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Do maior ao mais pequeno, os animais exercem sobre as crianças um fascínio enorme. E aqueles que adoram animais podem até retirar dessa amizade vantagens para o seu desenvolvimento afectivo e intelectual e desenvolver uma noção de responsabilidade salutar. Mas, ao mesmo há crianças que desenvolvem um pânico enorme de certos animais como o cão ou até de insectos. E não há nada de errado ou de patológico nisso, como explica Teresa Amaral pedopsiquiatra da Clínica da Criança.
Feras e bichinhos: todos metem medo
As fobias de animais começam a aparecer por volta dos três anos. “Só nessa fase é que há desenvolvimento mental para isso”, explica Teresa Amaral. “ Esse medo corresponde a maturidade por parte da criança. Antes disso, facilmente se põe em situações de risco porque não tem medo. É bom ter medo porque o medo é defensivo!” Essa fobia pode nem sequer ter sido gerada por uma experiência física negativa, como ter sido mordido, porque o medo é natural, inconsciente e instintivo. E há idades próprias para as fobias animais. “Entre os três e os seis anos, as crianças temem animais grandes como o cão, o lobo, o leão, o elefante, porque são maiores do que eles em tamanho e ameaça. Têm medo de serem devorados, atacados ou feridos. Não é por acaso que existe a figura do papão.” Este medo pode até passar para animais que já não existem… há milhões de anos. Desde que o filme Jurassic Park estreou, há 14 anos, tantas são as crianças que sentem umfascínio grande pelos dinossauros, como um medo terrível. “Quando apareceu o Jurassic Park vi imensas crianças muito, muito assustadas! Havia crianças, de todas as idades, que entravam em pânico quando viam o filme, mas muitas tinham passavam muitos meses com pesadelos, insónias e enurese”, conta a pedopsiquiatra.
“Depois dos sete anos, os medos vão para bichos muito pequeninos: formigas, aranhas, lagartixas, minhocas, ratos, animais rastejantes e mais pequenos do que ele. Já é outro tipo de medo: o da invasão, da entrada da bicharada dentro do corpo e dos seus orifícios (boca, nariz, ouvidos, órgãos sexuais). E gera uma angústia terrível.”
As fobias são comuns nos dois sexos, mas quando falamos de pequenos animais, Teresa Amaral diz serem mais habituais nas raparigas. “O tempo, geralmente, encarrega-se de fazer desaparecer estes medos. Eles são normais dentro daquelas idades. O que não é normal é que persistam depois disso.”
Ultrapassar as fobias
É preciso não ridicularizar nem forçá-la a conviver com um animal, na esperança que a terapia de choque actue. Um dos medos mais comuns em relação a animais domésticos é relativo ao cão. “Sejam pequenos ou grandes, ladram e rosnam e estes são ruídos assustadores, primários, ruídos de fera”, explica Teresa Amaral. “Às vezes, os pais são os principais culpados deste medo, quando pegam logo na criança ao colo se vêem um cão na rua, por exemplo, ou quando dizem ‘Olha o cão mau’, ‘Olha o lobo mau’. Incutem esse medo na criança”, diz Fernando Silva, especialista em treino de cães e mentor do Centro de Educação Canina de Cascais – o Educacão.
Os terapeutas e pedopsiquiatras tratam as fobias de animais recorrendo ao que chamam técnica de dessensibilização. Progressivamente, vão aproximando a criança do objecto do seu medo. Podem começar por ver fotografias ou filmes, passando depois por tocar uma figura desse animal (um peluche, por exemplo). Passa-se depois à visualização de um animal vivo, mas ainda sem toque. Tudo isto até que a criança seja capaz de estar ao pé do animal de uma forma controlada. “O cão é um animal irracional, que pode ter comportamentos agressivos inesperados, e não sabemos que estímulo pode desencadear essa agressividade dele”, adverte Teresa Amaral.
Acostumar-se ao melhor amigo
Na Educacão aparecem, de vez em quando, pais preocupados com o pânico que as suas crianças têm de cães e Fernando Silva ajuda-as a ultrapassar esse obstáculo, convidando pais e crianças a assistir a treinos de agilidade.
Arranjar um amigo de quatro patas para ajudar o seu filho a vencer o medo pode até vir a revelar-se uma boa táctica, mas atenção. “É preciso não forçar demasiado as coisas porque uma aproximação gradual requer algum tempo. Terá de ser sempre um cão muito calmo, muito sociável, de preferência adulto e não cachorro, que não levante as patas do chão porque isso pode assustar a criança.” Mas não é necessário arranjar um cão para eliminar o pânico do seu filho. Pode, simplesmente, pedir a um amigo ou vizinho que traga dele, se for calmo e sociável. “O ideal é que se faça deitar o animal no chão, junto à criança, sempre com o adulto por perto, e pedir à criança que se aproxime gradualmente”, explica Fernando Silva. “A criança pode também acompanhar um adulto quando este passear o cão pela trela.” Com o tempo, se for um animal que goste de ir buscar objectos ou brinquedos, pode ensinar-se a criança a brincar com ele desta maneira.
As raças que, tradicionalmente, melhor socializam com crianças são os Retrievers, São Bernardos e outras raças de temperamento calmo e pachorrento. “É preciso escolher um bom criador e, dentro de uma ninhada, o cão menos nervoso. As raças pequenas também podem ser indicadas para estes casos. Os cockers (excepto os spaniels, que têm um comportamento mais imprevisível), de bons criadores, os King Charles, são cães de pequeno porte, muito calmos e sociáveis.”