Estamos a educá-los para um mundo que não existe?

A tendência está a ser notada por pais e professores: as crianças e adolescentes estão a viver cada vez mais através da televisão. Os heróis deles são os da telenovela, aderem sem pensar a tudo o que lá aparece, compram aquilo que lhes querem vender, e a maioria delas tem muito poucas experiências de vida para além daquelas que ‘vivem’ em segunda mão.

Segundo um estudo do Fórum da Criança, apresentado no 2º Seminário de Marketing Infantil, que estudou crianças portuguesas dos 4 aos 12 anos, ver televisão ocupa a maior parte do tempo livre para 95% delas! De acordo com estatísticas americanas, 70% dos infantários têm televisão. Num ano, uma criança passa 900 horas na escola e quase 1023 horas em frente de um ecrã. “E não é apenas o ecrã da televisão,” nota Sara Pereira, socióloga da Universidade do Minho, responsável por vários estudos sobre as crianças e a televisão. “O mundo delas é feito de muitos ecrãs: o da televisão, o do computador, o da playstation…”

O perigo do excesso de novelas

À partida, a televisão nem seria grande culpada: “Ela é, em si mesma, um excelente meio de educação,” defende a psicóloga Teresa Heitor Ferreira. E se todos nós chegamos a casa e gostamos de ver a telenovela, sem pensar em tristezas, quem é que tem coragem de negar esse enorme prazer às crianças? A televisão é, nas nossas vidas, o equivalente às guloseimas: um bombom de vez em quando adoça-nos. Mas se nos alimentarmos exclusivamente deles, ficamos obesas. Estarão as nossas crianças a correr o risco de ficarem ‘obesas’ de alma? E que consequências é que isso terá na sua vida?

“O problema é que a grelha de programação obedece mais a interesses económicos do que educativos”, nota Teresa Ferreira. E esta ‘dieta’ perversa é a alimentação espiritual exclusiva de muitas crianças. “O que me parece mais preocupante é que vivem pregadas a um único género de programa: a telenovela”, explica Sara Pereira. “Se essas novelas fossem discutidas, até podiam ser elementos interessantes. O problema é que elas são consumidas, tanto por pais como por filhos, absolutamente sem reflexão. E, como eles só vêem aquilo, em termos culturais, sociais e pessoais, isto limita muito uma geração! Se elas tivessem oportunidade ou motivação para verem outras coisas, a televisão podia até servir para abrir horizontes, mas isso não está a acontecer.”

Além do mais, as crianças estão a ser ‘cobaias’ de um novo género, a novela infantil. “Até aqui tínhamos a telenovela para adultos que as crianças também viam. Hoje em dia, há telenovelas feita especialmente para os mais novos”, explica Sara. “Os ‘Morangos’ são mais reais, a ‘Floribella’ mais fantasiosa, mas se os jovens tivessem oportunidade de conhecer outras realidades, o facto de verem telenovelas para mim não seria nada preocupante. O que me preocupa é que o mundo deles actualmente só passa por ali.”

Quando a imaginação ‘morre’

“A televisão é indissociável da actual organização da sociedade: consumo rápido e excessivo, ritmo de vida frenético, culto da aparência, pouca preocupação com as relações, mundo imaginativo mais pobre, sonhos de mão dada com o verbo Ter. A família é menos participativa nas actividades das crianças e estas crescem sozinhas – e mal acompanhas pela televisão”, resume Teresa Ferreira. “Muitas crianças têm a televisão como única companhia”, reforça Sara. “Isto é uma questão social muito grave que todos acham normal mas que devia estar a preocupar-nos: estamos a ficar terrivelmente ‘apertados’ em termos de horizontes.”

A questão é precisamente essa: que horizontes dá um ecrã às crianças? Ao que parece, muito limitados… “Preocupa-me a existência de crianças isoladas, deprimidas, pouco imaginativas, que não sabem conversar, muito longe do desenvolvimento de todas as suas potencialidades, pouco expressivas, pouco empáticas com os outros: corremos o risco de estar a criar crianças anestesiadas,” nota Teresa Ferreira.

A perda da noção de esforço

Curiosamente, é nos adolescentes que esta influência mais se nota. E nas duas especialistas, a conclusão é a mesma: as noções de tempo, espera e esforço desapareceram dos ecrãs e correm o risco de desaparecer da vida deles. “A noção de tempo na televisão e na vida real é totalmente diferente: quer o tempo da tarefa em si, quer o tempo em termos mais latos, o tempo de espera”, explica Teresa. “Quer nos ‘Morangos’ quer na ‘Floribella’, está sempre a acontecer muita coisa e o próprio ritmo das tarefas mais simples, por exemplo, pôr a mesa, é acelerado. Isto pode levar à ideia de que não temos que nos sujeitar a esforços, nem a tempos de espera para atingir os nossos objectivos. E a dificuldade em gerir os ritmos de tempo e esforço pode ter consequências nos estudos e até na vida adulta.”

“Mesmo nos ‘Morangos’, vemos um colégio, mas quando é que os vemos a estudar? Nunca!”, desabafa Sara. “Ficamos com a sensação de que a verdadeira vida é cá fora, que eles estão apenas ali a passar o tempo e que aquilo não tem relação nenhuma com o futuro deles! E, depois, na impossibilidade de confrontar isso com outras realidades, os mais novos pensam que é assim que se leva a vida, na boa…”

O papel da família está ameaçado

Problemas e conflitos da vida, quando os há, são apresentados nas telenovelas sem qualquer elaboração: “Isto pode resultar numa confusão de valores entre aquilo que a televisão transmite e o que lhes é passado pela família”, nota Sara. “Por exemplo, em muitos desses produtos um adulto nunca é um facilitador, um orientador, é sempre um entrave à vida deles. E nós sabemos que não é assim, que na vida ‘real’ os jovens gostam e precisam de orientação. Claro que isto ajuda à progressão da história e à criação de conflito, sem o qual não há novela, mas as coisas não podem ser tratadas dessa maneira!” Isto pode levar a uma falta de rumo na vida deles. “Eles hoje entram muito mais cedo no mundo dos adultos, mas, de facto crescem cada vez mais tarde, e a adolescência prolonga-se para dentro de um mundo de estufa, que os impede de se afirmarem mais cedo. Por exemplo, só às portas da faculdade é que começam a perceber que é preciso estudar.”

Profissão: famoso

Ah, chegar à faculdade, escolher uma carreira: mas como é que se escolhe uma carreira pela lei do menor esforço? “Quando se trata de escolher uma profissão, os adolescentes de hoje são ao mesmo tempo muito ambiciosos e cada vez mais irrealistas. Enquanto para alguns a ambição é um trampolim, para muitos resulta em desapontamento e desânimo e não optimismo e sucesso.” Estas são palavras do sociólogo americano John Reynolds, que comparou os planos de carreira e depois as verdadeiras carreiras de adolescentes em 1976 e 2000, e percebeu que a diferença entre os planos e a sua concretização cresceu de forma abismal entre as duas datas.

“A noção de realização, para muitíssimos adolescentes, não passa por uma ‘carreira’, mas por qualquer coisa que dê fama”, nota Teresa Ferreira. “Ouve-se muito nos reality-shows, quando lhes perguntam porque é que estão ali, eles responderem: ‘para ser famoso’. Querem ser ‘famosos’ como se famoso fosse uma profissão em si. Não vêem a fama como uma consequência de qualquer coisa, vêem-na como um objectivo a atingir – e de forma fácil.”

A forma como o trabalho é apresentado nas telenovelas para adolescentes não ajuda: “Repare nas profissões que eles têm, quando as têm: trabalhar num bar de praia… É qualquer coisa apresentada como levezinha e divertida. A adolescência é-lhes prolongada com todas as consequências que isso possa ter.””A imagem que é transmitida é sempre de facilidade”, confirma Sara. “Por exemplo, seria interessante os pais e professores lerem com as crianças algumas reportagens sobre a vida dos actores que mostram como de facto aquilo pode ser um trabalho duro, que exige esforço. Porque muitas vezes os jovens não distinguem entre o papel representado e a pessoa que o representa. Eles querem ser ‘conhecidos’, mas nem se interrogam sobre o que significa a fama, e como é que isso se repercute na vida de uma pessoa. Não sabem quantos ‘famosos’ tiveram de deixar os estudos para trás, nem quantos deles se vieram a arrepender da opção que tomaram.”

Ou seja: “Aquele mundo que parece tão bom quando comparado com a ‘seca’ da escola pode parecer-lhes bem melhor que o deles, mas conversem com eles sobre essas questões!” Faz muita falta essa reflexão com as crianças, talvez porque os próprios pais não a façam, e sejam muitas vezes tão deslumbrados e inocentes como elas…

Acompanhe o seu filho

Reflexão, consciência: estas são palavras-chave para impedir que os mais novos estejam a ser educadas por estranhos. “As séries e telenovelas não terão grande ascendência se a família for organizada e com influência nas suas crianças”, explica Teresa Ferreira.

Ou seja, lembre-se sempre que você é mais forte que qualquer telenovela. “Uma relação parental presente e de qualidade vai mediar, direccionar e atenuar os conteúdos menos adequados,” explica Teresa. “Mesmo um ‘mau’ programa, quando é objecto de conversa entre pais e filhos, pode ser educativo. Pelo contrário, se for visto por uma criança desacompanhada, que não tenha idade para aceder aos seus conteúdos, pode ser perturbador. Também a cultura da imagem e do prazer sem esforço são mensagens que entram mais facilmente se há pouco tempo de convívio com os pais, se, no fundo, estes não conseguem ser modelos que se sobrepõem aos do ecrã.”
 

Teresa aconselha os pais a retirarem a televisão do quarto das crianças e a desligá-la durante as refeições. “Chamem a atenção para determinados programas que achem interessantes e vejam-nos com eles. Tenham DVDs (escolhidos em conjunto) à mão para quando as crianças ficam a ver televisão sozinhas. Atenção que proibir não é uma boa ideia, porque o fruto proibido é sempre o mais apetecido, mas mostrem outras opções, conversem, direccionem.”


Por que não levá-las de vez em quando ao seu trabalho? Tire-as de casa, desenvolva as suas capacidades, converse com eles para que aprendam a conhecer os seus pontos fortes e fracos, leve-as a viajar, leve-as a casa dos seus amigos, explique-lhes o que eles fazem. Ou seja: mostre-lhes que há muito mais na vida do que aquilo que vêem nas telenovelas.

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