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Provocadores e agressores sempre existiram nas escolas. Alimentam-se do medo e insegurança de outros miúdos. Se antes roubavam o dinheiro do almoço, batiam ou insultavam, tudo no recreio ou no caminho da escola para casa, hoje a Internet e os telemóveis são o seu novo território de ‘caça’. ‘Bully’, o termo inglês para designar estes provocadores, tornou-se comum para designar a agressão repetida entre pares em que há desigualdade de poderes. Para os bullies qualquer razão é boa para se humilhar ou ameaçar outro miúdo: ser muito alto, muito baixo, gordo, magro, ter uma religião, etnia ou sexualidade diferente, ter dificuldades de aprendizagem ou ser o mais esperto da turma. À conta disso há quem vá parar ao psicólogo, quem fique doente, falte às aulas, mude de escola e até quem se suicide.

Tragédias começaram no ciberespaço

Em 2006 Megan Meier, uma adolescente norte-americana a dias de completar o seu 14.º aniversário, enforcou-se depois de ter recebido mensagens humilhantes e enraivecidas de um tal Josh Evans, supostamente um rapaz de 16 anos com quem tinha começado a namoriscar online. Mas ‘Josh’ era, na verdade, Lori Drew, a mãe de uma ex-amiga de Megan, que criou uma conta no site Myspace, com a ajuda da filha e de uma amiga, para obter informações e humilhar Megan, uma vingança pelo facto desta ter, alegadamente, caluniado a sua filha. Numa das mensagens podia ler-se “O mundo seria um lugar melhor sem ti”. O caso foi a tribunal, mas Lori foi ilibada de responsabilidade no suicídio de Megan.

No Reino Unido, o bullying há muito assumiu contornos assustadores. Uma das organizações que mais se bate pelo fim do fenómeno, a ‘Bullying UK’, tem um dos sites mais visitados em http://www.bullying.co.uk/. Segundo a organização, em média 16 jovens cometem suicídio, todos os anos, por serem alvos de bullying. Naquele país, a partir dos 10 anos, uma criança assume responsabilidade criminal pelos seus actos e existem leis para punir o bullying. Mas isso não impediu que, em Janeiro de 2009, a britânica Megan Gillan, de 15 anos, tomasse uma overdose fatal de analgésicos depois de receber insultos dos colegas no seu site da rede social Beebo sobre as suas “roupas e aparência miserável”. A mãe de Megan contou que, na véspera do suicídio, a filha lhe tinha dito que não iria à escola na manhã seguinte, ao que lhe terá respondido negativamente: Megan tinha um teste de ciências e não convinha faltar. Mas prometeu-lhe que iria buscá-la logo depois e que a filha não teria de ficar na escola o resto da tarde. A mãe crê que não se tratou de um suicídio e antes de uma tentativa de parecer mal disposta na manhã seguinte, de modo a ser dispensada de ir à escola, ou como uma chamada de alerta.


Redes sociais, terreno de caça

Com o advento da Internet e dos telemóveis, os métodos dos bullies refinaram-se: insultos, chantagem, roubo de identidade – alguém abre uma conta fazendo-se passar por outra pessoa -, publicação de fotos embaraçosas, boatos e calúnias publicados em sites de redes sociais, ameaças constantemente enviadas para telemóveis e e-mails. Já há histórias nacionais de quem tenha aberto contas em sites de redes sociais como Facebook, Hi5 ou Myspace em nome de ex-namorados (ou namoradas), publicando fotos íntimas e o número de telefone da pessoa em causa, associando-a a convites de índole sexual. E alunos que fizeram o mesmo a professoras.

A Internet é a arma perfeita para os bullies, como explica Daniel Cardoso, investigador da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e responsável nacional do projecto EU Kids Online 2. “Através da sensação de anonimato, instantaneidade e facilidade da transmissão de mensagens, passa facilmente a ideia de que se pode fazer muita coisa sem grandes consequências. Por outro lado, é muito mais fácil também carregar no botão de ‘bloquear pessoa’.”

Uma ideia partilhada também por Joel Haber e Jenna Glatzer no livro ‘Bullying, Manual Anti-agressão’ (Casa das Letras): “O facto de ser anónimo pode também fazer com que desapareçam sentimentos de culpa ou empatia – afinal, o agressor não tem de ver as lágrimas nos olhos do alvo.”


Quem são os agressores

Margarida Gaspar de Matos, psicóloga clínica e professora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, debruça-se sobre o tema no livro ‘Jovens com Saúde: Diálogo com uma Geração’ (Texto Editora), no capítulo ‘Os Novos Horizontes dos Internautas’. Para a autora, o ciberbullying é “a perseguição sistemática e deliberada por parte de alguém mais forte sobre outro (e devemos sempre neste fenómeno considerar os provocadores, os provocados e as vítimas provocadoras/duplo estatuto).” Daniel Cardoso acrescenta: “Nem toda a agressão online é cyberbullying, porque nem toda ela é continuada no tempo – podem ser apenas episódios esporádicos, não correlacionados, num curto espaço de tempo. A questão do anonimato torna ainda mais difícil separar as duas coisas.”

Mas quem são os agressores? “Podemos pôr a hipótese que os jovens provocadores na vida ‘real’ são os mesmo provocadores online, que acrescentaram este procedimento ao seu reportório de provocações, mas podemos também pôr a hipótese que o cyberbullying permite a jovens menos robustos fisicamente retaliar online as provocações de que são alvo ‘ao vivo’, na escola. O envolvimento em actos de bullying está associado a isolamento na escola e na família, mal-estar físico e psicológico”, diz a psicóloga. Só em casos extremos e muito raros é que podemos falar em jovens com graves problemas emocionais e psicológicos, distantes, pouco emotivos e hostis e relações muito agressivas na família, que gostam de humilhar e magoar sem justificação. A equipa coordenada pela psicóloga vai, este ano, estudar o fenómeno do ciberbullying a nível nacional, um projecto que nos dará as primeiras luzes sobre o fenómeno.

“No cyberbullying as ameaças, insultos, piadas e assédio sexuais são as práticas mais frequentes, embora ainda não tenhamos a certeza da sua distribuição nos dois géneros”, continua a psicóloga. Se tradicionalmente o fenómeno está muito mais ligado aos rapazes, as meninas começam a ganhar terreno usando as novas tecnologias, como explica Daniel Cardoso. “Este tipo de agressão está mais associado ao bullying feminino – boatos, insultos, agressões verbais no geral. Apesar de ainda não existirem dados para Portugal, alguns estudos norte-americanos apontam para uma igual distribuição de género no cyberbullying.”

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