nas escolas, e isso confunde as crianças. São papéis diferentes. Uma criança precisa de saber que nem tudo o que faz em casa a professora tem de saber. E, na escola, tem de contar com o professor para que nem tudo o que lá faz se saiba em casa. É preciso que se crie aos olhos da criança algum distanciamento e diferença entre os papéis de um e outro.’

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